terça-feira, 28 de março de 2017

TUDO NADA

Demétrio Sena, Magé - RJ.



Se procurarmos
o tal de tudo,
talvez achemos
e não mais:

Sobretudo. Contudo. Sortudo. Estudo. Pontudo. Patudo. Tetudo. Gargantudo. Testudo. Cistudo. Peitudo. Dentudo. Batatudo. Topetudo. O próprio tudo...

Salvo engano,
rocambolismos,
invencionices,
isso é tudo...

Quanto ao mais,
por toda a estrada,
encontraremos
a cada passo:

Marmelada. Granada. Estabanada. Limonada. Jornada. Abandonada. Bananada. Inclinada. Clonada. Dominada. Determinada. Ensinada. Internada. Externada. Inseminada. Disseminada. Iluminada. Empanzinada. Esplanada. Entronada. Afanada. Sanada. Fornada. Assassinada. Pressionada. Friccionada. Aficionada. Terminada. Exterminada. Fracionada. Treinada. Fascinada. Vacinada. Racionada. Danada. Antenada. Eliminada. Engalanada. Enganada. Desenganada. Encanada. Desencanada. Concatenada. Aprisionada. Bolinada. Ruminada. Depenada. Apenada. Condenada. Reclinada. Meninada. Minada. Ninada. Encenada. Entonada. Atazanada. Sanfonada...

e fico aqui,
porque mais nada...
digo;
cada vez
mais nadas.

E sei que isso
não explica,
só complica
e não agrada...

No fim de tudo,
tudo é menos,
bem menos
do que nada.

domingo, 26 de março de 2017

PLENO


SAGRADO RECESSO

 Demétrio Sena, Magé - RJ.


Quem vier me buscar pra me pôr no batente,
só terá de retorno meu sonoro não;
a não ser que me leve, uma estrela cadente
que me pegue no pé ao invés de na mão...

Hoje quero só rede; nem piso no chão,
pois me dei este dia de agrado ou presente;
quero sombra com água, café, queijo e pão
e poemas com sonhos do forno e da mente...

Pra dizer a verdade, ficarei assim
até quando a canseira não der mais por mim;
a minh´alma também estiver descansada...

Amanhã na ressaca da paz deste agora
serei dono do tempo, já mandei a hora
me despertar meio dia da madrugada...

segunda-feira, 20 de março de 2017

A JOVEM DO LOTAÇÃO

Demétrio Sena, Magé - RJ.


Quando a mocinha ruiva e muito bem vestida entrou no lotação, só havia uma vaga para sentar. Um jovem negro que ocupava o assento ao lado se ajeitou para que ela ocupasse confortavelmente a vaga. A moça não quis. Agradeceu educadamente, meio de viés, e permaneceu como estava. O assento logo foi ocupado por outra pessoa.
Era uma viagem demorada e cansativa, e o lotação lotou. As pessoas ficaram espremidas e a moça continuava em pé. Bem depois, um rapaz que desembarcaria no próximo ponto a cutucou pelas costas e convidou a ocupar antecipadamente a vaga. No assento à direita, uma senhora bem idosa, em trajes encardidos e muito pobres, abriu um sorriso muito simpático, de alguns dentes cariados, como se desse boas vindas à moça. Mas a moça continuava bem. Não estava cansada. Outra vez agradeceu educadamente... e de viés.
Mas ninguém é de ferro. Quando o lotação começou a esvaziar, e ainda restava um bom pedaço de asfalto para chegar ao ponto final, onde a mocinha ruiva desembarcaria, mais um passageiro desembarca e deixa um novo lugar, ao lado de um moço forte, alto, branco e metido em trajes sociais. Aí a moça se rende: lentamente se dirige à poltrona, dá um sorriso simpático, seguido de um 'com licença', senta, se recosta e dorme.
Não tarda muito, e o moço bem apessoado sai, de forma bem delicada para não acordar a moça. No mesmo ponto, embarca no lotação um idoso esquelético, visivelmente esgotado e carregando pesados sacos de sucata, que ele catara provavelmente o dia inteiro. Deixa os sacos perto da porta, se dirige à vaga na mesma poltrona da mocinha ruiva, e com expressão de alívio se acomoda, sem demorar também a dormir.

