domingo, 21 de maio de 2017

OUTRO EU


Demétrio Sena, Magé - RJ.

Resolvi não matar o matador
ou roubar o ladrão, rir de quem zomba,
ser a bomba que volta pro destino
nem a dor encalhada em quem magoa...
Não pretendo algemar os opressores,
falar mal dos que falam mal de mim,
dizer sim para todos esses nãos
que adivinho nos olhos ante os meus...
Aprendi a perder pros que me fazem
cogitar golpes baixos pra vencer,
já joguei dessa forma e não foi bom...
Hoje tenho a certeza de quem sou
e me venço até ver uma saída
em que a vida não volte a me aviltar...

terça-feira, 16 de maio de 2017

QUIS TANTO

Demétrio Sena, Magé – RJ.

Tive o sonho de uma. Tão somente uma relação sincera e desarmada. Que rompesse as barreiras e quebrasse os tabus. Não temesse as possíveis distorções, por achá-las impossíveis.
Uma relação cuja boa fé deixasse ampliar limites, permissões e horizontes. Desnudar os conceitos que o mundo veste. Captar emoções ocultas que a ditadura do moralismo proíbe, sem achar que “aí já é demais”.
Quis ter uma relação, apenas uma, em que as formas de lidar não seguissem fôrmas. Onde não existisse desconforto. Só conforto, soltura, entrega, e a paz de se deixar estar sem a velha sensação da improbidade; o além do limite.

Sonhei alto. Quis demais, por querer um laço romântico sem ter que ser um romance. De paixão, sem ter que ter sexo. Um laço em que a confiança mútua nos permitisse ter... e dar “essas confianças”.

FRAUDES ETÁRIAS

Demétrio Sena, Magé – RJ.

Ouça bem o seu tempo e não tente poupar a alma. Muito menos procure reciclá-la. Entenda que o corpo segue o tempo. As entranhas também. Não há de ser diferente com a alma, por mais que você a tranque no freezer. No vácuo do seu medo insano da vida... e da morte.
Também não queira empalhá-la viva. Isso não tem como dar certo. Embora esteja presa no corpo, ela sempre terá como fugir. Sua tentativa será desperdício incontestável desse formol que só preserva lembranças e saudades.
Você não será um velho de alma jovem. Ninguém será. Só um velho de alma em conflito. Angustiado com a plástica interna falha, sem efeito e sentido, e chorando a perda do tempo precioso em que tentou burlar a idade.

A melhor idade se foi. Ela teve o seu tempo, e agora é tempo do tempo que pode ser melhor, sem as tentativas de fraudes etárias. Corpo, alma e mente não se dissociam. Somos um todo, e a alma não pode ser algo estranho enfiado inadequadamente nesse todo.

quinta-feira, 11 de maio de 2017

PARCERIA

Um desafio no intervalo do trabalho transformou o não ter o que fazer momentâneo em dois textos em parceria. Cada um foi iniciado por um de nós

AGORA JÁ NÃO HOJE

Rodrigo Lobo/Demétrio Sena

Quero mais do que a vida por levar. Do que meu tempo a ser cumprido e nele cumprir uma missão. Muito mais do que o mundo inteiro meu, e meu próprio eu sobre todo o mundo que delimita o meu redor.
Quero experimentar o novo, mesmo que por tabela. Sentir a expressão verdadeira adentrando a porta, sem pedir licença. Escanear o ócio de cada criatura, sem a preocupação de ferir o Criador. Ser o meu recriador ante a vida que nos quer sempre vários na vertigem da passagem das horas. Do infinito. Desse grito de agora já não hoje, porque tudo é futuro que nos chama.
Quero a livre expressão do meu querer sem querer. Sem ter que ter. Sem forçar a alma em um corpo que nem sabe de si.

MINHA DOCE JABUTICABEIRA

Rodrigo Lobo/Demétrio Sena

Minha doce jabuticabeira era tão fértil, que me lembrava uma bela caiçara a dançar seu carimbo sobre a planície. Ela era o meu par sobre qualquer outro. Minha fantasia de amor mais puro do que o ar de nossa fotossíntese que transformava o mundo para nós.
Eu consumia o seu corpo como se degustasse a fruta. A abundância da oferta dispensava conta gotas. A dose diária do mel da nêga era a receita ideal para a cura.

Por tais motivos, sempre fui o mais presente dos ribeirinhos... a jabuticabeira sempre foi o meu grande amor.

domingo, 7 de maio de 2017

MAU PAGADOR

Demétrio Sena, Magé - RJ.

