quarta-feira, 16 de agosto de 2017

EM NOME DA SAUDADE

Demétrio Sena, Magé - RJ. 




Tenho fé na saudade que sentirás de mim, pois insisto em saber o que fomos e creio que ainda somos para nós. Bem lá no fim desse túnel que atravessa o sonho certamente só meu, parece que uma voz me promete que reviveremos nosso passado.
O fato é que a minha saudade nunca foi bastante para resolver essa questão afetiva. Nunca foi te buscar com o devido sucesso e amargou cada instante frustrado. Cada flanco e deserto em que forcei as reprises que trago no peito. Reprises minhas, mas com a velha impressão de partilhar contigo, sendo que não sabes.
Hoje treino esperanças. Alimento essa fé. Ponho todas as cartas de que disponho na mesa dessas tuas lembranças enrustidas. Na chama que o tempo, segundo meus cálculos emocionais, ainda reacenderá em ti.
Quando nada mais resta, recorro a tudo que resta desse nada e me sustento assim. Caio em mim para voar mais alto na ilusão de sentir – além da saudade que sinto – que tens saudade. Que ainda sentirás bem profundo, a saudade que tens.

POR UM MUNDO MELHOR

Demétrio Sena, Magé – RJ.


Há um mundo melhor onde as pessoas
dão lugar, auxiliam, facilitam;
não amarram, não turvam nem delongam
ou incitam tensões desnecessárias....
Tenha boa vontade, se permita
Sem o peso das vãs burocracias,
dessas vias de acessos conturbados
e destinos feridos de má fé...
Uma vida mais leve não tem cruz,
quem a leva sem fúria e sem rancor
faz a dor não fazer profundo estrago...
A verdade não tem que ser espinho
nem ser guerra, o caminho mais doente;
quando a gente complica o mundo emperra...

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

SEM MEIO TERMO


Demétrio Sena, Magé - RJ.


Faço as pazes comigo, já não posso
com a força da minha intransigência,
minha essência que nunca se permite
um aroma de ventos renovados...
Não preciso mudar, só consentir
uma nova visão do para sempre,
um sentir menos tenso e congelado
entre medos e cismas de antemão...
Seguirei mais comigo, faço as pazes
com as velhas verdades reprimidas
ou as vidas deixadas no caminho...
Solto sonhos, liberto as esperanças,
dou andanças aos passos ocupados
e não deixo de ser, mas deixo estar...

A PEDRA


Demétrio Sena, Magé - RJ.

O que meus olhos procuram é aquele olhar que não faz curvas. Vai direto aos olhos que não fogem do rosto. Vêm direto aos meus, para dizer sim ou não. Na chegada, no adeus e para dar a notícia que alivia ou dói.
Minha voz vai no tom dos olhos: tem seu alvo traçado e seguro. Seja doce ou rascante, não desvia o tema. Não frauda o contexto. Tem a gema no centro de sua clara intenção de soar o que diz. De fazer o que fala.
Sou do tipo sem tipo. Jamais deixei de fluir meu afago sincero, mas também a pedrada, se minha ira precisa desse arroubo. Tenho laje de vidro, mas quando fervo em meu todo não quero saber se a pedra será ou não devolvida. 
É por isso que peço e não me acanho: confies em mim, sem temor do após. Sejas muito bem-vinda em meu começo, meu fim, sem qualquer meio termo. Comigo é céu ou inferno... meus extremos são à prova de limbo.

terça-feira, 8 de agosto de 2017

A ÓTICA DA ÉTICA E DA EDUCAÇÃO


Demétrio Sena, Magé - RJ.

