quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

PRÉ - EPITÁFIO

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Atravessei a juventude sem dar a mínima importância para o que pensavam e diziam de mim. Nos verdes tempos de minha vida, nunca tive a pretensão de, como sempre foi dito pelos moços, ficar bem na foto.
Quando passei de meio século, comecei a me transformar. Tomei a decisão de ser, não precisamente alguém melhor, porque isso é difícil, mas pelo menos alguém menos pior. A visão da velhice anunciada, e com ela o fim, já me fez repensar muitos conceitos, preconceitos, atitudes, pontos de vista e sentimentos.
Deve ser assim com muita gente. Por anos e anos, um 'nem aí' para ficar bem na foto. Aí o tempo passa, e de repente a morte se desenha bem menos alheia e misteriosa. Menos abstrata e mais definida.
Foi assim que da meia idade para cá iniciei um projeto: Fazer as pazes comigo e com o próximo. Ganhar novos afetos, manter os afetos atuais e repor os perdidos. Gostar mais dos outros e ser bem menos apaixonado por mim ou por meus espelhos.

Vejo a vida esvair por entre os dedos. O tempo fecha o cerco. Não posso correr o risco de partir sem antes ter a certeza de ficar bem no epitáfio.

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

SEJA FELIZ


Demétrio Sena, Magé - RJ.

Ninguém fica 
feliz
ou infeliz...
mas alegre ou triste.
Segundo a voz
do que me diz
pra ir com fé:
alegre ou triste
a gente fica.
Feliz ou não,
a gente é.

ESPERANÇA E FÉ


Demétrio Sena, Magé - RJ.

A esperança
espera e sente
(e faz sentido),
que nem tudo
- talvez nada
está perdido.
Quanto à fé,
por outro lado,
tem certeza
de que nem tudo
está achado.

MISSÃO EM MIM


Demétrio Sena, Magé - RJ.

Não tem abracadabra pro meu ostracismo,
quando surge a saudade que persisto em ter,
porque cismo em cavar o meu poço mais fundo;
ir mais fundo e perder o caminho de volta...
Falta chave pra porta que fecho por dentro,
se me calo pra tudo que acontece à margem,
pois a minha viagem no centro do eu
não tem pressa do mundo que abandono aqui...
Quem me quer pra me amar ou abater de vez,
desta vez arme o bote ligeiro e seguro
e me cobre com juros por lhe dar trabalho...
Pode ser que na próxima missão em mim
eu me cale no fim do começo de tudo;
fique lá na saudade que não sei de quê...

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

HUMILDADE ARROGANTE

Demétrio Sena, Magé - RJ.


Leio nas entrelinhas um ápice de arrogância, quando aquela criatura mais vaidosa do que um pavão enche o peito já inflado e diz que tem lá seus erros ou defeitos. Não entendo a admiração de todos diante de quem no fundo se declara um deus flagrado com raros traços de humanidade. Mas vejo a humildade que não vejo neste, naquele sujeito que um belo dia se alegra e diz: 'tenho cá minhas virtudes'. Este sim, se reconhece um ser humano, com todas as suas imperfeições, que de repente flagra bem lá no íntimo do seu ser, discretas qualidades. Por falar em defeitos e qualidades, concluo que nosso maior defeito reside numa irrefutável distorção de valores.

ZONA FRANCA

Demétrio Sena,  Magé  - RJ.

Que nenhum amor próprio deixe cegos
nossos olhos de olhar além de nós, 
nem os egos alcancem dimensões 
onde a  voz da razão não tenha vez...
Vamos dar uma pausa nos louvores 
aos espelhos que acendem nossos rostos, 
temos flores pra dar, não pra reter 
nos canteiros escuros do egoísmo...
Nosso amor se divida e multiplique 
os aromas, os gostos, os efeitos 
e não fique restrito ao mesmo espaço...
Amor próprio não seja propriedade 
onde o mundo não pode achar conforto, 
seja o porto, a zona franca do bem...

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

PICUINHA POÉTICA

Demétrio Sena, Magé - RJ.


Se converso com verso é porque vou além;
faço meu universo; mais versos; infindo;
propriamente universo de versos ao próprio;
é assim que vou indo - como se vai mesmo...
Tenho versos perversos, mas desde que versos,
controversos talvez, contra versos que são,
transformando razão em contexto emotivo
ou contexto emotivo em ciências exatas...
O meu verso malversa conservadorismos
marginais ou de arcádias, atados às barras
de seus vãos formalismos ou vãs marginálias...
Sou poeta transverso, atravesso combates
de cadeiras, escolas, liberdades presas
às defesas do quanto se forjam matrizes...

