quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Entre a dor e o afeto

Demétrio Sena - Magé 

A Cláudia e sua filha Thati, acompanhante; poucos dias depois, no mesmo leito, a Dona Nicea, de 84 anos, e a sua filha Fernanda, também acompanhante. Em outra baia, dona Valéria, que chegou sozinha, passando muito mal, mas no dia seguinte circulava por toda a enfermaria e logo se tornou amiga de todos - ou quase todos - os pacientes.

Todas essas pessoas, pacientes e acompanhantes, marcaram positivamente os dias duros e difíceis de minha esposa, internada à espera de um cateterismo. No "mesmo barco", foram apoio, exemplos, emprestaram seus ombros e ajudaram nos picos de ansiedade. Depois dos profissionais de saúde, o que essas mulheres - até a dona Nicea, com sua serenidade octogenária - representaram para a Eliana foi determinante no seu processo de espera e melhora.

Para Minha filha Nathalia, que revezava comigo os dias e as noites de acompanhantes, e também para mim, tudo resultou novos laços de afeto. Fizemos boas e relevantes amizades. Laços que representam o que há de melhor no ser humano, porque surgiram de momentos profundos. Da solidariedade, da empatia e do sofrimento em comum.

terça-feira, 25 de agosto de 2026

Coisas do coração

Demétrio Sena - Magé 


Enfarto. Causa muito vezeira de internações em emergências. O Fernando chegou mal. Uma correria de maqueiros e familiares, naturalmente ansiosos pela condição do paciente. Todo mundo entrou junto, completamente fora do protocolo. Estávamos no Hospital Santa Tereza. Minha esposa tinha entrado para um cateterismo e fui eu quem viu essa correria.

Minutos depois de o paciente ser levado, os familiares voltam. Todos com semblantes alarmados, falando alto, e seguem para uma pequena sala, na qual eu também ficaria esperando por notícias do procedimento de minha esposa. Lá dentro eu soube que não estava entre os familiares do Fernando, uma pessoa em especial, e por uma razão também muito especial. 

Uma das duas irmãs do paciente não o acompanhou, porque ele sofreu o enfarto em uma discussão acirrada com ela. Por um momento infeliz, Entrou na unidade hospitalar um coração enfartado. Ficou em algum canto, um coração espremido, em razão do desfecho de uma discussão que fugiu ao controle. Espero que ambos fiquem bem. E que façam as pazes, quando isso passar.

sábado, 22 de agosto de 2026

Dívida imensa

Demétrio Sena - Magé 

De todas as razões que tenho para ser grato a pessoas raras e bem específicas, a maior delas é a confiança depositada em mim. Não é fácil para ninguém, numa sociedade padronizada, confiar em quem foge aos padrões. Quem não arrota discursos conservadores nem tem práticas religiosas. É despojado, exposto, ateu, anti-preconceitos. Mas que apesar de todos os defeitos, as manias e até as esquisitices, é  incapaz de fazer mal... de arquitetar tramas para causar dano ao próximo e obter vantagens indevidas... vantagens pelas quais alguém eventualmente amargue alguma desvantagem em qualquer escala.

Quando preciso que façam algo por mim, e tantas vezes preciso, minha gratidão é imensa. Nunca sou ingrato (esta é uma de minhas raras virtudes). Mas até nos momentos difíceis, em que sou ajudado a passar por eles, pelo que mais agradeço a quem me ajuda é a confiança que faz esse alguém se solidarizar com uma pessoa tão complexa ou atípica em relação à ordem natural das coisas... ao comportamento natural das pessoas... ao que foi desenhado para uma civilização criminosa e que, por isso mesmo, carece de tantas regras, rótulos e "letras miúdas" ou propagandas externas enganosas.

Obrigado a seja lá quem for, com quem eu não precise temer pelo meu eu. De quem eu não precise me ocultar como quem sou. Que me veja mais profundo ao me olhar. Ninguém pode contar com todo mundo, neste aspecto. Para ser exato, com quase ninguém. Ter essa sorte, reconheço que não tem a ver com mérito pessoal. Por isso mesmo, significa uma dívida imensa de gratidão.
...   ...   ...

Respeite autorias. É lei

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

O eco sistêmico da má fé

Demétrio Sena - Magé 

Estou sem ânimo para falar de questões políticas, por estes dias. Mas caramba... que esforço coletivo é esse, das grandes mídias, unidas aos partidos políticos da extrema direita e aos empresários que mandam neles (tanto mas mídias quanto nos políticos), para demonizar o presidente Lula? Tudo isso, por causa do Lulinha, bola da vez, com todos os estardalhaços nunca feitos em cima dos filhos do verdadeiro d&mônio, que praticam corrupção em cima de corrupção, aos olhos de todos.

Em nenhum momento alguém arrancará de mim qualquer afirmação de que o Lulinha não deveria ser investigado. Tem que ser. E se for culpado, que pague pelos eventuais crimes. Mas essa massificação sobre ele ser filho do Lula, e os truques que foram usados até agora, com evidentes intenções eleitorais adversas, me fazem concluir que tudo está sendo usado como forma de propaganda eleitoral a favor do d&mônio junior, filho do d&mônio-mor, que está devidamente preso. 

Um dos truques foi guardar a investigação, que poderia ter tido início em janeiro, mas começou agora, no início das campanhas. Outro, neste caso, o das mídias, é acelerar as outras matérias para ir e voltar, com excesso de holofote, ao caso do filho do Lula. Do Lulinha filho do Lula, como se não houvesse nenhuma outra notícia de verdadeiro impacto nacional para veicular.