Ninguém é sem ética ou sem educação. Eis o princípio estabelecido por uma verdade sem rodeios: tais valores oscilam de acordo com grupo, cidade, região e país. Pode ser antiético e deseducado quem age com desrespeito aos princípios, regras, crenças e costumes... a identidade... a cultura... os valores do seu meio.
É também antiético e deseducado quem não respeita esse conjunto de características inerentes aos seus anfitriões... o grupo, a família, o povo que o recebe. Será próprio do bom anfitrião deixar à vontade sua visita, mas ainda mais próprio da boa visita, não constranger o anfitrião. Jamais abusar da hospitalidade, nunca menosprezar nem tolher o que ele cultiva, cultua, valoriza ou segue.
Não faltar com a ética e a educação é ter sempre um comportamento com a velha e boa noção de onde, quando, como e com quem. É respeitar identidades, culturas e valores. Não ferir princípios, mesmo com a certeza de que não sofrerá retaliações, em razão da generosidade - ou superioridade - dos atingidos.

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

INSOFRÍVEL

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Sofrimento não é sofrimento pra mim. Aprendi a sofrer sem sofrer porque sofro.

LUA NO MAR

Demétrio Sena, Magé - RJ.
A missão se cumpriu em quem foi verdadeiro;
quem traçou sua meta sem ferir princípios;
teve o cheiro sincero do sabor que deu
a quem foi sorteado com sua presença...
O sentido da vida se fez inconteste
na leveza dos passos de quem se levou
entre os testes e provas de sua existência,
sem pesar seu amor distribuído aos seus...
Foi o dom de ser simples que te fez enorme
sem a fútil soberba dos que julgam ser;
sem tecer a quimera das grandezas vãs...
Pela tua missão enriqueceste vidas
que jamais se deixaram desaguar da tua;
foste lua no mar que desaguou no céu...

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

PLACA ETÁRIA

Demétrio Sena, Magé - RJ.


Chegarei à velhice de alma velha,
corpo velho, petróleo em minhas veias,
minha telha mantém a transparência
que revela o meu tempo bem passado...
Trago a pátina feita pelos anos,
dentro dela uma essência original,
ganhos, perdas e danos inerentes
à verdade que a vida não renega...
Não serei um palheiro envernizado,
folha seca tingida de acaju,
esqueleto exumado para expor...
Morrerei sem pirraça pra não ir,
sem pedir outro doce, outro brinquedo
nesse jogo de medo e faz-de-conta...

terça-feira, 1 de agosto de 2017

PRESENÇA


Demétrio Sena, Magé - RJ.

Sinto falta de alguém que me guarde pra si,
mas que guarde segredo até mesmo pra mim;
se no fim do silêncio eu vier a saber,
saberei não saber, pra calar o que sei...
Tenho tal nostalgia de alguém cujos olhos
sejam tão confiáveis no espelho dos meus,
e dirijam tão bem nos desvãos do meu corpo,
que nem Deus, caso exista, precise zelar...
Tive alguém com quem fui esse claro mistério;
com quem tive o silêncio que dizia tudo;
gritos mudos de anseios e de contrição...
A saudade que sinto é de quem jamais tive,
mas que vive na sombra de minhas lembranças
de senti-la tão perto como ainda está...

domingo, 30 de julho de 2017

O CAMINHO DOS BENS


Demétrio Sena, Magé - RJ.

Consciências estejam à frente dos atos,
nas expectativas que levam a ter,
no bater do relógio junto ao coração
de quem põe esperanças nos olhos em torno...
A verdade autentique promessas expostas,
compromissos firmados, empenhos, palavras,
as respostas aos sonhos que foram plantados
e geraram perguntas sobre quando e como...
Ser humano é ser mais do que alguém que desbrava
sobre todas as coisas, todos os alguéns,
o caminho dos bens que deseja comprar...
Quem é super se torna seu próprio vilão
e se põe na prisão do poder questionável
de viver das vantagens que tira do outro...

sábado, 29 de julho de 2017

CANA-DE-SAL


Demétrio Sena, Magé - RJ.

Ninguém tem o direito de ser coroado
por chegar ao triunfo gerando fracassos;
construir um passado coberto de mágoas
e de passos frustrados em razão dos seus...
Não se faz um futuro do qual se glorie
apesar dos presentes de grego que deu;
nenhum eu se faz pleno quando fere o nós
ou aperta em seus nós esperanças alheias...
Não invente que os meios dão sentido ao fim;
pode ser o seu fim como alguém que se preze
no que pese a verdade muito além do espelho...
Todos pagam seus preços não importa como;
chupam gomo após gomo da cana-de-sal
que terá que ser sua no justo momento...

terça-feira, 25 de julho de 2017

VALORES INVERSOS

Demétrio Sena, Magé – RJ.