AFETOS PRÓPRIOS

Demétrio Sena, Magé - RJ.



Para crer ou não em alguém, com vistas a também gostar ou não, acumule critérios inteiramente seus. Observações essencialmente suas, ainda que depois de alertado por pessoas idôneas e queridas, cujos alertas por si só não são suficientes. 
Critérios alheios não lhe pertencem. Observações - e até vivências - dos outros podem estar eivadas de uma parcialidade compreensivelmente humana, que há de comprometer o bom senso, a lucidez e a justiça. 
Não escolha em quem apostar - ou investir -, fundamentado em afetos de afetos pessoais. Isso tem todas as possibilidades de ser injusto, preconceituoso e cruel.

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

SEJA BEM IDA

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Pergunte aos meus ex-amores que um dia resolveram partir, como foi fácil me dar adeus. Como lhes dei prontamente o sinal verde. Alforria imediata para o que não era escravidão.
Depois pergunte ao meu coração, se por acaso ele saiu pela boca. Também indague ao meu peito se lhe faltou ar; se a pulsação coronária o nocauteou. Você há de constatar, talvez com alívio, que não me rasguei todo em tiras e que a polícia, em todas essas dispensas, não teve o menor trabalho comigo. Nenhuma das algumas partidas de meus ex-amores terminou em prisão para mim, porque nunca tentei ser prisão de quem um dia me amou ou fez que o fizesse. Respeito amores e vontades. Verdades e mentiras. Não cobro juros por juras não cumpridas.
Se seu desejo é partir, não se avexe. Só preciso saber. Não posso responder ao adeus não dado, e quem quer partir não sou eu. Sendo assim, não imponha esse jogo de me cansar. De me fazer tomar uma decisão que é sua. Facilitar o que já é fácil, quando afinal, será exatamente como foi com os demais amores desistentes. Não se acanhe por me desamar e se desmentir de seus tantos “eu te amo”. Do seu automático “não vivo sem você”. Da sua mania de “você é tudo pra mim”, entre outras declarações que se tornaram clichês; carimbos compulsivos de seus lábios que já nem precisavam articular para reproduzir esses textos.
Conheço bem essa hora. Esse olhar. Essa distância, mesmo de perto. Esse mesmo silêncio. Tive outros amores que seriam pra sempre. Que até foram, mas o sempre se limitou. Ficou curto. Depois mais curto, até se tornar nunca mais, e sempre com o mesmo jogo no qual não entrei: o de forjar minha desistência; dizer adeus em meus lábios; acenar com a minha mão. Quando não teve outro jeito, a surpresa: foi tão fácil me dar adeus; fui tão compreensivo e liberal, que me acusaram de frio; que se revoltaram posteriormente com a facilidade, pois doeu na vaidade humana.
Vá em paz. Não é preciso jogar. Estendo meu tapete à sua partida. Seja bem ida e se avexe não... a porta pro mundo é a serventia... do meu coração.

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

S.O.S.


Demétrio Sena, Magé - RJ.

Quando grito,
imponho e dito
e digo até
que mato ou morro,
é tudo mito...
porque meu grito
esconde um grito
por socorro.

SEM CHANCE


Demétrio Sena, Magé - RJ.

É assim que te amo:
contrito, calado...
às escuras.
Sem entrada em teus olhos,
a te perder de vista...
e sem juras.

PROPRIEDADE

Demétrio Sena, Magé - RJ.

A paráfrase ou citação que acompanha um texto ou discurso deve ser uma ilustração despojada e livre do que já foi exposto a contento e com sucesso. Tente nunca utilizá-la como pronto socorro da insegurança e da ineficiência do que você diz ou escreve.

terça-feira, 28 de novembro de 2017

UM (DES)CONTO DE NATAL

Demétrio Sena, Magé – RJ.