O que faço é sentir que avancei mais um dia
ou pulei outra casa do jogo no fim,
sei de mim mas não sei do momento seguinte
que releva e vou indo como pouco importa...
Não é choro de alguém que se cansa do mundo,
mas de quem já viveu e não chora por mais,
é a paz de saber que já chegou a conta
e não vejo motivo pra fingir que não...
De repente o que faço é gastar os trocados
do meu troco previsto e dos dons perecíveis
que não foram quitados por todo esse tempo...
Minha vida parece brincar de credor
sem apego ao montante que devo e não nego,
não me apego nem pago e me deixo fluir...

terça-feira, 2 de maio de 2017

VIDA REAL


Demétrio Sena, Magé - RJ.



Desisti de alcançar meu quinhão da verdade,
pois os donos da mesma não vendem mais cotas,
e por isso a cercaram de grades sombrias
e farparam as rotas que levam pra lá...
Percebi que a verdade virou essa massa
que seus donos modelam conforme seus egos,
que obedece à trapaça da corporação
e me criva de pregos para me deter...
Na verdade a verdade se tornou mentira
quando foi loteada e passou a ter donos,
virou trono de alguns e perdeu a raiz...
Já não quero a virtude que o vício encampou,
ser quem sou é verdade que me satisfaz
e me diz o que a vida tem mesmo a dizer...

DEPOIS DO TEMPO


Demétrio Sena, Magé - RJ.

Segure a fé
que tem na vida,
porque de fato
a vida é
um sempre nunca...
um nunca mais...
futuro eterno...
Passado o tempo,
o que se ganha
de presente,
não é senão
olhar pra trás,
pois isso é tudo
que há na frente.

segunda-feira, 1 de maio de 2017

POR FALAR EM VENCER

Demétrio Sena, Magé - RJ.


Pessoas idôneas que tenham quaisquer questões com pessoas de mau caráter terão chances enormes de perder, por estarem sempre um passo atrás. É que as pessoas de mau caráter são capazes de atos e truques baixos que a ética e a boa índole das pessoas de bom caráter jamais revidarão das mesmas formas. E de formas limpas, convenhamos que nunca será fácil vencer nesses embates. 
Mesmo assim, tenho a grande loucura de afirmar que não gostaria de ser nenhum desses malditos vencedores, para não enfrentar, num tempo inesperado, a grande carga negativa de uma existência infeliz, pela caminhada cheia de sucessos infames. Uma história repleta de vitórias piratas. Uma consciência frustrada pelo fato de só eu saber que, no fundo, jamais venci nada e ninguém.
Não posso negar que durante algum tempo de minha juventude, cheguei a ter certos ímpetos de práticas incorretas, visando alcançar mais rápido meus objetivos. Por me faltar talento neste quesito, sempre me dei mal. Ainda bem. Ao recobrar o bom senso, louvei as derrotas que me livraram de grandes arrependimentos; de pesos irremediáveis na consciência que certamente me derrotaria.
O que meu coração mais deseja é que nas muitas questões mundo afora, minhas eventuais vitórias sejam sempre legítimas, por serem conquistadas com dignidade. Quero ser sempre derrotado em qualquer nova peleja que por um segundo exija uma fraude; um desvio de caráter que me leve ao golpe sujo. Sinto-me realizado por sentir que venci os impulsos de vencer a qualquer custo.

sábado, 29 de abril de 2017

A PRESSA HUMANA

Demétrio Sena, Magé – RJ.

O mundo será quase perfeito quando a humanidade, ao invés de saltar, aprender a caminhar. A caminhada, mesmo com seus muitos percalços nos permite achar, definir, colher e acumular valores essenciais à formação do caráter tanto pessoal quanto coletivo.
Já o salto, além de nos privar dos desafios que legitimam a chegada seja onde for, empobrece a nossa bagagem – pessoal e coletiva –, pelos valores que largamos ao longo do caminho. Sem a colheita e o acúmulo desses valores, somos pobres de alma; de visão do mundo. Não temos estrutura para ser quem somos, ter o que temos e viver o presente, por absoluta escassez de passado.
É por isso que a humanidade não acerta o passo: porque tem pressa. Tem um medo insano de ficar para trás, motivo pelo qual não caminha. Sempre salta; cai onde ainda não deveria estar, e nos mesmos saltos, retrocede mais do que também deveria.

terça-feira, 25 de abril de 2017

COBRA FERIDA


Demétrio Sena, Magé - RJ.