Depois da breve apresentação de um amigo ilusionista em sua festa de aniversário, a socialite preencheu um cheque para efetuar o justo pagamento, e foi amigavelmente censurada pelo amigo:
- Deixe disso, criatura! Não vou lhe cobrar nada!
- Ah, vai! Não o chamei aqui para trabalhar de graça!
- Que de graça que nada; somos amigos; amigos não pagam amigos.
- Amigos não exploram amigos. Tome aqui seu pagamento e não se fala mais nisso.
- Vai me desculpar, querida; mas será que nem uma vez você pode me tratar como pessoa, e não como produto?
A doce queda-de-braço entre os amigos levou horas. Ela, porque achava justo valorizar economicamente o trabalho dele. Ele, porque não queria, pelo menos naquele momento, ser tratado como produto.
Formidável contrariedade, a daquele artista. Ser valorizado em sua arte, por alguém bem próximo é uma raridade. Foi convencionado que os profetas não têm valor nas terras onde vivem; não fazem sucesso entre os seus.

Ademais, no exato momento em que o felizardo se queixava de ser tratado como produto, e não respeitado como pessoa, milhões de artistas de todas as áreas mundo afora, lamentam porque são tratados como pessoas, e não respeitados como produtos.

segunda-feira, 24 de julho de 2017

SUPER HUMANO


Demétrio Sena, Magé - RJ.


Foste minha intenção de ficar na intenção;
esperança que nunca se tornou espera;
primavera que os olhos sabiam não ter
ao alcance da mão, mas bebiam de olhar...
Eras rito sagrado; mesmo que profano;
uma via de fatos restritos à via;
fui um super humano que a cada momento
se vencia na luta pra não ir além...
Mesmo assim te perdi; sem haver encontrado;
nunca foste presente, apesar da presença,
para seres passado como agora és...
És o nunca estendido sobre nunca mais;
a saudade que sinto que não faz sentido,
de quem jaz viva e plena e tão perto de mim...

sexta-feira, 21 de julho de 2017

FORA DA LEI

Demétrio Sena, Magé - RJ.


Foi um grande gostar sem espera nenhuma;
sem desejos a mais do que podia ter;
um amor gestual, de silêncios passivos
que faziam viver do que jamais vivi...
Era só meu gostar, nenhum laivo do seu,
mas valia o meu sonho de me refletir,
de me ver nesses olhos que nunca me viram
e sentir solidão sem sentir que sentia...
Meu gostar se feriu de se avultar demais,
não caber nos limites de  minha vitrine 
ou da paz inquieta de minha censura...
Gostei mais do que pude, por isso calei,
pois a lei da verdade que nos formaliza
não gostava do gosto desse meu gostar...  

quarta-feira, 19 de julho de 2017

MERCADO DE AÇÕES

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Tive sonhos para dar e vender na zona franca das esperanças no mundo. No entanto, o mercado insano das maldades, dos julgamentos e as injustiças, que também cometo, faliu a minha razão social de continuar a crer no outro... e no próprio espelho.
A minha bolsa de valores humanos está falida. Minha fé na vida perdeu em todos os investimentos de previsões e apostas que fiz. Tudo que tive, agora está trancado em um cofre no banco dos réus, e a consciência entregou a chave ao leilão do destino.
Mas nem tudo está perdido. Aliás, nada está perdido. Se tudo acabou, também acabei meu pensamento e logo escreverei um melhor, pois este não está nada cambial. 

PRECONCEITOS

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Étnico, sexual, de gênero... social, religioso, hierárquico... regional, cultural, muitos outros... Todos os preconceitos deveriam ser sanados ou não existir, simplesmente pelo amor, fruto natural da graça. Mas a tolerância, como cumprimento e força da lei, já estaria de bom tamanho.

segunda-feira, 17 de julho de 2017

TODO BEM DESTE MUNDO

Demétrio Sena, Magé - RJ.

