quinta-feira, 19 de março de 2026

Cidadão Inteiro

Demétrio Sena - Magé 

Dificilmente um texto meu será isento. Ou não será político, mesmo quando romântico; mesmo quando intimista ou sobre belezas naturais. Empresto a todo o meu fazer, minha natureza de cidadão crítico; minhas características de preocupação coletiva; de ativismo cidadão; protesto e denúncia de quem não sabe nem se dispõe a dissociar literatura e artes do movimento contínuo de consciência social. Até nas temáticas de paixão e sexo respiro e assino minhas inquietações relacionadas ao mundo e à sociedade, cá num cantinho de minh'alma. Os olhos e os corações atentos; as mentes abertas e as almas livres podem perceber isso, até pelo simples fato de quem as escreve. 

Ninguém jamais me convide a estar em um ambiente ou a participar, ser membro de seja lá o que for, que me apresente proibições relacionadas a expressar o que penso, o que sinto e observo da vida para transformar em arte literária ou visual - fotógrafo que também sou. Sou e serei sempre ético, responsável, civilizado e humano em tudo que faço. Mas em tudo que faço, jamais deixarei de ser um cidadão esquerdista inconformado com injustiças; com políticas repressoras; ditadura; truculência policial; machismo; racismo; perseguição religiosa. Covardias de grupos majoritários contra minorias. Não tenho como deixar de ser este cidadão ativista preocupado com os seus iguais.

...   ...   ...

Respeite autorias. É lei

quarta-feira, 18 de março de 2026

Sobre O Agente Secreto e a Ignorância Popular

Demétrio Sena - Magé 

Não tenho necessidade alguma (nem interesse) de fazer uma defesa ou acusação ao excelente filme o Agente Secreto nem ao ator Wagner Moura. Mas não consigo nem tento entender a qual derrota se referem os bolsonaristas que festejam porque ator e filme não ganharam o prêmio para o qual foram indicados. Como assim? Foram mais de 70 prêmios ao redor do mundo, inclusive o ambicionado Globo de Ouro, que muitos bolsonaristas (só podiam ser) pensam que é um troféu da nossa Rede Globo.

O Agente Secreto (que amei assistir) levou milhões de pessoas aos cinemas do mundo inteiro. Deu milhares de empregos diretos e indiretos, gerou Milhões de Reais em impostos e representou o país no exterior, de forma relevante. Com arte; com pensamento crítico; denúncia; reflexão relevante. Além dos prêmios recebidos até o tapete vermelho em Hollywood, ainda veio o troféu das quatro indicações ao Oscar. Quatro! Desde quando receber quatro indicações ao Oscar é derrota? Para qualquer país, levando a estatueta ou não, o selo de indicado ao Oscar é para sempre. Estampa todos os cartazes do filme.

E a bizarrice da direita, especialmente os lamentáveis bolsonaristas, é que eles festejam a vitória do filme Valor Sentimental, que superou O Agente Secreto, sem perceberem nem o óbvio: Valor Sentimental trata do racismo (e o bolsonarismo é racista). Critica vários preconceitos próprios da direita e desmoraliza a sociedade conservadora da época. É um filme que fomenta o pensamento crítico/social. Defende um mundo oposto ao que a direita, especialmente a extrema direita, prega.

Mas vá entender bolsonaristas. Nem eles entendem a si próprios. 

...   ...   ...

Respeite autorias. É lei

terça-feira, 17 de março de 2026

Heroica Resistência

Demétrio Sena - Magé 

Algumas vezes não luto. Cedo e me acomodo bravamente. Foi o que fiz há mais de vinte anos, com a implosão do meu organismo, em razão da ausência do sistema linfatico, ao ser conduzido a um hospital, quase na certeza de morrer: tinha desenvolvido uma septicemia. Septicemia é quase sentença de morte. Lembro-me do meu coma semiconsciente, quando só eu sabia que estava semiconsciente: não orei, não recorri a nenhuma fé, não pensei nas pregações religiosas que sempre ouvi, e sequer passou pela minha cabeça qualquer temor do suposto inferno, profano que sou. Só me deixei. A minha condição de saúde lutando contra mim, sem ter a menor das resistências, de minha parte.