Que me falte o meu dedo indicador,
quando eu der de apontar defeito alheio;
ser pastor de um rebanho imaginário;
rédea, freio, cabresto e corretivo...
Sou as manchas que mostro em verso e prosa,
tenho as falhas compostas por meus dedos,
onde a rosa desperta sou espinho,
teço enredos que visam me salvar...
Só não venha querer me descompor
nem expor meu veneno; armar meu bote;
se não vai me matar, também não fira...
Quando pago pra ver exijo entrega,
quem me prega na cruz tem que saber
que minh´alma devolve cravo a cravo...

sexta-feira, 21 de abril de 2017

VIAGEM PERDIDA


Demétrio Sena, Magé - RJ.


Copiar os poderes apodrece a alma,
porque há nessas fontes uma lama imunda,
quem afunda seus passos nos mesmos caminhos
não encontra verdade pra se nortear...
O que há nos poderes é toda mentira
sobre cada esperança que se tem no ser,
onde chega o poder toda honra se avilta
ou escapa e se abriga em outros habitats...
Exercite o poder de zombar dos poderes
com seu dom de ser livre para ser alguém 
que não vê no que tem o seu próprio valor...
Imitar os poderes é falir essência,
diluir a decência num poço sem fundo
e perder todo ensejo de se tornar gente...

DESPROTOCOLO


Demétrio Sena, Magé - RJ.


A polícia não prende quem surfa no rio
nem há multa pra homens vestidos de rosa;
não é crime doloso fazer verso em prosa
ou pecado mortal demonstrar menos brio...

Tem a paz que se sofre ou a dor que se goza;
os demônios contritos e os santos no cio;
ninguém vai a juízo por suar de frio
e um poodle é poodle, mesmo sem a tosa...

Seja menos restrito aos caminhos formais,
pois não cabe castigo a quem segue as vontades
que se mostrem bem suas; não de seus fiscais...

Muitas vezes nos cumpre desmentir verdades
ancoradas nas velhas ferrugens do cais;
nunca mais é pra sempre, até nos dar saudades...

RECUO

Demétrio Sena, Magé - RJ.


Apaguei o meu fogo pra todos que um dia
só me deram soslaio em troca dos meus olhos,
foram hora tardia se lhes dei mais tempo,
pois desconfiaram de minha confiança...
Abortei meus afetos por todos aqueles
que me deram as costas quando fui frontal,
viram mal nos empenhos do meu bem querer
desarmado e disposto feito exposição...
Dou ausência completa para quem me viu
como aquela presença que já era tanta,
quase planta excessiva para pouco solo...
Deixo em paz quem parece temer uma guerra
ou enterra o seu brilho porque tem temor
do calor mais humano; menos trivial...

terça-feira, 18 de abril de 2017

CRÔNICA SONSA E RANCOROSA


Demétrio Sena, Magé - RJ.


Depois de tantos acessos inúteis de fúria descobri, finalmente, que não preciso enforcar os meus desafetos... fazer nada contra os meus algozes, opróbrios e detratores. Agora sei que as minhas dores têm asas. Elas ainda são bem curtas, mas confio no milagre do tempo que as fará migrar lentamente para outros campos, quando eu menos der por mim.
Bastará que eu tenha calma o suficiente para dar aos meus desafetos todas as cordas do mundo. Com as cordas os troncos, as praças e até as plateias. Trata-los-ei como estrelas ou celebridades, para que a trapaça do meu bom senso tenha como atrair seus brios, as suas vaidades e a grande paixão que nutrem por si mesmos.
Eles próprios farão as suas forcas. Serão vítimas da própria pretensão. Não terei de fazer esforço para vencê-los, e para dizer a verdade, preferia não precisar vencê-los... muito menos desejar que algum desejo cruel se volte contra seja lá quem for... mas cá para nós: também tenho as maldades e mandingas de qualquer ser humano supersticioso e sonso.

domingo, 9 de abril de 2017

TODOS NÓS

Demétrio Sena, Magé - RJ.


Tenho tudo com isso, pois isso me cerca,
se me cerca me atinge no tempo imprevisto,
não ter nada com tudo que acontece ao outro
é um quisto escondido; pronto pra estourar...
Este aqui é meu mundo, meu povo está nele,
minha bolha não serve pra me proteger,
sem viver não se vive, como não se pode
com a força dos fatos que pesam na alma...
todos nós temos tudo com todos os nadas
dos que vão entre nós em estado de coma
pela soma dos nós que os apertam de morte...
nada vai nos fazer não ter nada com isso,
e ninguém é ninguém pra ter como ninguém
quem está no seu campo de alcance ou visão...