O que tenho que ter pra ser pleno e feliz
é um canto em que possa libertar meus textos,
um quintal todo verde bem maior que a casa
que não fiz pra servir de outdoor do que sou...
Tenho tudo que tenho que ter pra sorrir ;
duas filhas, irmãos, muita troca de amor,
a mulher que nasceu porque nasci pra ela,
feito flor que não vive num chão diferente...
Se não tenho valores pra comprar mais coisas,
tudo quanto mais quero já tenho de graça
numa praça de afetos que me fazem pleno...
Todo bem deste mundo enriquece meus bens
ao alcance dos olhos, dos passos, das mãos,
contra os nãos duma vida que nem ouço mais...

sexta-feira, 14 de julho de 2017

A MATERIALIZAÇÃO DA ESSÊNCIA

Demétrio Sena, Magé - RJ.

A sociedade ama com os olhos. Admira e respeita com os olhos. Reconhece, valoriza e faz justiça pela consciência dos olhos. Se não for desse modo, qualidades e talentos precisarão provar, por todos os meios, o tempo todo e com as desvantagens de praxe, que superam as expectativas dos olhos.

segunda-feira, 10 de julho de 2017

ERAM SEUS OLHOS


Demétrio Sena, Magé - RJ.


Fui menino menino; jovem; meia idade,
porque tive um regaço que não viu limite,
faixa etária, censura, classificação
nem artrite na alma; o coração; a mente...
Fiz-me homem, senhor e dei asas aos passos,
construí meu caminho, fiz a minha história,
mas os braços de amor que mantinham meu ninho
não me viram além desse amor extremado...
Sempre tive seus olhos, cuidado irrestrito,
seu sussurro e seu grito de apelo por mim,
a canção de ninar do seu dom infalível...
Tenho muitas saudades de ser o menino
que o destino não tinha como envelhecer
nesse olhar de me ver que só seus olhos tinham...

sábado, 8 de julho de 2017

AMOR DE MARMITA


Demétrio Sena, Magé - RJ.


Desisti desse amor que se come por dentro;
não faz mal, não faz bem, apenas tanto faz;
tem a paz doentia de manter silêncio,
pois não tem mais remédio; só se remedia...
Um amor que se leva requentado a esmo,
remendando a paixão que perdeu seu tecido,
virou cinza e mornura que o vento digere
sob o tempo perdido em esforços baldios...
Se não largo esse osso, não sei explicar;
mas me canso do mar que não tem horizonte
ou do céu, que no fundo, é meu fundo do poço...
Já não quero comer esse amor de marmita,
como quem se conforma, não tem outro jeito,
come feito quem come sem fome ou sabor...

quinta-feira, 6 de julho de 2017

EDUCAÇÃO INTUBADA

Demétrio Sena, Magé – RJ.

O professor que reprova um bom aluno com dificuldade, após todos os esforços empreendidos para não fazê-lo, assemelha-se ao médico que tenta, de todas as maneiras, mas não consegue, apesar de tudo, salvar o paciente. Se pudesse o salvaria.
Já o professor que teria... com um esforço maior... evidentemente sem nenhum desvio ético, alguma forma de ajudar esse bom aluno com dificuldade a conseguir se aprovar, mas não o faz, é semelhante a outro tipo de médico: aquele que se adianta em matar o paciente recuperável que lhe daria um pouco mais de trabalho.

Com base nesta reflexão, é bom nos avaliarmos profundamente como professores, para nos resolvermos melhor. Fazendo assim, ainda nos damos uma chance de saber que tipos de médicos a sociedade perdeu ou teve a sorte de não ter.

domingo, 2 de julho de 2017

DN(ARTE)


Demétrio Sena, Magé - RJ.