Regidas pelo cansaço, o conforto da poltrona quase macia, o vento da janela e o ruído suave do veículo em movimento, ambas as cabeças pendem, cada uma para o ombro ao lado. É nessa entrega inocente, simbólica e desarmada que ambos seguem viagem para o mesmo bairro, onde moram cercados pelas mesmas realidades diárias.

domingo, 19 de março de 2017

ESSÊNCIA, GARRAFA E ROLHA

Demétrio Sena, Magé - RJ.


Tenho aqueles extremos, indesejáveis pra muitos, da confiança incondicional, desarmada, irrestrita, ou a desconfiança cega e sistemática. Da entrega ou do rapto de mim mesmo; a doação infinita ou a mais cerrada sonegação do meu todo, porque doar ou sonegar pela metade não completa os meus princípios.
Quem quiser minha essência, terá de sugá-la inteira e também acolher o frasco, pois são inerentes os meus lados. Minha cara não presta sem a coroa, e vice-versa. Sempre vou com fundo e superfície aonde quer que eu vá... e para quem quer que eu vá. Meu carinho não é diminutivo. Se não adoro, detesto, e se não atesto, jogo imediatamente fora. Nunca deixo para fazê-lo depois.
Foi assim que fui com você, que poderia ter sido assim, ou simplesmente o avesso, comigo: confiei sem escudo nem armadilha... entreguei sem freio... doei sem fim... fui essência, garrafa e rolha... tudo em um. Você não tinha o direito de se forjar e corresponder pela metade, à minha plenitude que morreu nos braços da ilusão de sua coplenitude.

sexta-feira, 17 de março de 2017

GENTE ARCADA


Demétrio Sena, Magé - RJ.


Nunca tive talento com gente de bolha,
que se quebra no ar à menor vibração,
ou é folha varrida por todos os ventos
e não sabe o que sente; nem sabe o que sabe...
Faço curva pra gente quebrável demais,
que desanda, esfarela, perece ou resvala,
se mascara e se cala sobre seus conflitos
pra depois cometer injustiças vencidas...
Quem jamais se resolve ou resolve o que for,
feito flor de soprar que se deixa na mão
e seu talo, no chão, vai pra baixo dos pés...
Sempre tive cuidados com gente marcada
para ser vitimada por tudo ao redor,
uma dó de si mesma e mil mágoas do mundo...

REVIVENTE

Demétrio Sena, Magé - RJ.


Aprendi a crescer quando renasci. Quando voltei do meu fundo e vi que não tinha mais amarras, graças ao projeto pessoal de me tornar exatamente mais pessoal. Ou mais quem sou. Obriguei-me a saber viver, para não ser morto... nem elétrico... falante... notório, até vivo, e mesmo assim morto.
Afiei minhas garras, e como não conseguia sair do coma profundo, fiz o coma profundo sair de mim. Mostrei a cara pro espelho, desafiei meus olhos e disse ao silêncio: estou aqui... não puxei a cigarra... não pare o mundo, porque meu ponto é além... não sei onde, mas é além... ainda não quero descer.

segunda-feira, 13 de março de 2017

ENTREGA

Demétrio Sena, Magé - RJ.


Foi assédio afetivo; confesso que foi;
um afeto sem asas pra voos escusos,
para os fusos empenhos ou atos avessos
ao exato sentido que tinha que ter...
Foram idas desnudas de planos a mais,
depois vindas serenas, de plena leveza,
com a branda certeza do mesmo desvelo
sem apelos, cobranças, anúncios de assaltos...
O carinho assedia e se deixa tomar
de cuidados, descuidos, entregas fluentes;
é a forma de amar que se rende sem peso...
Querer bem nos desarma, nos livra por dentro
e nos torna indefesos com quem se defende
como centro de todos os mísseis do mundo...

terça-feira, 7 de março de 2017

MENTIR


Demétrio Sena, Magé - RJ.