PRESENTE DO FUTURO

Demétrio Sena, Magé - RJ.


Minha idade não mente pro meu corpo;
ela toma o seu tempo, seu espaço,
tem o passo maior que minhas pernas
e me deixa perdido na jornada...
O meu corpo aprendeu a não tentar
ser mais forte que os dias do presente;
sente o peso da pressa e se acomoda
para dar de beber ao meu deserto...
É assim que me acho e ganho tempo,
perco medo e me aceito como estou,
com as perdas e os danos que sofri...
Mas vivi meus estágios de viver;
fecho a conta, me sinto ganhador;
ter futuro é presente do meu fim...

SAUDADE VAI E VEM

Demétrio Sena, Magé - RJ.


A saudade que tenho de você
não é bomba de gás lacrimogêneo;
não é gênio do choro obrigatório;
o velório de quem nunca morreu...
É um trauma que torno brando e bom
pra seguir e saber que o mundo pulsa;
vem no tom da vontade de viver
o presente, apesar do meu passado...
O presente, apesar do meu passado
vem no tom da vontade de viver
pra seguir e saber que o mundo pulsa;
é um trauma que torno brando e bom...
O velório por quem nunca morreu
não é gênio do choro obrigatório;
não é bomba de gás lacrimogêneo
a saudade que tenho de você.

sábado, 8 de abril de 2017

ETERNIDADE

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Algumas eternidades parecem mesmo eternas, e são, pelo quanto pesam na alma e por isso não as queremos. Outras duram tão pouco, por serem tão felizes e desejadas, que nem as sentimos passar. Tantas outras acabam antes do início, pela forte sensação de que tudo não passou de um sonho, por termos fechado os olhos e o coração para todo o resto, abrindo-os tão somente para para o nosso tempo de ser felizes.
O fato é que a eternidade; provisória, curta ou eterna passa, para que realmente exista, em toda a sua plenitude. Para que o nada mantenha o seu sentido, como antônimo de tudo. Para que os antônimos não se percam, e sendo assim, a vida não morra antes de nascer, pelo choque fatal desse antônimo solitário, tirano, irremediável que seria não sendo, porque nada seria, por não haver início e fim, pois um não existe sem o outro. Vida sem morte? Tudo sem nada? Claro sem escuro? Alguém sem ninguém? Coragem sem medo? Amor sem ódio? Paz sem guerra? Vitória sem derrota?
A eternidade não seria o que é, sem a contrapartida da finitude. Ela existe para que no fim das contas, ou da vida, cada tempo se cumpra dentro da eternidade que lhe cabe. Tomara que a leitura destas bobagens não tenha sido uma eternidade para você.

domingo, 2 de abril de 2017

PÃO DE QUEIJO

Demétrio Sena, Magé - RJ.


Quando a lua pousar no seu telhado
pra banhar a janela, o seu olhar,
fazer tudo fluir igual canção
que não é pra se ouvir; é pra se ver...
Deixe o sonho cair no seu agrado;
toda lua precisa ser luar,
ou não pode fluir no coração
nem na doce cantiga de viver...
Ao cair do crepúsculo de outono,
a friagem morninha será beijo
de saudade; profunda nostalgia...
Dê à sua emoção coroa e trono,
beba o céu, saboreie o pão de queijo
que o espaço tempera de magia...

PLENA

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Você é bem atrevida.
Bem resolvida...
bem promovida...
Ninguém duvida
do quanto é.
Você é cheia de fé...
cheia de bem...
cheia de vida.

terça-feira, 28 de março de 2017

TUDO NADA

Demétrio Sena, Magé - RJ.



Se procurarmos
o tal de tudo,
talvez achemos
e não mais:

Sobretudo. Contudo. Sortudo. Estudo. Pontudo. Patudo. Tetudo. Gargantudo. Testudo. Cistudo. Peitudo. Dentudo. Batatudo. Topetudo. O próprio tudo...

Salvo engano,
rocambolismos,
invencionices,
isso é tudo...

Quanto ao mais,
por toda a estrada,
encontraremos
a cada passo:

Marmelada. Granada. Estabanada. Limonada. Jornada. Abandonada. Bananada. Inclinada. Clonada. Dominada. Determinada. Ensinada. Internada. Externada. Inseminada. Disseminada. Iluminada. Empanzinada. Esplanada. Entronada. Afanada. Sanada. Fornada. Assassinada. Pressionada. Friccionada. Aficionada. Terminada. Exterminada. Fracionada. Treinada. Fascinada. Vacinada. Racionada. Danada. Antenada. Eliminada. Engalanada. Enganada. Desenganada. Encanada. Desencanada. Concatenada. Aprisionada. Bolinada. Ruminada. Depenada. Apenada. Condenada. Reclinada. Meninada. Minada. Ninada. Encenada. Entonada. Atazanada. Sanfonada...

e fico aqui,
porque mais nada...
digo;
cada vez
mais nadas.