O espírito de natal o assombra, desde o fim do mês de outubro; no máximo, início de novembro a cada ano. Tudo parece arrastar correntes no sótão de sua consciência dos rancores pessoais, na intenção de avisá-lo: Vem aí o natal; vem aí o fim do ano; e nessa leva, o sorriso de quem lhe faz caretas o ano inteiro. O abraço de quem deseja enforcá-lo. A mão boba que busca sua mão, quando quer mesmo comprimir sua jugular.
Discursos e mais discursos. Felicitações e convites. Virtudes à flor da pele dos outros, que lhe fazem ver o quanto ele é desgraçadamente humano, em contraste ou comparação com a divindade global. Para tais pessoas, o máximo que ele consegue é liberar o seu idem; seu também. Seu obrigado; igualmente. Aí o mundo à sua volta confirma, orgulhosamente, o que sempre diz a seu respeito. De sua intransigência, sua esturrice, o seu exagero e a triste ausência desse Deus Anual em sua vida... do poder natalino que lhe falta para perdoar quem a partir do dia dois de janeiro se mostrará novamente seu desafeto.
É claro que os desafetos não são maioria. E é claro que nem sempre se joga fora uma goiaba inteira por causa de uns três ou quatro bichinhos, mas isso é bem indigesto. E no caso da goiaba, existe a opção de cortar a fruta e jogar fora o pedaço bichado, como não se pode fazer com os grupos em ajuntamentos obrigatórios nas datas cristãs. Sendo assim, ele não vê como separar as pessoas a quem ama e pelas quais é amado – filhos, esposa, irmãos, algumas cunhadas e amigos queridos –, e determinar que o resto seja lançado em um “lago de fogo ardente”, para se entender com o diabo e seus anjos.
No fim das contas, mete a cara nas rabanadas – que adora –, come nozes e avelãs, beberica uns refrigerantes e tenta não expor demais os traços constrangedoramente sinceros... os dentes que mordem o sorriso amarelo à prova de sabão em pó. Aqueles olhos pontudos e cortantes que ele não consegue disfarçar, mesmo sabedor de que não precisa – nem deve, pelo menos no fim do ano –, ser transparente a tal ponto.
Mas tudo bem. Natal e ano novo são apenas uma vez por ano. Neste momento, sua preocupação antecipada é a de não magoar as pessoas queridas. Logo ele poderá ser livremente carinhoso e solícito com os seus afetos e fechado, indiferente ou duro com os desafetos, em suas devidas proporções. Até lá, terá mesmo de conviver com as assombrações formais do espírito de natal, no sótão da solidão de sua transparência.

domingo, 26 de novembro de 2017

MEU CÃO DO VIZINHO

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Ele olhava pra mim como quem me dissesse:
seja sempre o meu dono, meu dono não meu;
eu olhava pra ele pedindo perdão
por não ser todo seu, como sei que pedia...
Eram olhos trocados, de amigos ocultos
que sabiam que algo falhara no mundo;
era o fundo sensível do poço de sonhos
duma vida de cão que foi gente pra mim...
Fomos dois adotivos por força do acaso,
por um prazo tão curto que será pra sempre
na memória do afeto que ficou em mim...
Passarinho canino, voou pra não sei
que verdade possível reside além chão...
vá em paz; bom destino, meu cão do vizinho...

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

NO TRABALHO, NA FAMÍLIA E NO MUNDO

Demétrio Sena, Magé – RJ.

Garanta para si mesmo, a começar pelo próximo, aquele ambiente de trabalho capaz de proporcionar equilíbrio e tranquilidade. Facilite o que pode para quem traz resultados materiais, mas também facilite para quem não traz... quer somente um favor; uma gentileza. Simplifique os acessos e serviços, as informações, e não desconte frustrações nem revoltas nas horas erradas; nas pessoas erradas. Tenha boa vontade com quem não tem culpa.
Sem essa do estritamente profissional. Cabe sempre um toque de humanidade, mesmo que por uma razão somente sua não haja como expor os dentes. Um olhar suave, uma voz serena e um semblante ameno, ao mesmo tempo dispostos, substituem bem o sorriso. Fazem bem ao outro, que poderá ser um multiplicador desse bem, numa roda viva que o envolverá... tarde ou cedo, de alguma forma o envolverá.
Aos seus olhos não existam feio e bonito; rico e pobre; santo e profano; cara disso e daquilo. Se alguém há de comprar ou não, pagar ou receber, fazer orçamento, reclamar ou trocar, não importa. Trate-o como a pessoa importante que de fato é. Quanto aos colegas, nunca os prejudique para supostamente se dar bem. Não seja capaz de tudo pela promoção. As pessoas mais importantes numa empresa são aquelas que fora dela vivem realidades iguais à sua, com as devidas variações em cada camada social.
Patrões não gostam de funcionários bajuladores, antiéticos e servis. Eles usam esses funcionários quando lhes convém, quando precisam deles como delatores, porém os desprezam. Às vezes dão alguma promoção ilusória, mas nem de longe cogitam elevá-los muito, pois não querem ao seu lado pessoas dissimuladas; que farão com eles o que fazem com os atuais colegas de trabalho.