Custa caro viver a qualquer preço;
é morrer muitas vezes até lá;
ter apreço excessivo por sentir
se apagar; derreter; perder a cor...
Meu amor pela vida não é tanto
que me faça cavar um poço fundo,
dar o mundo que nunca tive à mão,
pelo tempo estendido além de mim...
Só é justo viver enquanto a vida
não é fardo pra nós ou para os nossos;
para os olhos, os ossos nem a alma...
É injusto passar do fim da estrada,
pelo simples capricho de sentir
que mentir é melhor do que morrer...

AMBIÇÃO


Demétrio Sena, Magé - RJ.


Descobri exatamente no que chamam de acomodação, a mais ambiciosa forma de viver bem.

DEIXAR DE SENTIR


Demétrio Sena, Magé - RJ.


Sempre houve um pra sempre; já perdi a conta;
todo amor é assim em seu passo primário;
tudo quanto começa já traz uma ponta
pra buscar outra ponta de mais um sudário...

Imortal repetente ou eterno diário;
cada laço é uma vida que o tempo remonta,
como nosso infinito cabe num aquário
onde o pronto parece que nunca se apronta...

Quanto amor para sempre; quanta eternidade;
a verdade que agora desmenta a verdade,
quando nossa doçura virou absinto...

Aflorou no pra sempre o velho nunca mais;
outro sonho cansado retorna pro cais;
meu amor, sinto muito pelo que não sinto...

sexta-feira, 3 de março de 2017

O SEGREDO


Demétrio Sena, Magé - RJ.


Sei fingir que não sei que fui posto no flanco;
que o que foi, até ontem, já deixou de ser,
porque ser ou não ser é questão que resolvo
no meu banco de sonhos e tempo que segue...
Já conheço pessoas; também sou pessoa;
quando sei que alguém pensa que me desmanchou,
sou bem mais o que sou, mas me deixo calar,
porque soa mais leve pro mundo fluir...
Acho mesmo que achei o segredo da vida;
é saber que não posso apostar nem em mim,
que meu sim é volúvel; meu não é tocaia...
Quanto ao mais é fingir que não sei do que sei,
pois ainda é melhor toda má companhia
do que a vida vazia, sem meu semelhante...

ILUSÃO?

Demétrio Sena, Magé - RJ.


Tenho a ilusão de um tempo em que o amor e a integridade não sejam hipocrisia, e ninguém precise confessar que não presta, para ser verdadeiro, admirado e ganhar bônus para continuar não prestando.

AUTOPERMISSÃO

Demétrio sena, Magé - RJ.

Quero todas as vidas que a vida permite,
cada uma em seu tempo, sua duração,
sua fase, versão, seu desenho do mundo
que me cerca e não posso me desvencilhar...
Ponho todos os mundos que o mundo dispõe,
sob os pés aprendizes de novos caminhos,
entre flores, espinhos, verdades e farsas
e as forças ocultas que chamam meus olhos...
Desde cedo me jogo no abismo do tempo,
jogo todos os jogos que tudo insinua,
minha lua não pode reger meus instintos...
Morrerei de viver, de sonhar e sentir,
permitir a mim mesmo, soltar minha fauna
e deixar o depois para quando não sei...

quarta-feira, 1 de março de 2017

HIPOCRISIAS

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Quando era membro de uma igreja cristã, fui a pessoa mais hipócrita sobre a face da terra. Para mim, o mundo estava completamente nas trevas; ninguém prestava, se não fosse convertido... em outras palavras, se não fosse como eu. Foi assim que aprendi com o meio, naquele tempo e lugar; foi assim que fui orientado a pensar e agir.

Faz muitos anos que não sou membro de qualquer comunidade religiosa. Mesmo assim, continuo sendo a pessoa mais hipócrita sobre a terra. Entre outros motivos, por me julgar melhor do que os convertidos, mesmo sabendo e não desejando fazê-lo. Sobretudo, por cair na tentação de me julgar a pessoa menos hipócrita sobre a terra.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