Até as guerras que mexem com o planeta, matérias normalmente preferidas dos noticiários, ficaram espremidas pelo caso Lulinha, "FILHO DO LULA! FILHO DO LULA! FILHO DO LULA!", como se fosse algo de repercussão internacional. A campanha pela presidência do Brasil começou. Lula contra os adversários políticos, um ministro comprado, do STF, as mídias, os empresários gananciosos e manipuladores... e os patriotas pobres, ferrados e massas de manobra de todo esse sistema.

...   ...   ...

Respeite autorias. É lei

quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Abandono

Demétrio Sena - Magé 

Assustada e frágil, chegou sozinha ao Pronto-socorro. Gemia, por uma dor imensa nos rins. De meia idade, o rosto emanava uma dor além da carne. Só levava os panos do corpo. Nem uma bolsa. Nem uma roupa extra. Muito menos um cobertor, lençol, produtos para higiene pessoal.

Na enfermaria, conseguiu poucos panos para o seu leito. Acho que outra paciente lhe deu um casaco, pois ela usava somente uma camiseta fina, e aquela noite não estava fácil. Chegara especialmente fria. Sonolento, acompanhei o drama sem atinar que não era um sonho. Cochilava em minha cadeira, de onde zelo por minha esposa, que há dias é também uma paciente. 

Na manhã seguinte, a senhora estava um pouco melhor. Pude ouvir do nosso canto, sua conversa com um dos enfermeiros. Ao ser indagada sobre por que chegara sozinha, ela disse que não. Não chegara sozinha. Impaciente, o marido a levou de carro até a porta da unidade de saúde, abriu a porta do veículo e disse: Agora é com você; fiz muito lhe trazendo até aqui.

Com um sorriso pálido (e ponha pálido nisso), antes que o enfermeiro verbalizasse a sua indignação, ela justificou, cabisbaixa:

- Mas também, coitado; eu dou muito trabalho a ele; só vivo passando mal.

...   ...   ...

Respeite autorias. É lei

domingo, 16 de agosto de 2026

Ferida


 

A inquietação das regras

Demétrio Sena - Magé 

Quando opino negativamente sobre a natureza de um grupo social ou corporativo, em minha literatura, o que é um direito meu, se não ofender com xingamentos e acusações específicas sem provas, eu sei perfeitamente que as exceções existem. Mas não tenho que prejudicar a estética de minha escrita, com aquela repetição de "reservadas as exceções", a cada texto que publique. Quando a faixa positiva de um grupo é exceção, cabe perfeitamente generalizar.

Publiquei uma frase no meu espaço de fala em rede social, que diz: A "fornada" contemporânea de cristãos parece mesmo saber tudo de divindade... só não sabe nada de humanidade". Imediatamente a regra reagiu, dizendo que não posso generalizar, pois nem todos são assim. Mas posso. Não dizemos todos os dias, que a humanidade está decadente? Que o ser humano é perverso, egoísta? Pois então; o ser humano é assim. Há pessoas que não são, mas o ser humano, como um todo, é. Não é necessário repetir que "o ser humano, salvo exceções, é decadente, perverso, egoísta".

Se a tal "fornada" entendesse de humanidade, e fosse humana, da mesma forma eu generalizaria, com elogio, pois a existência de alguns cristãos maus não a tornaria má, como um todo. Generalizar é opinar sobre o todo, mesmo havendo exceções. Na verdade, qual é o papel das boas exceções, em regras das quais podem se livrar e não o fazem? Será que são exceções ou eternos estagiários da regra? Este texto é sobre uma "fornada". Talvez você você seja de outra.

Uma verdade é irrefutável: quem inevitavelmente reage à generalização é a regra. A exceção (em meio à regra da qual não há fuga, por ser espaço inevitável de convivência), está sempre tranquila sobre si mesma. Tem a consciência em paz.
...   ...   ...

Respeite autorias. É lei

terça-feira, 11 de agosto de 2026

Nem tudo é sobre nós

Demétrio Sena - Magé 


É inadequado e anti-ético alguém aparecer em um casamento vestido em trajes mais deslumbrantes do que os dos nubentes. Especialmente os da noiva. "É contra a lei ou alguma norma?", não. Apenas fere a ética e o bom senso. Apenas isso tudo.
Da mesma forma, é inconcebível você ir ao hospital visitar uma pessoa doente e, chegando lá, inverter os papéis: você passa mal, treme, se descontrola e alguém, às vezes o próprio paciente, vai em busca de quem o socorra.
Ninguém tem o direito de chegar a um velório ou sepultamento e se esmerar em parecer que sofre mais do que pai, mãe, filho/filha, irmãos ou cônjuge. Ninguém sofre mais do que a família, que talvez esteja controlada em razão das providências que precisa tomar, inclusive para receber você. Se algum familiar se mobiliza para socorrê-lo(a), tem algo errado aí.
Quem abre um show não se apresenta mais do que a estrela desse show. A decepção de quem não passa em um concurso público não é maior para outra pessoa do que para quem não passou. Quem introduz um palestrante é anti-ético, se ele introduzir uma "pré-palestra" com ingredientes propositais para causar maior impacto.
O que é sobre o outro não deve ser transposto para nós. Aliás, muita coisa na vida é sobre o outro. E sobre nós, a partir do outro. A dor ou alegria de alguém pode nos atingir, mas atinge muito mais o detentor do sentimento ou da sensação. 
...   ...   ...

Respeite autorias. É lei