O verbo mágico é facilitar. Contribuir para uma sociedade melhor. Facilite sem cometer desvios éticos, de caráter, a fluência do que pode ser fluente. O acesso e o trânsito a quem precisa e tem direito. O andamento das atribuições de todos na empresa; na família; no clube; nas filas; na igreja... Faça o mundo girar com mais leveza. Torne a vida mais agradável. Gente não é gente, se não for gentil.

terça-feira, 21 de novembro de 2017

SOBERANA SOLIDÃO

Demétrio Sena, Magé - RJ.
Solidão enche a casa; o domicílio;
toma os ares de parede a parede;
desde a rede à cadeira de balanço,
desde os cílios à tela da tevê...
Reina sobre a pequena multidão
que se junta no sonho de vencê-la,
passa pela conversa coletiva
e se une à fumaça do churrasco...
Ela dança nas músicas batidas,
nas bebidas que rasgam as gargantas,
nas bravatas, nos risos e piadas...
Ninguém pode vencer a solidão
quando a casa em questão é só a casa;
domicílio; não propriamente lar...

VERSOS COR DE ROSA

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Tenho dedo certeiro pra feridas,
mesmo quando não sei seus endereços,
quando as vidas escondem os indícios
entre panos de calmas ilusórias...
Trago a sina de acertos no que dói,
sem saber como sei, só sei que sei,
de qual lei me revisto e sou tão duro
sob a capa sensível de poeta...
Meus poemas desossam existências, 
têm machados precisos e solenes,
consistência e projetos de tortura...
Sou a força macabra em tom de anjo,
pois esbanjo verdades carniceiras
embrulhadas em versos cor de rosa...

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

HORA AGÁ


Demétrio Sena, Magé - RJ.

Ela me aceitava surpreendentemente, sem nenhum preconceito nem reserva, como eu sempre lhe dizia que sou. Só não estava preparada para constatar que realmente sou como dizia.

PAIXÃO


Demétrio Sena, Magé - RJ.

Meu coração bate forte;
paixão é mesmo atrevida;
mas não reclamo da sorte,
pois apanhar é da vida.

SEM VOCÊS


Demétrio Sena, Magé - RJ.


Sem vocês me sinto fim. Uma espécie de folia sem reis que pede prendas aos grãos de areia do Saara. Uma planta desprovida de folhas, folha desidratada e fila imensa de absolutamente ninguém.
Eu, sem vocês, não passo de pátria sem nação. Caminho sem solo e reta sem ponto... corpo sem ossos. Até com alma, porém sem ossos. Copo desprovido de fundo, pelo qual resvalam conteúdos desperdiçados. Sinto-me ninguém, com sem, sem com. Grito que não soa, cabeça sem mula e lenda sem região. Mitologia sem Grécia. Templo sem igreja.
É assim que sou sem vocês. Um misto imenso de nadas. Isto sem aquilo. Conto de fada sem fada. Conta sem produto... simples assim: eu sem vocês não sou eu... ou sou eu sem mim.

domingo, 19 de novembro de 2017

POEMA & POESIA

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Tenho tanto a gritar, fazer protesto,
que me deixo esquecer do que faz bem,
do que vem escondido sob as farpas
ou no trem das verdades doloridas...
Trago tantos espinhos entalados,
tanta pedra nos rins das esperanças,
a tal ponto que as flores não importam;
meus estados não sentem seus perfumes...
E assim muitas vezes não decanto
todo encanto que a vida proporciona
e não cobra direitos autorais...
Elimino as crianças e os jardins
dos meus sins ao poema com poesia,
para ser um poeta de combate...

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

RESISTÊNCIA CULTURAL OU INVEJA?

Demétrio Sena, Magé – RJ. 