MATURIDADE KID

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Crianças pequenas; pequenas mesmo, têm emoções exatas. Riem de alegria, ternura, satisfação e graça. Choram de medo, raiva, nervosismo, tristeza e dor. Emoções boas, o riso. Emoções ruins, o choro. 
Essas crianças pequenas que se desmancham em lágrimas comportadas, nos programas de tevê, nas mais diversas apresentações ao vivo para grandes plateias e outros momentos onde são pequenas estrelas, alegando estarem emocionadas pela grande alegria, só copiam expressões adultas. Na maioria das vezes, elas chegam aos locais, (in)devidamente orientadas, de algum modo, a se comportarem como crianças sábias; centradas; adultinhas. Por isso discursam, desfiam vocabulários incompatíveis com suas idades, forjam expressões altaneiras, ainda que simpáticas, e arrancam suspiros, também lágrimas, da produção e a plateia.
Aprecio criança de fato criança. Inteligente, mas criança. Estudiosa, mesmo assim criança. Talentosa, talvez focada em algum projeto, mas de qualquer modo, e sempre, criança. Que fala e se veste como criança... brinca e fica de mal... tem sonhos, fantasias, pesadelos e medos de criança. Sem afetamentos e ares de maturidade kid, vocabulário empolado, sabedorias impróprias ao seu saber, especialmente por serem sabedorias forçadas; precoces. Crianças adultas são crianças adulteradas.
Sábio, mesmo, é preservarmos nossos filhos pequenos. Não forçarmos a natureza infantil, sob pena de forjarmos indivíduos sonsos, hipócritas e superficiais. Adultos intolerantes, sisudos e chatos ou meninos e meninas temporões, fora de hora e contexto... igualmente chatos.
Tenhamos em mente que, seja como for, os adultinhos forçados de hoje são as criançonas inchadas e vazias de amanhã.

domingo, 26 de fevereiro de 2017

SONO PROFUNDO

Demétrio Sena, Magé - RJ.



Emoção que resvala, se rende ou relaxa;
um destino que agora já não vê caminho;
talvez tenha, mas temos que pagar a taxa,
quando a flor perde viço e só nos resta espinho...



Nosso amor continua, mas resseca e racha,
sabe o quanto não pode se manter sozinho;
é a velha engrenagem que perdeu a graxa,
ou a casa que um dia deixou de ser ninho...



Precisamos achar nosso sonho perdido,
para nossa esperança não perder sentido
e o amor despertar do seu sono profundo...



Toda vida renasce, porque tem semente;
pode ser nosso caso; se olharmos pra frente
como quem acredita no sem fim do mundo...

SÃ FILOSOFIA


Demétrio Sena, Magé - RJ.


Vi no aço do espelho, que não sou de aço;
no silêncio da noite, que não sou eterno;
disse o terno que a morte não escolhe roupa
e a roupa não cobre minhas indecências...
Vejo a vida com olhos de nudez completa,
como vejo que o tempo é a pele da história,
sua glória está justo em abrigar a alma
da verdade ou do sonho do que ninguém sabe...
Há nas cores do mundo a certeza da treva,
tudo mostra que o nada se reconsolida,
já no meio do todo recomeça o fim...
É assim que detenho as ambições afoitas,
dou à lida os esforços de pessoa sã,
sem as vãs agonias do querer demais...

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

INQUISIÇÃO

Demétrio Sena, Magé - RJ.


Há um grito matriz e seus ecos profundos,
que meu peito censura para me poupar,
tenho mundos ocultos e vidas de arquivo
por tirar do meu medo; minha solidão...
Trago sonhos perdidos de repor meu tempo
tantas vezes perdido em razão de ganhá-lo,
se me calo sem fim meu silêncio se avulta
e seu vulto me atira nos moldes dos olhos...
Sou alguém que precisa vencer quem estou,
pois estar me agoniza, porque piso em falso
pra viver o sossego dos que não têm paz...
Todos vivem cercados pela inquisição,
coração é masmorra que ninguém destranca,
todo mundo é a banca da moda corrente...

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

PRECONCEITUOSO

Demétrio Sena, Magé - RJ.