E sei que isso
não explica,
só complica
e não agrada...

No fim de tudo,
tudo é menos,
bem menos
do que nada.

domingo, 26 de março de 2017

PLENO


SAGRADO RECESSO

 Demétrio Sena, Magé - RJ.


Quem vier me buscar pra me pôr no batente,
só terá de retorno meu sonoro não;
a não ser que me leve, uma estrela cadente
que me pegue no pé ao invés de na mão...

Hoje quero só rede; nem piso no chão,
pois me dei este dia de agrado ou presente;
quero sombra com água, café, queijo e pão
e poemas com sonhos do forno e da mente...

Pra dizer a verdade, ficarei assim
até quando a canseira não der mais por mim;
a minh´alma também estiver descansada...

Amanhã na ressaca da paz deste agora
serei dono do tempo, já mandei a hora
me despertar meio dia da madrugada...

segunda-feira, 20 de março de 2017

A JOVEM DO LOTAÇÃO

Demétrio Sena, Magé - RJ.


Quando a mocinha ruiva e muito bem vestida entrou no lotação, só havia uma vaga para sentar. Um jovem negro que ocupava o assento ao lado se ajeitou para que ela ocupasse confortavelmente a vaga. A moça não quis. Agradeceu educadamente, meio de viés, e permaneceu como estava. O assento logo foi ocupado por outra pessoa.
Era uma viagem demorada e cansativa, e o lotação lotou. As pessoas ficaram espremidas e a moça continuava em pé. Bem depois, um rapaz que desembarcaria no próximo ponto a cutucou pelas costas e convidou a ocupar antecipadamente a vaga. No assento à direita, uma senhora bem idosa, em trajes encardidos e muito pobres, abriu um sorriso muito simpático, de alguns dentes cariados, como se desse boas vindas à moça. Mas a moça continuava bem. Não estava cansada. Outra vez agradeceu educadamente... e de viés.
Mas ninguém é de ferro. Quando o lotação começou a esvaziar, e ainda restava um bom pedaço de asfalto para chegar ao ponto final, onde a mocinha ruiva desembarcaria, mais um passageiro desembarca e deixa um novo lugar, ao lado de um moço forte, alto, branco e metido em trajes sociais. Aí a moça se rende: lentamente se dirige à poltrona, dá um sorriso simpático, seguido de um 'com licença', senta, se recosta e dorme.
Não tarda muito, e o moço bem apessoado sai, de forma bem delicada para não acordar a moça. No mesmo ponto, embarca no lotação um idoso esquelético, visivelmente esgotado e carregando pesados sacos de sucata, que ele catara provavelmente o dia inteiro. Deixa os sacos perto da porta, se dirige à vaga na mesma poltrona da mocinha ruiva, e com expressão de alívio se acomoda, sem demorar também a dormir.

Regidas pelo cansaço, o conforto da poltrona quase macia, o vento da janela e o ruído suave do veículo em movimento, ambas as cabeças pendem, cada uma para o ombro ao lado. É nessa entrega inocente, simbólica e desarmada que ambos seguem viagem para o mesmo bairro, onde moram cercados pelas mesmas realidades diárias.

domingo, 19 de março de 2017

ESSÊNCIA, GARRAFA E ROLHA

Demétrio Sena, Magé - RJ.


Tenho aqueles extremos, indesejáveis pra muitos, da confiança incondicional, desarmada, irrestrita, ou a desconfiança cega e sistemática. Da entrega ou do rapto de mim mesmo; a doação infinita ou a mais cerrada sonegação do meu todo, porque doar ou sonegar pela metade não completa os meus princípios.
Quem quiser minha essência, terá de sugá-la inteira e também acolher o frasco, pois são inerentes os meus lados. Minha cara não presta sem a coroa, e vice-versa. Sempre vou com fundo e superfície aonde quer que eu vá... e para quem quer que eu vá. Meu carinho não é diminutivo. Se não adoro, detesto, e se não atesto, jogo imediatamente fora. Nunca deixo para fazê-lo depois.
Foi assim que fui com você, que poderia ter sido assim, ou simplesmente o avesso, comigo: confiei sem escudo nem armadilha... entreguei sem freio... doei sem fim... fui essência, garrafa e rolha... tudo em um. Você não tinha o direito de se forjar e corresponder pela metade, à minha plenitude que morreu nos braços da ilusão de sua coplenitude.

sexta-feira, 17 de março de 2017

GENTE ARCADA


Demétrio Sena, Magé - RJ.