Se não for transgressora se transgride;
surpreende por falta de surpresa;
vira presa das próprias tradições
que se cobrem; se muram; se pontuam...
Por ser livre pra ser não se obedece,
toma o vento sem rédea e sem arreio,
gasta o freio e colide com verdades
cujos donos não são legitimados...
Arte ataca, derruba, desconstrói,
porque dói onde a dor já se conforma
e seduz o desejo de acordar...
Não é arte se vem pra deixar pronto,
bater ponto e dar todas as respostas
onde só as perguntas têm sentido...

segunda-feira, 26 de junho de 2017

PRESO NO PARAÍSO


Demétrio Sena, Magé - RJ.


O passarinho está livre na gaiola. Mas está preso... na gaiola. Está livre do gato e do gavião. Do sol... da chuva. Livre até de ser preso em outra gaiola. Livre da liberdade.
Tem alpiste, água e remédio. Tem um senhor... um senhor que lhe dá o alpiste, a água, o remédio e a garantia de que o gato, o gavião, a chuva e o sol não o pegarão... muito menos a liberdade o pegará.
E o passarinho canta. Canta para o seu dono e senhor, que além de prover suas necessidades, garantir o socorro e as libertações, ainda lhe dá o direito de olhar o mundo e sentir o ar, mesmo sem poder explorá-los... avançar os limites das permissões espremidas. Ele apenas olha, e sabe que deve agradecer por tudo, esse tudo-nada, para não ofender seu dono e senhor, que sempre sabe o que é bom.
Hoje, o passarinho entende que esse é seu livre arbítrio. Não é livre... nem é arbítrio. Mesmo assim é seu livre arbítrio, depois do medo que aprendeu a ter das consequências de não ter medo. De ser livre. Ter arbítrio. Correr os riscos de ser quem é por natureza ou pelo pecado original de haver nascido. 
Essa é a sua casa. Seu mundo; seu habitat. Sua prisão no paraíso... longe do seu ninho. A gaiola é o templo... a igreja do passarinho.

sexta-feira, 23 de junho de 2017

SIMPLESMENTE GENTE

Demétrio Sena, Magé – RJ.

Se tiver boa índole, pode vir. Fale certo, com vícios ou tudo errado. Tenha qualquer cor, textura, seja transparente. Escreva bem, vulgarmente ou nem saiba escrever.
Você pode me chamar de senhor, mano, cara ou bicho, desde que só tenha uma cara... e que me trate como ser humano. Ter talento, não ter, pedir desculpas ou só dizer que foi mal, quando reconhecer um erro.
Quero apenas a índole de quem é recatado ou sem pudor. Adora funk, gospel, jazz, ópera ou MPB. É cristão, umbandista, herege, ateu, à toa. Tem mansão, casa boa ou palafita. Fala inglês, outras línguas ou só a língua do pê.
Venha e traga sua boa índole. A embalagem pode ser um corpo liso ou tatuado; bem vestido, nu ou com pouca roupa. Cabelos lisos ou duros; louros ou vermelhos; negros ou inexistentes não importa: será tudo bem vindo, se a índole for boa.

Se não tiver estudo, que tenha sensibilidade. Não tiver juízo, tenha coração. E se não for gentil, tudo bem, mas veja bem... desde que seja gente. 

quinta-feira, 22 de junho de 2017

PRECONCEITOS


Demétrio Sena, Magé - RJ.


Preconceitos velados têm rostos risonhos,
atenções piedosas, vozes conseguidas,
as medidas distintas de afetos formais
que ninguém poderia contestar por lei...
Para ter preconceito e demonstrar que não,
é preciso saber se vestir de presença,
dar a mão que depois há de ser bem lavada
e visar recompensa sobrenatural...
Quem se dita melhor por questão de raiz,
de aparência, verniz ou por ter o que tem,
sabe como enganar seu conceito mais fundo...
É que o mundo se rende aos que sabem pagar
com seu ar filantropo e gestos adequados
aos contextos e quadros em torno de si...

TANTA ILUSÃO


Demétrio Sena, Magé - RJ.