A resistência cultural nas periferias, por meio de movimentos e reações em forma de arte e literatura é algo de se admirar. Fala-se muito dessa resistência e do empoderamento do negro, do pobre, de forma especial do negro pobre, mas há uma enorme incoerência que se repete entre os menos favorecidos, os excluídos e as esquerdas: enquanto as chamadas elites e as direitas ocupam plenamente os seus espaços - e nunca os deixam - e ainda se permitem ocupar os espaços periféricos e de esquerda, em forma de compra ou patrocínio pervertido dos movimentos culturais dessas classes, os pobres de todas as etnias e as esquerdas políticas e sociais, quando alcançam realidades econômicas e culturais mais avantajadas logo debandam para o outro lado.
Explico: os moradores pobres das periferias, ao se formarem nos cursos superiores, sobretudo fazerem mestrados, doutorados, e alcançarem condições socioeconômicas avantajadas, têm como primeira providência se mudarem para bairros nobres das zonas mais ambicionadas de seus estados. No Rio de Janeiro, por exemplo, quase todos querem morar na zona sul, com todos os riscos que isso hoje representa. Desse modo, as cabeças mais pensantes, as pessoas mais indicadas para fortalecer os movimentos culturais de suas raízes enfraquecem as áreas carentes de seu conhecimento, suas novas condições sociais e o novo poder de contribuir efetivamente para o crescimento cultural e socioeconômico de sua gente. Vão engordar as elites; fazer parte do outro lado da sociedade; viver ao lado das classes dominantes. Tornar-se classe dominante. É como se as periferias já não merecessem essas pessoas. Como se elas, depois de progredirem socialmente, já não coubessem nos meios em que nasceram e foram criadas. Aqueles bairros pobres e de pessoas sem formação superior se tornaram pequenos para seus horizontes. Não querem criar seus eventuais filhos nos bairros pobres, ainda que não violentos, nem nas áreas próximas, porque os mesmos merecem ser elite. Ser iguais às pessoas das classes criticadas e combatidas quando eram inalcançáveis para suas realidades.
Tempos depois, essas pessoas voltam como visitantes, participam como convidadas ilustres de alguns eventos culturais das periferias e dizem que já foram moradoras de periferias; foram pobres; não tinham acesso a curso superior. Muitos faltam pouco dizer que já foram negros, mas... “graças a Deus”, agora são bem sucedidos e moram em lugar de gente bem sucedida. Em lugar de gente rica e culta. Dizer que venceu na vida não combina com dizer que continua morando em seu berço. Com isso, ao invés de contribuir para uma mudança de realidade socioeconômica da sua antes querida periferia, o ex-pobre, ex-morador de comunidade, quiçá ex-negro, prefere fazer o que é mais fácil: morar; levar eventuais esposa e filhos para lugares já resolvidos, onde nunca participarão da realidade que ele conhece de perto e será muito trabalhoso ajudar a mudar. 
Ocorre o mesmo com as esquerdas politicopartidárias, que em princípio defendem as classes menos favorecidas; os moradores de periferias; pobres; negros; negros pobres. São esquerdas, com todas as dificuldades de ser esquerda, enquanto a direita não acena com possibilidades irresistíveis de compor e abocanhar as vantagens de ser da direita. As direitas, com todas as práticas claramente perniciosas, têm o corporativismo consistente que se desmantela com facilidade na esquerda, ao primeiro sinal de patrocínio relevante; de composição vantajosa. O PMDB jamais chegaria ao poder máximo do país levando o PT na sua cola. Já o PT, para conseguir chegar lá, não titubeou em levar o PMDB, que por sua vez, não demorou a desferir seu golpe, assumindo a presidência da república. Com isso, a esquerda se dissolveu; praticamente deixou de existir; a direita está mais unida e forte do que sempre, e disposta a nunca mais deixar que tomem sua vaga. 
É preciso que os moradores das periferias, ao concluírem seus cursos superiores, alcançarem ascensão e acesso a uma vida melhor, ao invés de abandonarem suas raízes e seu povo, permaneçam nas periferias e ajudem o seu povo a crescer também. A se livrar dos aguilhões. A vencer a opressão local, imposta pelos exploradores locais e os que vêm de lá, das zonas nobres, com os seus patrocínios que compram os movimentos culturais e os amoldam ao seu jeito. Zonas nobres que, infelizmente, são fortalecidas pelos que saem de nosso meio e vão compô-las, cansados e, finalmente, livres da luta cotidiana contra as diferenças sociais. Felizes porque, seus descendentes já não pertencerão à classe dominada; serão também dominadores.
Lutemos para sermos quem somos de formas dignas; confortáveis; relevantes... não para mudarmos de lado. Que a nossa indignação seja eivada do desejo de vencer coletivamente. Um desejo e uma resistência de todos, para que a nossa classe, o nosso povo, nossa região sejam fortes. Enquanto fugirmos, tão logo tenhamos condição econômica, tudo o que faremos será uma apologia ao que é criticado e combatido por nós. Deixarmos os nossos, as nossas raízes ao progredirmos neste contexto, é assumirmos que a nossa indignação não era solidária; era só uma questão de inveja do outro lado.

terça-feira, 14 de novembro de 2017

PEDIDO AOS MEUS VERSOS


Demétrio Sena, Magé - RJ.