Dias após, ocorre o que chamariam de milagre, se eu fosse um "homem de Deus", ou de "Deus, pátria e família", e minha família tivesse reunido "oradores" ao meu redor. Naqueles anos, ainda era permitido que grupos religiosos fossem aos hospitais oprimir doentes, ameaçar com o inferno, caso morressem "sem salvação". Abusar da fragilidade e da "paciência" do paciente, para impor-lhe uma fé cristã. Cruzadas hospitalares do medo e das "ameaças santas".

 Depois de muito não lutar e assim mesmo voltar para casa, percebi que os medicamentos tratavam minha patologia, mas me deixavam inerte, sem força e ânimo. Mais uma vez resolvi deixar estar e abrir mão dos medicamentos, mesmo crendo na ciência e na medicina, porque afinal, não sou bolsonarista. Só tomei a decisão de arriscar viver menos, com mais qualidade de vida. Não "preguei" minha decisão que parecia negacionismo. Só fiz uma escolha perigosa, em situação única; muito pessoal. Sem influenciar um possivel coletivo com teorias maciças da conspiração.

Como a perna esquerda parecesse representar perigo a todo o organismo, logo veio a tentativa do médico, de cortá-la, porque com ela, eu morreria em seis meses. Tudo havia implodido entre ela e a virilha, onde ainda está minha bomba-relógio. Demorada bomba-relógio, que não decide o que fazer. Como estava consciente, não permiti. O médico não mentiu; apenas calculou mal: por pouco a minha "brava desistência" não "me levou", mas algo se acomodou dentro de mim, tanto quanto eu. Ainda estou vivo. "Ainda estou aqui". Caminho longas distâncias, pedalo e ainda faço uma ginástica mequetréfi diária, não por músculos (realmente não os tenho), mas por manutenção.

Vivo como se a vida fosse companheira fiel; não a coisa traiçoeira que me deixa solto em um labirinto. E nesta vida, faço tudo sem disputa: sou um escritor que não busca fama e troféus; trabalhador que não deseja ser destaque; cidadão que já rejeitou comenda municipal (título de cidadania), porque nada disso me completa. Só me completa o fazer. A chance de levar meus feitos aos olhos de quem aprecia. Quem aprecia de verdade; não finge uma vez a cada quatro anos. Ombradas e rasteiras? Exclusões? Enfrento muitas e nada faço; sigo meu caminho, bravamente acomodado com o que sou, quem sou, e com o que acredito. Minha fé é na vida e nos seres humanos que restam da maioria. Tem muita gente boa no mundo.

Perfeito? Longe de ser perfeito.Tenho fama de mau, esquisitices que ninguém intui, como acho inteiramente normais, práticas que o moralismo abomina. Mas tudo isso de mim para mim mesmo. Zero maldade contra o próximo. Zero trama para "me dar bem" às custas do outro. Zero preconceito, zero separarismo, vingança e qualquer farsa para me mostrar melhor do que sou. Se você não acredita, zero preocupação. Desisto heroicamente. De você. 

...   ...   ...

Respeite autorias. É lei

sexta-feira, 13 de março de 2026

Feminicídio

Demétrio Sena - Magé 

A maioria da população ainda não entendeu o que é feminicídio. Não é o assassinato de uma mulher, por si só. É o assassinato da mulher em razão de ela ser mulher. Explico: quando o homem, julgando que uma mulher não agiu como ele acha que ela deve, em razão do gênero. O machista acha que a mulher deve ser obediente; submissa; cordata; "comportada"; "santa" (segundo os padrões do machismo).