Foste um pôster bonito proposto ao meu sonho,
propaganda enganosa que me fez comprar,
dei lugar aos desmandos do sentir mais cego
e guardei a razão nos desvãos mais ocultos...
Eras muita embalagem pra pouco produto,
mas amei tua estampa e consumi teu oco,
vi a casca perfeita do coco sem carne,
devorei a ilusão do que jamais comi...
De quem eras pra mim nem saudade restou,
porque foste holograma de alguém que não és
e meus pés encontraram num deserto insano...
Felizmente me achei quando mais me perdi,
retornei ao meu dia e quebrei teu encanto
em meus cantos dormentes de tanta ilusão

DOR DE SOLIDÃO


Demétrio Sena, Magé - RJ.


Meu olhar serpenteia por entre seus olhos,
arma o bote na calma de minha tensão,
pra sugar no silêncio desta timidez
o que seu coração talvez queira dizer...
Novamente me acanho, só me assanho em sonho
e por mais que me chame pra fora de mim,
mais me ponho em meus medos de não ser feliz
nos engenhos guardados pra quando não sei...
Mas também pode ser que seu ser sequer tenha
uma lenha viável pra chama que trago,
um afago na força do meu bem querer...
Minha voz trai meus olhos e cala o calor,
volto cheio de nada, vazio de tudo
que tentei dar à dor de minha solidão...

segunda-feira, 19 de junho de 2017

POR TE AMAR

Demétrio Sena, Magé - RJ.


Apesar dos pesares, te amar pesa mais;
faz querer um ficar, com planos de partir,
o sorrir e o chorar que vão chegando ao tom
de sentir uma paz que nunca foi real...
Mesmo armado, ferido e com farpas na voz,
cianeto nos olhos, paixão nuclear,
alma cheia de nós, um orgulho algemado,
é te amar que supera o não fazer sentido...
Não importa se a porta me chama pro mundo
e revela que o fundo já cumpriu seu poço,
tenho todos os ossos cravados aqui...
Já parei de pesar se apesar deste amor
vale a pena viver um morrer tão constante,
pois te amar é bastante pra nunca saber...

terça-feira, 13 de junho de 2017

O PRUMO DA VIDA

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Antes do tiro que lhe coça o dedo, procure ver quem é. O que deseja. A que veio. Antes da partida ou do freio que moram em seus pés, pergunte a si mesmo seu porquê. Defina o ponto, a rota, e tome ciência da medida. 

Segure um pouco seu não, seu sim, para dar ouvido à pergunta, o pedido, a proposta em sua totalidade. Não se precipite. Pode ser frustrante, até perigoso, ter uma resposta pronta; padrão; sempre a postos no play da língua.

Tome tento. Antes do antes, do depois ou do corte pré-determinado, permita o benefício do tempo que o mundo pede. Deixe a vida cumprir seu chão. Seguir seu prumo rumo à morte que sempre aceita o depois, para ser definitiva.

PASSANDO A LIMPO

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Um dos maiores riscos que o escritor enfrenta é o de soar hipócrita. Isso ocorre quando ele fala dos vícios e das mazelas do ser humano, com seus textos eivados de conselhos e críticas ao comportamento social como um todo.
É assim que me sinto a cada vez que publico em livros, páginas de jornais ou em rede social, textos que tratam de posturas, conceitos e preconceitos que pautam a sociedade na qual vivo. Sei que não poucas vezes pareço estar acima de qualquer suspeita ou carência de reprimenda, mas isso é um equívoco provocado pelo meu desejo de ser exatamente como recomendo que os outros sejam.
Se jamais cometi um crime, um delito, qualquer ato que a lei condene, devo confessar que não sou exatamente um exemplo como ser humano. A lei não tem, realmente, por que me condenar, mas a graça propõe constantemente à minha consciência, uma profunda reflexão. Um repensar necessário à paz interior, pois tenho cá meus vícios, minhas posturas íntimas, estritamente pessoais, que só eu sei como pesam, nos meus muitos momentos de autocrítica. 
Vivo me condenando às escondidas, ora punido pela consciência, ora beneficiado pelo habeas corpos no qual me justifico por ser apenas um ser humano, e assim vou. Do que posso me orgulhar é apenas a tentativa constante, quase sempre bem sucedida, de não prejudicar o outro. Só a mim mesmo. Isto é uma filosofia que adotei faz tempo, quando consegui absorver algumas lições de ética e preocupação com o ser humano. Posso não ser um cidadão nota dez nesse quesito, mas creio que passo raspando.
Em suma, quando venho a público deplorar o comportamento humano, muitas vezes deploro consciente ou inconscientemente a mim mesmo, convidando a todos para uma reflexão em conjunto. Ao tecer conselhos, críticas e até pregações, aconselho ao meu eu mais fundo; critico meus próprios atos e prego para minha consciência, deixando em aberto para quem mais esteja inserido nos contextos.
Obrigado por ler meus versos. Minhas crônicas. Meus artigos. Por acreditar nas mensagens. Na minha sinceridade ao escrever. Mas não caia no ardil de me adotar como seu espelho; seu guru; seu sabe- tudo. Não sei de nada. Sé sei mesmo escrever, como forma de ajudar a mim próprio e dividir com quem aceite, mesmo sabendo que um saber profundo a meu respeito poderá lhe causar algumas frustrações.