Discrimino pessoas que se forjam lei;
a verdade, a matriz e o espelho do mundo,
porque sei que ninguém alcançou esse grau
e ninguém está pronto para ser seguido...
É que sou imperfeito e discrimino gente
que se acha mais gente, seja por que for,
quem se traja de flor numa ilha de farpas;
o mais sábio, maduro, vivido e capaz...
Tenho mais preconceitos do que julgo ter,
mas alguns estão claros até para mim;
sou assim, por exemplo, com sonsos; fingidos...
As pessoas de toda e qualquer natureza,
que separam por classe, feição, etnia;
discrimino soberba e discriminação...

sábado, 18 de fevereiro de 2017

MEU MUNDO REAL

Demétrio Sena, Magé - RJ.
Um amigo de muitos anos, do qual não cobrei nada, fez questão de justificar sua ausência à abertura de minha exposição fotográfica na Fundação Educacional e Cultural de Magé. Morador de bairro bem próximo, e de acesso facilitado por ônibus, táxis e unidades de UBER, meu amigo, que até há pouco não tinha carro disse, desolado, ao telefone:
- Sena; me desculpe, mas o meu carro deu defeito; por isso, não poderei prestigiar a abertura de sua exposição, e talvez nem dê para ir, nos próximos dias, pois pode ser que o carro fique na oficina por algum tempo.
Não vejo qualquer problema, se algumas pessoas não podem se fazer presentes a momentos importantes para mim, tanto quanto não posso me fazer presente a tantos momentos importantes para pessoas queridas, inclusive familiares. Respeito as impossibilidades, por menores que sejam, como respeito o fato de alguém não desejar ir, e até não gostar de determinados eventos. Do que não gosto, e não gosto mesmo, são explicações esdrúxulas, que mais complicam do que explicam.
A amizade continua, é claro, como continuaria, sem qualquer mancha, se não houvesse nenhuma explicação. As pessoas queridas para mim são muito mais importantes do que momentos, obrigações sociais e coisas. Não sou vaidoso ao ponto de achar que todos devem me prestigiar a qualquer custo, em todos os momentos de minha vida. Igualmente, não me obrigo a prestigiar todos os meus amigos em tudo o que eles fazem, e sei perfeitamente que sou compreendido neste aspecto.
Sou pessoa bem simples. Não sei dirigir, moro na roça, viajo longas distâncias de bicicleta comum, capino meu quintal, faço minha comida, e minha água é de poço de anéis, puxada por bomba manual. Só compareço à dita civilização para trabalhar, participar esporadicamente de momentos como esse, da exposição, atender a clientes pontuais que me pedem para fotografá-los, e é desta forma: um pé lá, outro cá. Sempre volto correndo para meu mato.
Em outras palavras, não pertenço a esse mundo em que as pessoas ficam sem braços quando a diarista não comparece; não sabem se virar de outras formas quando não têm seus empregos específicos; quebram as pernas quando ficam sem carro.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

POR DENTRO

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Foram tuas lições de frieza e distância
que formaram meu ego, acenderam meu brio,
desaguaram meu rio na sombra do caos
e calaram a voz de cada sonho em mim...
Aprendi a sedar as lembranças que dóem,
anular a saudade num sono profundo,
ser um mundo em minh´alma e revolver o corpo
em camadas de gesso que burlam os olhos...
Foi a tua mentira embrulhada em afeto
a verdade mais falsa que tive nas mãos,
deslizou entre os vãos do que senti sozinho...
Fui aluno exemplar, me tornei este busto
numa praça gelada para ninguém ver,
aprendi a viver de te matar por dentro...

ROUPA NOVA PARA UMA ETERNA CANÇÃO

Demétrio Sena, Magé - RJ.


Não sei me comportar
diante do seu rosto
e o seu olhar,
bebendo o seu silêncio
e seu falar,
com toda minha alma,
sentido e coração...

E sinto a pulsação
parar;
não sei conter...
Nem sinto o chão e o ar;
suspendo a própria vida...

Não posso me calar,
ao menos em poesia
eu vou falar,
buscando a melodia
pra cantar
a funda sintonia
da minha vibração...

Eu sinto que viver
é ter um sentimento
pra trocar,
viver essa magia
de me dar
até sem receber!

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

MINHA CASA


Demétrio Sena, Magé - RJ.