Nunca tive talento com gente de bolha,
que se quebra no ar à menor vibração,
ou é folha varrida por todos os ventos
e não sabe o que sente; nem sabe o que sabe...
Faço curva pra gente quebrável demais,
que desanda, esfarela, perece ou resvala,
se mascara e se cala sobre seus conflitos
pra depois cometer injustiças vencidas...
Quem jamais se resolve ou resolve o que for,
feito flor de soprar que se deixa na mão
e seu talo, no chão, vai pra baixo dos pés...
Sempre tive cuidados com gente marcada
para ser vitimada por tudo ao redor,
uma dó de si mesma e mil mágoas do mundo...

REVIVENTE

Demétrio Sena, Magé - RJ.


Aprendi a crescer quando renasci. Quando voltei do meu fundo e vi que não tinha mais amarras, graças ao projeto pessoal de me tornar exatamente mais pessoal. Ou mais quem sou. Obriguei-me a saber viver, para não ser morto... nem elétrico... falante... notório, até vivo, e mesmo assim morto.
Afiei minhas garras, e como não conseguia sair do coma profundo, fiz o coma profundo sair de mim. Mostrei a cara pro espelho, desafiei meus olhos e disse ao silêncio: estou aqui... não puxei a cigarra... não pare o mundo, porque meu ponto é além... não sei onde, mas é além... ainda não quero descer.

segunda-feira, 13 de março de 2017

ENTREGA

Demétrio Sena, Magé - RJ.


Foi assédio afetivo; confesso que foi;
um afeto sem asas pra voos escusos,
para os fusos empenhos ou atos avessos
ao exato sentido que tinha que ter...
Foram idas desnudas de planos a mais,
depois vindas serenas, de plena leveza,
com a branda certeza do mesmo desvelo
sem apelos, cobranças, anúncios de assaltos...
O carinho assedia e se deixa tomar
de cuidados, descuidos, entregas fluentes;
é a forma de amar que se rende sem peso...
Querer bem nos desarma, nos livra por dentro
e nos torna indefesos com quem se defende
como centro de todos os mísseis do mundo...

terça-feira, 7 de março de 2017

MENTIR


Demétrio Sena, Magé - RJ.


Custa caro viver a qualquer preço;
é morrer muitas vezes até lá;
ter apreço excessivo por sentir
se apagar; derreter; perder a cor...
Meu amor pela vida não é tanto
que me faça cavar um poço fundo,
dar o mundo que nunca tive à mão,
pelo tempo estendido além de mim...
Só é justo viver enquanto a vida
não é fardo pra nós ou para os nossos;
para os olhos, os ossos nem a alma...
É injusto passar do fim da estrada,
pelo simples capricho de sentir
que mentir é melhor do que morrer...

AMBIÇÃO


Demétrio Sena, Magé - RJ.


Descobri exatamente no que chamam de acomodação, a mais ambiciosa forma de viver bem.

DEIXAR DE SENTIR


Demétrio Sena, Magé - RJ.


Sempre houve um pra sempre; já perdi a conta;
todo amor é assim em seu passo primário;
tudo quanto começa já traz uma ponta
pra buscar outra ponta de mais um sudário...

Imortal repetente ou eterno diário;
cada laço é uma vida que o tempo remonta,
como nosso infinito cabe num aquário
onde o pronto parece que nunca se apronta...

Quanto amor para sempre; quanta eternidade;
a verdade que agora desmenta a verdade,
quando nossa doçura virou absinto...

Aflorou no pra sempre o velho nunca mais;
outro sonho cansado retorna pro cais;
meu amor, sinto muito pelo que não sinto...

sexta-feira, 3 de março de 2017

O SEGREDO


Demétrio Sena, Magé - RJ.


Sei fingir que não sei que fui posto no flanco;
que o que foi, até ontem, já deixou de ser,
porque ser ou não ser é questão que resolvo
no meu banco de sonhos e tempo que segue...
Já conheço pessoas; também sou pessoa;
quando sei que alguém pensa que me desmanchou,
sou bem mais o que sou, mas me deixo calar,
porque soa mais leve pro mundo fluir...
Acho mesmo que achei o segredo da vida;
é saber que não posso apostar nem em mim,
que meu sim é volúvel; meu não é tocaia...
Quanto ao mais é fingir que não sei do que sei,
pois ainda é melhor toda má companhia
do que a vida vazia, sem meu semelhante...