segunda-feira, 12 de junho de 2017

AMOR EPITELIAL

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Eu amei o teu corpo e teu amor,
meu poder sobre as tuas sensações,
foste a flor no Saara dos instintos
duma longa estiagem no meu brio...
Eu me amei no reflexo da estima
que acordou entre a pele provocada;
na menina que deu ao meu outono
um atalho que nada presumira...
Não te amei como a febre fez sentir,
mas bebi a loucura de que amei,
pela força dos poros encharcados...
Eu te amei como eco da mentira
com que sei que me amaste quando a vida
foi a lira da minha solidão...

sexta-feira, 9 de junho de 2017

AQUELE AMOR


Demétrio Sena, Magé - RJ.


Nunca mais repeti aquele amor
que me dava mais forças pra viver,
um torpor que acendia o corpo inteiro
e fazia sonhar com tudo eterno...
Fui feliz; de sentir que até doía;
de querer duvidar por precaução,
mas a minha emoção gritava forte
pra deixar a loucura ser maior...
Um amor que me deu raiz e chuva,
chão e sol pra florir e vingar fruto, 
fez da uva o meu vinho precioso...
Foi a minha ilusão bem verdadeira,
minha beira de abismo rumo ao céu
que só pude alcançar naquele amor...

terça-feira, 6 de junho de 2017

FOLDER

Demétrio Sena, Magé - RJ.


Sabes tanto e não sabes que fazer
desse tanto que nunca te valeu;
tanto 'eu' processado em teu vazio
que o saber ostensivo não preenche...
Há um todo poder que não te salva
dos teus medos, da tua solidão,
do perdão que não tens a dar nem ter
quando encaras os olhos que te veem...
Tudo sabes e o tudo se faz nada,
porque já não te cabe aprendizado
e ficar no passado é teu futuro...
É um triste saber que se reduz
a um foco de luz repetitivo
sobre a mesma propaganda enganosa...

quinta-feira, 1 de junho de 2017

SAGA RESTANTE

Demétrio Sena, Magé - RJ.



Hoje venço as derrotas forjadas pra mim;
já não busco vitórias que são duvidosas;
lá no fim dos meus sonhos estão meus espelhos
onde quero me olhar e sorrir pro que veja...
Errarei outras vezes; não nos mesmos pontos,
nem serão novos erros que premeditei,
desses prontos, medidos e delineados
pela lei de chegar sem questão de caminho...
Tenho prole que pede para ter matriz,
há um giz que precisa fazer jus ao quadro,
uma saga restante que requer critério...
Aprendi as lições que o passado ensinou;
sou aluno esforçado, quero me formar
e saldar com a vida pra partir em paz...

segunda-feira, 29 de maio de 2017

EM NOME DA ÉTICA

Demétrio Sena, Magé - RJ.