Uma casa não tem, seja ela qual for,
a beleza do arbusto e da flor no quintal;
a riqueza das sombras que as árvores dão;
o valor da nascente ou do poço de anéis...
Toda casa precisa do chão ao redor,
passarinhos, lagartas, depois borboletas,
vira-latas, besouros e camaleões;
emoções delicadas e restauradoras...
Meu quintal só tem cerca por identidade,
minha casa modesta pode ver a rua,
da janela sem grade; a porta sempre aberta...
Uma casa tem vida se tiver lá fora
uma rede, um lá fora que nos dê prazer,
umas horas pra ler, pra sonhar e dormir...

OUTRA VEZ

Demétrio Sena, Magé RJ.


Começar outra vez é repetir nascer;
é achar a razão que se havia perdido;
renascer de algum nada bem depois de tudo
que se foi ou se teve, ou se pensou que sim...
Comecei outra vez, quantas vezes nem sei;
como quem prosseguisse, mas foi outra vez,
cada vez em que achei algum sonho esquecido
e me achei no vazio de minha existência...
Renascer vem da hora que nos mostra o chão
no momento em que as asas perdem serventia,
onde nossa paixão perdeu graça e feitiço...
renasci muito mais do que julguei morrer;
se morri ao viver inadequadamente,
é com erros recentes que me reconserto...

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

USE AS ASAS

Demétrio Sena, Magé - RJ.


São desculpas demais para culpa nenhuma;
não precisa dizer um adeus tão não dito,
tão aflito, espremido, arrastado e sombrio
feito seres de sótãos e suas correntes...
Quem se obriga o que há muito parou de sentir,
faz de conta com todas as forças sinceras,
quer mentir pra si mesmo com suas verdades,
perderá tempo e vida nesse ganhar tempo...
Use as asas e vá, seja livre de mim,
dê ao fim a leitura que vejo em seus traços
e me tire do sonho desse para sempre...
Não se culpe ou desculpe pelo que acabou,
seu amor foi um show de paixão temporal
que valeu cada instante real de miinh´alma...

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

FACILITUDE


Demétrio Sena, Magé - RJ.


Quero a graça do fácil, do acessível,
do sem drama, da pouca cerimônia,
da não culpa, do querer por querer
e a pronta resposta irreticente...
O valor que não quer valorizar;
dizer sim, ouvir sim, tocar avante,
sem o tom arrogante que o talvez
põe na voz entre dentes ilegíveis...
Hoje busco a leveza da fluência,
do sem sombra, sem dúvida e rodeio,
termo inteiro, não meio nem velado...
Facilite-se a vida como a morte
que ninguém ousará ter como incerta,
como sorte ou pegadinha da sina...

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

SÓ ISSO TUDO

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Só queria estar dentro, de tão perto;
Ser apenas teu próximo excessivo;
Quando eu fosse mergulho em mar aberto,
Tu serias meu mar e meu motivo...

Tua lavra de amores, teu arquivo,
A miragem real em teu deserto,
Ser teu sonho me faria mais vivo
E minh´alma seria teu enxerto...

Eu queria somente ser teu todo,
Minha sombra criaria o teu lodo,
Quero apenas sonhar com tal magia...

Meu desejo não sabe ficar mudo;
Foi assim que fiquei; só isso tudo;

Sou a noite que vive pro teu dia...

GERAÇÕES

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Minha geração cresceu ouvindo Chico, Bethânia, Tony Tornado, Roberto, "Joões", Caetano, Gil, Jorge Ben, Clara Nunes... lendo Cecília, Bandeira, Ferreira, Drummond, Vinícius, Aghata, Cora, "Veríssimos"...
Minha geração cresceu combatendo, cada um ao seu modo, as ditaduras política, social, familiar... também cresceu aprendendo ofícios desde os dez anos. Assumindo responsabilidades aos quatorze. Quem queria estudar, precisava querer muito, e quando conseguia, tinha o respeito e as oportunidades que os formados de hoje não têm. Naqueles tempos, ter o "científico", análogo ao contemporâneo ensino médio, valia muito mais, tanto em conhecimento quanto em valia, do que ter o atual e defasado curso superior.
Minha geração cresceu sabendo que seria mantida pelos pais até o início de sua juventude, quando os pais é que passariam a ser mantidos por ela. Cresceu sem a proteção do termo adolescência, da lei contra o bullyng, cujo termo também não existia, e das leis contra os preconceitos e pelos direitos humanos. 
Minha geração cresceu sob o peso dos erros da geração anterior... dos extremos que a fizeram sofrer muito, suar e se auto exigir, para sobreviver... mas acho que foi por isso que minha geração cresceu... porque não tinha como não crescer... era crescer ou morrer, oprimida por um sistema que não dava outra saída.
Mas a minha geração, pelas lembranças de nosso tempo, comete outros erros com a geração atual... outros extremos, como dar liberdade além do sensato, não exigir nenhuma responsabilidade, criar na barra-da-saia, oferecer o máximo sem exigir o mínimo... mimar, dizer todos os sins e ceder às chantagens emocionais de uma geração preguiçosa para fazer o certo e pensar nas gerações futuras, que pelo visto, serão ainda mais propensas a não crescer. Com todos os erros de uma geração que pelo menos teve o desejo de acertar, minha geração cresceu... cresceu crescendo... cresceu enquanto crescia.