Se os meus poemas puderem,
não tiverem compromisso
com alguns plagiadores;
algumas cartas de amor;
um editor satisfeito
sem ter direito a pagar...
Ou se não for triste caso
de já cansados de si,
de mim, do meu coração
e da minha compulsão
de compô-los toda hora,
pularem fora das pautas...
Não custa nada os meus versos,
os meus poemas de tudo,
perversos, de amor, de vida,
sinceros, sonsos e tristes,
alegres, duros, sensíveis,
fazerem este favor...
Se os meus poemas puderem,
quiserem, lhes der vontade,
já peço desde o momento,
que me abandonem à sorte
segundos depois da morte,
mas vão ao sepultamento...

SABOR DE SABER


Demétrio Sena, Magé – RJ. 


Educar não precisa ser solene
feito missas rezadas em latim,
fim do mundo esperado em contrição
por cordeiros em filas indianas...
Estudar é pra vida; não pra morte;
para um mundo melhor; não pra batalhas;
pra ter norte, não pra ter labirinto;
pra vencer desafios; não pessoas...
Uma escola não tem que ser um templo,
um exemplo não tem que ser severo
nem o mundo precisa ser cruel...
Pode ser meio circo, meio pão,
ilusão que seduz a realidade
de quem sabe achar sabor no saber...

sábado, 4 de novembro de 2017

JOGO DA VERDADE

Demétrio Sena, Magé - RJ.


Ser quem sou custa caro; dou meu jeito
para não pendurar as minhas contas;
não expor um defeito em mil parcelas
nem dever o favor de algum afeto...
Quem não quer, não me queira mesmo assim,
nesta minha versão mal acabada;
neste copo de gim entregue ao léu;
nas camadas do quanto me disponho...
Seja lá como for, só sou quem sou,
numa justa e seleta pronta entrega
que não pede fiado para ser...
Pago à vista, me dano mundo afora,
pois viver é meu jogo da verdade;
meu agora não deixo pra depois...

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

APELO AFETIVO PUBLICITÁRIO


Demétrio Sena, Magé - RJ.


Sou grato a todos os que me veem - e tratam - como ser humano sempre aberto aos contextos de afeto e desprendimento, dentro de minhas possibilidades. Mas quero pedir que também aprendam a ler meus códigos de barra e me respeitar quando sou produto e demanda, mesmo que o meu afeto não consiga exigir. Há momentos em que tratar o ser humano estrategicamente como ser humano pode se tornar uma enorme desumanidade.

SONETO SURTO

Demétrio Sena, Magé - RJ.



És meu lado perverso, escuridão,
minha parte sinistra e venenosa,
distorcida, manchada e sem perdão;
lado espinho mortal de minha rosa...



Quem azeda o poema, faz a prosa
se perder nos umbrais do coração,
quando sou natureza perigosa
numa fuga da própria perdição...



Mas meu lado melhor tem mais espaço;
não estás na magia do compasso
que me rege no tempo habitual...



Minha vida prossegue, traço planos,
em meu lado melhor morreste há anos;
és apenas um surto pontual...

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

DOCE VIDA


SIMPLES


Demétrio Sena, Magé - RJ.

Quase tudo é difícil, mas é burrice dificultar o que pode ser fácil.

VEGETAIS


Demétrio Sena, Magé - RJ.

O que falta pra muitos é sentir a falta
do que mora num sonho e não foi conquistado,
é estado concreto do que sempre foi
abstrato, platônico, fora de alcance...
Um amor, algum bem, uma graça pendente;
o que falta pra gente, caso tenha tudo,
será sempre uma falta que não é sentida,
ressentida no vácuo desse velho nunca...
Precisamos não ter, pra que o ter satisfaça,
o completo está cheio de vazio insano
como dano de nunca ter sentido a dor...
Sofrimento final é de quem não sofreu;
há um eu que se fere de não ter ferida,
quando a vida nos cria no jardim do Éden...

terça-feira, 24 de outubro de 2017

SOBRE OS OLHOS DA CARA

Demétrio Sena, Magé - RJ.