Há um grande número de cidadãos focados especificamente no que a lei permite, proíbe ou manda. Isso é bom, porque muitos crimes, delitos e contravenções deixam de ser praticados, pela mera existência do temor da lei. Por existirem, ainda bem, essas pessoas temerosas das consequências diretas de seus atos, mesmo que lhes falte caráter para, no fundo, não desejarem praticar tais atos.
A realidade se complica, e muito, quando a ética está em jogo. Sendo ela o conjunto de posturas e atitudes que a lei não manda nem proíbe, muita gente boa, em princípio, porque não comete crime, abusa do atentado impune ao ser humano. Constrange, prejudica, passa para trás, engana, falta com a palavra, faz fofoca, dedura e até ganha pontos com quem lhe convém ou interessa agradar, mesmo que prejudique aquelas pessoas que não oferecem retorno, vantagem, promessa, ou das quais apenas não gosta.
Falta-se muito com a ética nos ambientes de trabalho, nas igrejas, agremiações e outros grupos, em troca de promoções, prestígio, atribuições, privilégios e cargos que pertencem a outros. Muitas vezes tão só para ficar bem aos olhos do líder, e ter a honra questionável de se tornar mais íntimo.
Também se falta muito com a ética em nome de um destaque na família... da disputa pela preferência geral. Nos dissídios e nas intrigas envolvendo proles. Algumas vezes, pela simples curiosidade ou desejo de cutucar desafetos do outro lado, por intermédio de alguém mais frágil, dependente ou ingênuo, que no fim das contas é igualmente prejudicado sem nem saber a razão.
São muitas as crueldades. Os atos perniciosos não previstos em lei. E a ética, intocável para o jugo da lei, em nome da graça, do arbítrio e da liberdade responsável do ser humano, fica seriamente comprometida. Uma sociedade sem lei é truculenta; brutal... sem ética, é hipócrita e nojenta.

sexta-feira, 26 de maio de 2017

RETROVISOR

Demétrio Sena, Magé - RJ.


De repente uma vida foi tão pouco;
não pra todos os sonhos ou seus feitos,
pros defeitos, virtudes, erros, tinos,
nem o lúcido e louco no meu ser....
Foi pro quanto não fiz, não consertei,
os perdões que deixei de conseguir,
as emendas frustradas e suturas
de meu ir e meu vir desencontrados...
Uma vida foi pouco pra voltar
dos caminhos escusos que trilhei,
cada vez em que o pé ficou sem chão...
Tanto passo perdido fez a vida
se perder dos meus pingos, dos meus is
e do giz que falhou no quadro negro...

domingo, 21 de maio de 2017

OUTRO EU


Demétrio Sena, Magé - RJ.

Resolvi não matar o matador
ou roubar o ladrão, rir de quem zomba,
ser a bomba que volta pro destino
nem a dor encalhada em quem magoa...
Não pretendo algemar os opressores,
falar mal dos que falam mal de mim,
dizer sim para todos esses nãos
que adivinho nos olhos ante os meus...
Aprendi a perder pros que me fazem
cogitar golpes baixos pra vencer,
já joguei dessa forma e não foi bom...
Hoje tenho a certeza de quem sou
e me venço até ver uma saída
em que a vida não volte a me aviltar...

terça-feira, 16 de maio de 2017

QUIS TANTO

Demétrio Sena, Magé – RJ.

Tive o sonho de uma. Tão somente uma relação sincera e desarmada. Que rompesse as barreiras e quebrasse os tabus. Não temesse as possíveis distorções, por achá-las impossíveis.
Uma relação cuja boa fé deixasse ampliar limites, permissões e horizontes. Desnudar os conceitos que o mundo veste. Captar emoções ocultas que a ditadura do moralismo proíbe, sem achar que “aí já é demais”.
Quis ter uma relação, apenas uma, em que as formas de lidar não seguissem fôrmas. Onde não existisse desconforto. Só conforto, soltura, entrega, e a paz de se deixar estar sem a velha sensação da improbidade; o além do limite.

Sonhei alto. Quis demais, por querer um laço romântico sem ter que ser um romance. De paixão, sem ter que ter sexo. Um laço em que a confiança mútua nos permitisse ter... e dar “essas confianças”.