ILUSÃO?

Demétrio Sena, Magé - RJ.


Tenho a ilusão de um tempo em que o amor e a integridade não sejam hipocrisia, e ninguém precise confessar que não presta, para ser verdadeiro, admirado e ganhar bônus para continuar não prestando.

AUTOPERMISSÃO

Demétrio sena, Magé - RJ.

Quero todas as vidas que a vida permite,
cada uma em seu tempo, sua duração,
sua fase, versão, seu desenho do mundo
que me cerca e não posso me desvencilhar...
Ponho todos os mundos que o mundo dispõe,
sob os pés aprendizes de novos caminhos,
entre flores, espinhos, verdades e farsas
e as forças ocultas que chamam meus olhos...
Desde cedo me jogo no abismo do tempo,
jogo todos os jogos que tudo insinua,
minha lua não pode reger meus instintos...
Morrerei de viver, de sonhar e sentir,
permitir a mim mesmo, soltar minha fauna
e deixar o depois para quando não sei...

quarta-feira, 1 de março de 2017

HIPOCRISIAS

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Quando era membro de uma igreja cristã, fui a pessoa mais hipócrita sobre a face da terra. Para mim, o mundo estava completamente nas trevas; ninguém prestava, se não fosse convertido... em outras palavras, se não fosse como eu. Foi assim que aprendi com o meio, naquele tempo e lugar; foi assim que fui orientado a pensar e agir.

Faz muitos anos que não sou membro de qualquer comunidade religiosa. Mesmo assim, continuo sendo a pessoa mais hipócrita sobre a terra. Entre outros motivos, por me julgar melhor do que os convertidos, mesmo sabendo e não desejando fazê-lo. Sobretudo, por cair na tentação de me julgar a pessoa menos hipócrita sobre a terra.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

MATURIDADE KID

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Crianças pequenas; pequenas mesmo, têm emoções exatas. Riem de alegria, ternura, satisfação e graça. Choram de medo, raiva, nervosismo, tristeza e dor. Emoções boas, o riso. Emoções ruins, o choro. 
Essas crianças pequenas que se desmancham em lágrimas comportadas, nos programas de tevê, nas mais diversas apresentações ao vivo para grandes plateias e outros momentos onde são pequenas estrelas, alegando estarem emocionadas pela grande alegria, só copiam expressões adultas. Na maioria das vezes, elas chegam aos locais, (in)devidamente orientadas, de algum modo, a se comportarem como crianças sábias; centradas; adultinhas. Por isso discursam, desfiam vocabulários incompatíveis com suas idades, forjam expressões altaneiras, ainda que simpáticas, e arrancam suspiros, também lágrimas, da produção e a plateia.
Aprecio criança de fato criança. Inteligente, mas criança. Estudiosa, mesmo assim criança. Talentosa, talvez focada em algum projeto, mas de qualquer modo, e sempre, criança. Que fala e se veste como criança... brinca e fica de mal... tem sonhos, fantasias, pesadelos e medos de criança. Sem afetamentos e ares de maturidade kid, vocabulário empolado, sabedorias impróprias ao seu saber, especialmente por serem sabedorias forçadas; precoces. Crianças adultas são crianças adulteradas.
Sábio, mesmo, é preservarmos nossos filhos pequenos. Não forçarmos a natureza infantil, sob pena de forjarmos indivíduos sonsos, hipócritas e superficiais. Adultos intolerantes, sisudos e chatos ou meninos e meninas temporões, fora de hora e contexto... igualmente chatos.
Tenhamos em mente que, seja como for, os adultinhos forçados de hoje são as criançonas inchadas e vazias de amanhã.

domingo, 26 de fevereiro de 2017

SONO PROFUNDO

Demétrio Sena, Magé - RJ.



Emoção que resvala, se rende ou relaxa;
um destino que agora já não vê caminho;
talvez tenha, mas temos que pagar a taxa,
quando a flor perde viço e só nos resta espinho...



Nosso amor continua, mas resseca e racha,
sabe o quanto não pode se manter sozinho;
é a velha engrenagem que perdeu a graxa,
ou a casa que um dia deixou de ser ninho...



Precisamos achar nosso sonho perdido,
para nossa esperança não perder sentido
e o amor despertar do seu sono profundo...