A sociedade gosta - ou não gosta - imediatamente, do que olha, pois olhar é fácil; superficial; externo. Olhar é físico. Para que ela veja um indivíduo do qual não gostou com os olhos e mude sua concepção, existe um longo trajeto a ser percorrido. Isso leva tempo. Há que se ter muita, mas muita bagagem mesmo, para compensar diariamente a falta de atributos físicos, de sofisticação indumentária, posses notórias e/ou qualquer outro rótulo satisfatoriamente comercial.
Curioso, entretanto, é que os portadores de toda essa parafernália natural ou não, física e notória, jamais precisarão provar algo. Eles podem ser fúteis, de mau caráter, presunçosos, reacionários, inflacionários e, alguma vezes, até criminosos. Tudo bem. Basta serem viáveis física, social e muitas vezes religiosamente, pois a religião, desde que não tenha indícios de africanidade, valoriza mais ainda o que a sociedade olha, gosta e dispensa ver.
Ainda mais curioso é que muitas vezes, pessoas que sofrem por longo tempo para vencer preconceitos e serem vistas pela sociedade que os olhou inicialmente sem gostar, passam a ter os mesmos preconceitos por seus iguais. Aprendem a olhar sem ver. Passam a vida revalidando seus valores para manter o status, e não aprendem que ver não é dos olhos da cara. É da sensibilidade ou intuição apurada e livre de preconceitos, que dispensa o sentido da visão.

PREVENIDO


Demétrio Sena, Magé - RJ.

Tijolo tem medo;
saiu da calçada
e foi pro acostamento...
Eu sei o segredo;
areia lavada
tem marido cimento.

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

PRA VIVER


Demétrio Sena, Magé - RJ.

Só preciso me achar no silêncio da hora
que se tranque no tempo duma vida inteira,
jogue fora meus lixos existenciais
num abismo sem beira que sugira volta...
Quero muito encontrar um momento mais meu
do que todas as posses que já tive um dia;
uma hora tardia que me recomponha
e conduza meus passos em um recaminho...
Sei do quanto me devo em verdades bem minhas,
peço ao tempo agiota e não importam juros
nem as novas espinhas na cara do eu...
Nascerei outra vez e será pra viver
sem calar tanto sonho e temer os mergulhos
em riachos escuros rumo ao que será...

ANTI-COBAIA

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Minhas modas se aplicam às minhas vontades,
tenho cá meus critérios que ninguém amolda,
porque olho nos olhos das plenas verdades
que ao acaso quebradas o tempo não solda...

Minha moda maior é não estar na moda,
só entendo ser livre como não ter grades,
crio asa no vento e no chão ganho roda,
pra fugir das estampas e publicidades...

Nunca tive carimbo nem preço de capa,
dou a cara pro mundo ensaiar o seu tapa
e jamais conseguir consumar esse ato...

Sou de corpo gasoso para quem me caça,
pois me quer no seu banco de réu ou de praça,
seja lá como for, para servir de rato...

MEDO DO SEM FIM

Demétrio Sena, Magé - RJ.


Vida cansa e começo a pressentir
a tristeza, o ranger do não chegar,
só seguir e saber que não há porto
nem um ponto em que pouse os olhos baços...
Uma vida sem fim seria o fim
rastejado; insistente; sem sentido;
um pedido inaudível por socorro,
de quem sabe que o tempo já parou...
Tudo cansa e se perde sob o nada,
minha estrada revela o que seria
caminhar à deriva para sempre...
Horizonte; horizonte; nada mais;
não há paz na ilusão da eternidade;
comecei a temer que jamais morra...