Para todo machão, "mulher sua" fica em silêncio, enquanto ele grita. Para ele, "mulher sua" não o deixa, e quando é ele que a deixa, ela não pode conhecer ninguém. O machão ("boy" ou "mature" lixo) acha que se uma mulher não quiser transar com ele, deve pagar por isso. Feminicídio, então, é a mulher ser assassinada porque não correspondeu às expectativas do homem, como tal. Primeiro surgem as intimidações, logo depois as agressões verbais, em seguida físicas, até que a mulher acabe morta porque, no fim das contas, não se rendeu por completo ao machão.

Assassinato é crime hediondo. Muitos questionam feminicídio, se já existia homicídio para classificar qualquer assassinato. Explico de novo: feminicício é o assassinato da mulher que, antes de assassinada, foi impedida de ser alguém. Se você não acha mais grave ainda, devo classificá-lo como um "boy" ou "mature" lixo da pior espécie (machistas amam estrangeirismos importados da América do Norte).

...   ...   ...

Respeite autorias. É lei

terça-feira, 3 de março de 2026

Dos Meus Olhos Pros Seus

 

Demétrio Sena - Magé

Fotografar uma palha, um parafuso, um nó na madeira e uma gaveta velha, por exemplo, justifica um tratamento para que a palha, o parafuso, o nó e a gaveta ganhem contornos de arte além da fotografia, que já é uma arte. Refiro-me às edições manuais que acentuam, clareiam, escurecem e intensificam, sem descaracterizar o objeto ou o cenário. Sem distorcer ou subtrair em nada, sua originalidade.

Nada de inteligência artificial, porque inteligência artificial é simplesmente um plágio multi-fragmentado. Deixar que a IA faça por você o que seria um exercício a mais de criatividade, é fraude. A edição de fotos existe na própria câmera, desde os tempos analógicos, ou em aplicativos simples de edição, que oferecem as ferramentas; não a "mão-de-obra". A mão-de-obra é sua. O trabalho é todo seu, e se você não fizer bem, com olho clínico e talento, nada vai valer a pena.

Revisamos nossos textos, quando sentimos que falta algo. O pintor e o escultor dão retoques em suas obras, depois delas prontas. O pedreiro também. O cientista refaz experimentos em seu projeto, e seremos eternos, caso sigamos exemplificando. O fotógrafo também é assim, embora não seja obrigatório. Só não suporto que olhem para uma criação minha, crendo haver um só toque de IA.

Inteligência artificial não é inteligência. É o truque da preguiça de quem não quer usar o próprio cérebro. Nem as próprias mãos. Mas quer assinar o que não fez. Sempre me esmero para que os olhos gostem do que meus olhos olham... veem. E minhas mãos tratam com carinho, ética e critério. 
...   ...   ...

Respeite autorias. É lei.

segunda-feira, 2 de março de 2026

Grito

 


Sobre o Pastor de "Três Graças"

Demétrio Sena - Magé 

Fiquei frustrado ao ler que o pastor Albérico, da novela Três Graças é, na verdade, o chefão da bandidagem na comunidade fictícia da Chacrinha. Desejei que a fantasia salvasse a realidade. Que a licença poética nos desse um horizonte favorável à crença no cristianismo do século XXI. Estava mesmo feliz por imaginar que, na ficção, a exceção venceria a regra, em desagravo ao mundo real, onde a regra estrangula a exceção. O pastor Albérico tinha tudo para ser a exceção na qual precisamos acreditar, fora do estrangulamento que nos deixa sem esperanças.

Ainda espero, caso isto seja verdade, que autor e colaborador decidam pela mudança de rumo do personagem. Precisamos dessa fantasia. Dessa poesia que nos faça intuir a existência de uma exceção menos invisível; menos intocável; mais possível, na vida real. Entendo o realismo que denuncia o óbvio, mas gostaria de ver, na ficção, a exceção vencer a regra. Tornar-se a regra no folhetim, representada pelo único pastor do enredo. Precisamos sonhar que ainda existem líderes cristãos a contento, representantes legítimos do real cristianismo. Sem envolvimento com poderes paralelos (tráficos, milícias e política partidária extremista).