Toda vida renasce, porque tem semente;
pode ser nosso caso; se olharmos pra frente
como quem acredita no sem fim do mundo...

SÃ FILOSOFIA


Demétrio Sena, Magé - RJ.


Vi no aço do espelho, que não sou de aço;
no silêncio da noite, que não sou eterno;
disse o terno que a morte não escolhe roupa
e a roupa não cobre minhas indecências...
Vejo a vida com olhos de nudez completa,
como vejo que o tempo é a pele da história,
sua glória está justo em abrigar a alma
da verdade ou do sonho do que ninguém sabe...
Há nas cores do mundo a certeza da treva,
tudo mostra que o nada se reconsolida,
já no meio do todo recomeça o fim...
É assim que detenho as ambições afoitas,
dou à lida os esforços de pessoa sã,
sem as vãs agonias do querer demais...

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

INQUISIÇÃO

Demétrio Sena, Magé - RJ.


Há um grito matriz e seus ecos profundos,
que meu peito censura para me poupar,
tenho mundos ocultos e vidas de arquivo
por tirar do meu medo; minha solidão...
Trago sonhos perdidos de repor meu tempo
tantas vezes perdido em razão de ganhá-lo,
se me calo sem fim meu silêncio se avulta
e seu vulto me atira nos moldes dos olhos...
Sou alguém que precisa vencer quem estou,
pois estar me agoniza, porque piso em falso
pra viver o sossego dos que não têm paz...
Todos vivem cercados pela inquisição,
coração é masmorra que ninguém destranca,
todo mundo é a banca da moda corrente...

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

PRECONCEITUOSO

Demétrio Sena, Magé - RJ.


Discrimino pessoas que se forjam lei;
a verdade, a matriz e o espelho do mundo,
porque sei que ninguém alcançou esse grau
e ninguém está pronto para ser seguido...
É que sou imperfeito e discrimino gente
que se acha mais gente, seja por que for,
quem se traja de flor numa ilha de farpas;
o mais sábio, maduro, vivido e capaz...
Tenho mais preconceitos do que julgo ter,
mas alguns estão claros até para mim;
sou assim, por exemplo, com sonsos; fingidos...
As pessoas de toda e qualquer natureza,
que separam por classe, feição, etnia;
discrimino soberba e discriminação...

sábado, 18 de fevereiro de 2017

MEU MUNDO REAL

Demétrio Sena, Magé - RJ.
Um amigo de muitos anos, do qual não cobrei nada, fez questão de justificar sua ausência à abertura de minha exposição fotográfica na Fundação Educacional e Cultural de Magé. Morador de bairro bem próximo, e de acesso facilitado por ônibus, táxis e unidades de UBER, meu amigo, que até há pouco não tinha carro disse, desolado, ao telefone:
- Sena; me desculpe, mas o meu carro deu defeito; por isso, não poderei prestigiar a abertura de sua exposição, e talvez nem dê para ir, nos próximos dias, pois pode ser que o carro fique na oficina por algum tempo.
Não vejo qualquer problema, se algumas pessoas não podem se fazer presentes a momentos importantes para mim, tanto quanto não posso me fazer presente a tantos momentos importantes para pessoas queridas, inclusive familiares. Respeito as impossibilidades, por menores que sejam, como respeito o fato de alguém não desejar ir, e até não gostar de determinados eventos. Do que não gosto, e não gosto mesmo, são explicações esdrúxulas, que mais complicam do que explicam.
A amizade continua, é claro, como continuaria, sem qualquer mancha, se não houvesse nenhuma explicação. As pessoas queridas para mim são muito mais importantes do que momentos, obrigações sociais e coisas. Não sou vaidoso ao ponto de achar que todos devem me prestigiar a qualquer custo, em todos os momentos de minha vida. Igualmente, não me obrigo a prestigiar todos os meus amigos em tudo o que eles fazem, e sei perfeitamente que sou compreendido neste aspecto.
Sou pessoa bem simples. Não sei dirigir, moro na roça, viajo longas distâncias de bicicleta comum, capino meu quintal, faço minha comida, e minha água é de poço de anéis, puxada por bomba manual. Só compareço à dita civilização para trabalhar, participar esporadicamente de momentos como esse, da exposição, atender a clientes pontuais que me pedem para fotografá-los, e é desta forma: um pé lá, outro cá. Sempre volto correndo para meu mato.
Em outras palavras, não pertenço a esse mundo em que as pessoas ficam sem braços quando a diarista não comparece; não sabem se virar de outras formas quando não têm seus empregos específicos; quebram as pernas quando ficam sem carro.