domingo, 22 de janeiro de 2017

DESGOSTAR


Demétrio Sena, Magé - RJ.

Se não gostas que eu goste assim de ti,
que me mostre, confie, me desnude,
me destrone pra lua dos teus olhos,
deixarei de gostar do quanto gosto...
Pode ser que minh´alma engula o corpo,
que meu corpo amordace a minha alma,
pra que a palma da pele não aplauda
com a força do afeto que dedico...
Mas gostar de quem és é de quem sou,
goste ou não eu não sei te acomodar
no silêncio da minha inquietação...
Calarei o que sinto, mas por fora,
já é hora de achar a minha voz
que me diz pra também gostar de mim...

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

CHEGANDO À TERCEIRA IDADE

Demétrio Sena, Magé - RJ.


A velhice não é a melhor idade, como se convencionou, mas pode ser uma idade melhor. Isto, se nos dispusermos a aceitá-la e dar o melhor de nós, para vivermos com relativa qualidade. Se a nossa infância e a juventude foram marcadas pelo que teríamos, e ao mesmo tempo pelo que não sabíamos que tínhamos, a velhice pode ser vista como a coroação de um um estágio no qual fomos aprovados.
Uma vez aprovados, passamos a viver do que nos resta, face ao que tivemos, e a reciclar nas nostalgias o valor desse troco do que pagamos para ver, e do eterno passado, sempre aos olhos, em formas de retrovisores. Reciclar, neste caso, não é só reviver. É viver de novo, como se a vida fosse realmente outra, com as limitações bem vindas por quem já viveu. Por quem já foi. Quem recaminha, sabedor de que o recaminho é curto. Não é um período que se compare à trajetória já percorrida, mas vem como um bônus especial para quem se superou.
Envelhecer é se superar. E quem alcança essa fase da vida sem se dar conta disto, viveu à toa. Não cresceu. Só envelheceu. No fundo, não superou nada. Simplesmente murchou, sem produzir sementes. E não adianta se valer de besteiras como chavões do tipo espírito jovem, coração de criança, corpo "com tudo em cima", para fugir da própria caveira que se esqueceu de cair e se mantém sob a pele flácida semelhante a um mapa ilegível, sem qualquer indicação do tesouro.
Façamos da velhice uma idade melhor, sem fantasia de melhor idade. Um tempo de reflexão serena para o bom fechamento de nossos dias, ainda que sem cessarmos as atividades que nos mantêm vivos enquanto há vida. No mais, pior do que tentarmos ser quem não somos, é insistirmos em ser, por fora, o que já fomos e agora não dá mais. É necessário que o corpo, a mente, o espírito e o coração, em seu sentido afetivo, estejam em plena sintonia. Não é possível cada parte puxar para um lado.
Creio, depois de tudo, que o segredo seja tão apenas enxugarmos, de uma vez por todas, o nosso conceito pejorativo de velhice ou terceira idade, sem darmos tanta importância para nominatas. Palavra de quem logo, logo estará nesse patamar. Que bom. Parece que sou merecedor de chegar lá... ou logo ali.

domingo, 15 de janeiro de 2017

O QUE A VIDA ME DEU


Demétrio Sena, Magé - RJ.