No fundo, nem é de religiosos (fiéis e líderes) que trato nesta reflexão. É de seres humanos, convertidos ou não a crenças (quaisquer crenças), dogmas, filosofias e até medos, capazes de transformações viáveis para um mundo melhor. Se a transformação doentia do "Jorginho Ninja" não convenceu, pois ele se converteu fragilizado pela doença e o medo do suposto inferno, valeu o efeito. Foi um opressor a menos, no universo da novela. Por ora, resta-me a frustração de não vivenciar a poesia de um líder religioso na contramão da realidade que me cerca.

...   ...   ...

Respeite autorias. É lei

domingo, 1 de março de 2026

Das Relações Institucionais

Demétrio Sena - Magé 


Sei que você não sabe... no entanto sei que você sabe, muito embora pense que penso que não sabe. O que tento dizer é que o que sei é que você sabe, sem saber que sei, muito menos que sei que você sabe que sei. 

É assim que minto para sua mentira: mentindo para mim mesmo, que você acredita na mentira que sei que você sabe que é mentira, mas na verdade, faz de conta que não faz de conta... e que acredita mesmo que a mentira é verdade, enquanto faço de conta que você não faz de conta que sabe, sabendo que você sabe; só não sabe que sei que sabe... e que não sabe que sei que não sabe que sabe. 

No fim das contas, o que sei que você não sabe e nunca saberá que sei, é que tudo isso nos torna sabedores de que merecemos um ao outro. Não sei como sei. Só sei que sei; não pergunte como não sei como sei.
...   ...   ...

Respeite autorias. É lei 

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Pobres Não Quebram o País

Demétrio Sena - Magé 

As elites empresarial e política sempre acharam terrível qualquer projeto que humanize o trabalho e favoreça o trabalhador. Esse discurso de que o país vai quebrar, se o trabalhador tiver um dia mais para viver, é o mesmo de quando a escravidão estava prestes a ser abolida. Foi difícil, porque a escravidão era (e é) um vício de quem escravizava (e escraviza), mas o país está aqui. Inteiro. Nada mudou e nunca mudará para o rico. Ele continua rico. Mas o rico detesta que algo mude para melhor, na vida dos que o enriquecem.

Pense nisso, e deixe o seu voto pensar também, nas próximas eleições. Políticos lactentes dos empresários não querem largar as tetas, e os empresários, querem sempre deixar a conta para quem mais sofre. Trabalhador não quebra o país. Aposentado não quebra o país. Estudante que recebe incentivo não quebra o país. Muito menos, pobre que recebe auxílio gás, bolsa família, e consegue obter uma moradia simples pelo Minha Casa Minha Vida. 

Sempre quebrará o país, a concentração de renda, bens e direitos. Quase tudo nas mãos de alguns, e o pouco restante jogado avanço entre milhões de menos favorecidos e pessoas abaixo da linha da pobreza. Também quebra o país, quem vota em políticos da direita, que só trabalham por eles mesmos, seus principais assessores, os empresários, fazendeiros do agronegócio, banqueiros e outros donos do país.

O que realmente quebra o país são os empresários e fazendeiros que patrocinam campanhas políticas. O poder público que perdoa a sonegação de impostos dos milionários e só cria leis a favor deles. Quebram o país, os bancos que praticam golpes contra os pequenos correntistas e poupadores. Os super salários dos servidores de primeiro escalão e os pendiricalhos que furam tetos salariais astronômicos. Os desvios de verbas e obras superfaturadas.

Quebram o país, os vales paletó, auxílios para viagens de avião, auxílios combustível, cabides de empregos com supersalários para cabos eleitorais, familiares e amigos de políticos. Tantos outros benefícios e privilégios nos meios político-partidários, que nem consigo enumerar. Quebram o país, as associações criminosas entre poderosos e o poder paralelo. Os impostos não pagos por igrejas e outras entidades que exploram a fé pública. Quem quebra o país são aqueles que sempre gritam que somos nós que o quebramos.

...   ...   ...

Respeite autorias. É lei