sábado, 21 de outubro de 2017

AS MÍDIAS, OS INTERESSES PESSOAIS E A HIPOCRISIA RELIGIOSA

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Chegou ao fim, uma novela que me fez entrar em sua história. Uma trama que encontrou as mais diferentes formas de alcançar os corações e as mentes dos brasileiros. Tanto os que assistiram quanto os que não; porque afinal, os que não assistiram fizeram exatamente como aquelas pessoas que não tomam bebidas alcoólicas, porém, cheiram as rolhas. Colhem as rebarbas. Tentam saber por meio de terceiros, ou em última instância, dão audiência escondidos.
Não tenho como não aplaudir uma obra; seja novela, filme, peça teatral, dança, livro, arte plástica (...), exibida por qualquer veículo... seja ele a Rede Globo ou a Band News; a CBN ou a Rádio Tupi; qualquer site, revista ou tela de cinema, se ela propõe um conjunto de reflexões de suma importância para o mundo contemporâneo, de formas tão delicadas, ao mesmo tempo cruas, porém dotadas de responsabilidade social. Conexão com as verdades que nem sempre queremos, mas precisamos encarar.
Vi a novela do início ao fim, com os mesmos olhos que tenho sobre qualquer obra de arte: olhos atentos às mensagens; às entrelinhas; às particularidades que me dizem respeito, e a toda a sociedade, na vida real. Olhos também atentos ao desempenho dos atores; à sensibilidade com que todos incorporam suas personagens e vivem suas histórias como heróis, bandidos, intermediários e figurantes.
É claro que a arte, a exemplo de tudo, tem seus contextos positivos e negativos; perniciosos e sãos. O que posso dizer aos que temem novelas e determinadas emissoras porque seus líderes espirituais ou politicopartidários mandam temer, é que o princípio da cidadania mora na liberdade. Liberdade para vermos, lermos e assistirmos o que achamos de bom tom, com a certeza de separarmos o que é bom e mau para nossas vidas a curto, médio e longo prazo.
Gostar ou não de algo é um direito de todos. Ninguém é obrigado, por exemplo, a ser noveleiro porque sou. Nem deixar de ser porque o padre, o pastor, o pai de santo nem o grão-mestre ou guru não gosta... ou desaprova. Seus próprios olhos e critérios são os mais recomendáveis para você avaliar o que é de bom e mau agouro, didático, antididático, belo, terrível...
Foi com essa liberdade pessoal, esses olhos e critérios que pude absorver o que há de melhor em uma trama. Desarmado, consegui entender que a história trouxe para dentro de minha casa o que meus preconceitos às vezes não querem ver. Arrombou meu sossego e acomodação social, me fazendo refletir sobre a importância de aceitar que o próximo não é só o igual. É também o diferente. Próximo é perto. Ao alcance de nossos olhos, nossas mãos e nosso amor... ou pelo menos nossa tolerância.
Não, não e não. As novelas não influenciam a sociedade. As realidades sociais influenciam as novelas, que as devolvem à sociedade física embrulhadas em arte, literatura e espelho, para decidirmos o que representa em nós. Nem há pregação. Nenhum autor manda cometer crime ou delito, mudar de gênero nem se converter a outra orientação. O que nossos filhos sabem é pelas próprias observações. O que eles são, enrustidos ou às claras, já são mesmo. E o que aprendem, mesmo em nossa companhia, o fazem nas ruas e na vizinhança; nas convivências inevitáveis na escola. E como se não bastasse, ainda aprendem com nossas rabugices religiosas, sociais e políticas, lições incontestes de pura hipocrisia.
Vi uma trama combater, com histórias espelhadas em experiências de vidas reais, o preconceito de gênero; o racismo; o ódio religioso; a negação do vício; a injustiça política e social. Também vi essa trama trazer à luz os caminhos que levam ao crime, para depois mostrar as consequências. Li nos contextos da referida, o discurso verdadeiro de que nos vemos diante de uma nova sociedade, e não nos resta senão optar entre o amor e o ódio, pelas diferenças. E é claro, além de muitas outras realidades, um pouco de poesia.
Enfim, vi com o meu discernimento e minha liberdade, na novela que todos viram com seus olhos ou os olhos alheios, uma mensagem múltipla de amor. Um amor que se distorce na hipocrisia religiosa e na intenção eleitoreira dos candidatos a cargos públicos, quando contradizem suas pregações pretensamente alicerçadas no livro que usam para suas conveniências pessoais.
Este pagão ou não religioso alicerça o seu manifesto utilizando exatamente o livro no qual não crê como guia divino de sua conduta ou caminho para salvação da alma, mas no qual descobre, sempre que o relê, máximas ou ensinamentos preciosos. A bíblia confronta e desmente seus pregadores, onde fala de amor ao próximo; primeiro, porque o próximo é qualquer pessoa de algum modo alcançável. Segundo, porque diz que se deve fazer o bem sem olhar a quem. Terceiro, porque fala do amor de Deus como um amor incondicional. E quem não ama incondicionalmente, fere natureza e o princípio do amor desse provável Deus.
Por fim, a bíblia também desmente seus pregadores, onde afirma que Deus deu ao homem o livre arbítrio. O que os religiosos mais têm feito, com linchamentos verbais e físicos, às vezes letais, é se mostrar superior ao possível Deus, querendo arrancar à força esse livre arbítrio do semelhante. Se a tal bíblia fala em inferno após a morte, porque será que seus seguidores querem condenar o próximo ao inferno – da exclusão, do julgamento e a condenação contínua – mesmo antes da morte?
Conhecer o mundo além das paredes dos templos, das palavras dos líderes, das páginas da bíblia, das dicas da web, das mensagens carolas de redes sociais, da hipocrisia política e familiar e até das mídias fixas e recomendadas, é sair da ignorância. Vencer a limitação. Ter bagagem para refletir por conta própria. Possíveis céu e inferno são o futuro. Não Continuemos ignorantes do agora.