Encontrei meu lugar, é jamais tê-lo
entre a sombra dos anos que se vão,
sob gelo, silêncio e nostalgias
ou saudades de chãos que nem pisei...
É jogar a minh´alma em cada corpo
que prometa o remédio pra carência;
cada forma de olhar na qual me aqueça
ou encontre dormência pro que dói...
Aprendi a me achar, é me perdendo
e me vendo nas linhas de horizontes
onde os mares me chamam sem destino...
Tenho apenas o dom de não saber
o que a vida me deu pra perguntar,
meu lugar é não ter pra onde ir...

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

ENGENHOS DE AMOR


Demétrio Sena, Magé - RJ.

Entendi que acabou, sei ouvir o silêncio,
auscultar a distância do teu coração,
dos teus olhos, teu corpo, desse nunca mais
e daquela emoção que forjavas tão bem...
Não entendo, entretanto, por que tudo aquilo,
por que tantas palavras, tantos desempenhos,
os engenhos de amor que jamais te obriguei
com chantagens, pedidos, truques afetivos...
Fui apenas quem sou e fingiste aceitar,
foram anos e anos de quem nunca foste,
mas querias provar a ti mesma que sim...
Mesmo assim tua faixa foi boa leitura
pros meus olhos, meu sonho, minha boa fé,
minha velha procura de alguém improvável...

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

LESÃO


PRIMA POBRE


Demétrio Sena, Magé - RJ.

A prática de gerar debates ou controvérsias em torno das puladas de cerca, dos hábitos alimentares ou de vestuário entre outros de pessoas públicas ou não, já concedeu a muitos indivíduos aqueles quinze minutos - às vezes um pouco mais - da fama questionável de polêmicos. Isso nunca os elevou ao pódio do respeito e da credibilidade consistentes de um público de qualidade.
As polêmicas pairam sobre questões importantes. Assuntos que merecem atenção pública, por seus contextos políticos, sociais, filosóficos, de classes e credos. O que gira em torno de assuntos íntimos, vidas pessoais e os mais diversos contextos de natureza originalmente particular, não importa o alcance ou a dimensão: será sempre uma discussão medíocre. Um debate menor... uma fofoca. Nada mais relevante ou substancial.
Por mais que tente atingir o patamar superior dessa nominata que jamais lhe coube, qualquer esforço há de ser feito em vão: a fofoca é a prima pobre - tanto quanto ilegítima - da polêmica.

domingo, 8 de janeiro de 2017

DÁLIAS


SABÃO


Demétrio Sena, Magé - RJ.


Estudei tanto a vida, e gritei tanto que além de minha formação acadêmica, era um excelente aluno dessa faculdade... mas, no fim das contas, que jamais aprendi a fazer, só passei mesmo do tempo. No quesito saber, de fato, levei pau, mesmo tendo memorizado lições que, no fundo, não entendi em sua totalidade.
Aprendi que ninguém aprende nada, em comparação ao que se dispõe às nossas vivências, em formas de sofrimento, superações, tombos, reerguimentos, frustrações e sucessos. Os erros que nunca mais cometeremos acabam sendo substituídos por aqueles que faltam, indefinidamente, ser cometidos.
O que posso dizer depois de tudo, e desse nada que me restou, dadas as comparações, é que hoje sei muito menos do que sei que sei. O saber é um sabão que ninguém consegue segurar... o que fica, por mais que nos arrotemos sábios, é a sua espuma. Ela já nos basta para sabermos viver. Pelo menos isso eu sei que sei.

INFINITO PROVISÓRIO

Demétrio Sena, Magé - RJ.


Hoje sinto que o sempre se fez nunca mais,
todo amor é nenhum, vejo a cara do nada,
tudo jaz onde o jazz nos tirou pra dançar
no salão das quimeras que dão rumo à vida...
Porque fomos eternos provisoriamente,
nossa chama imortal foi chamada e se foi,
deu à mente o que outrora foi do coração
e não disse a que veio, quando disse adeus...
Acabou essa estrada que não tinha extremo,
é de não acabar que se acaba o que paira
sobre o caos insondável de muitos mesmismos...
Já não resta sentido para sentimentos
que perderam a graça, todo viço e vício,
nosso amor foi comício pros ébrios da praça...