segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Tudo Por Um Pintinho

Demétrio Sena - Magé 


Lá vou eu, mundo afora, em busca de um pintinho para fotografar. A solicitação estranha foi do Isac Machado de Moura, para mais uma capa de um livro seu. De pronto, parecia um pedido muito simples, mas aí percebi que no meu arquivo de milhares de fotos havia só uma, de um pintinho. Estava nas costas da mãe, quando cliquei. Então fui às ruas, e logo dei por mim que os aviários não vendem mais galinhas, frangos, pintos, patos nem outras aves de consumo alimentar vivas.

Para resumir, acabei conseguindo, mas muito às escondidas. Quem vende bichos nas ruas e nas feiras-livres está sempre muito desconfiado. Não usei minha máquina fotográfica, por atrair atenção, e o meu aparelho de celular não é dos bons. Tive que fotografar sem qualidade, para depois editar manualmente (jamais utilizo inteligência artificial). Foram várias fotos, diversificadas de seis originais. O Isac teve a sua encomenda e eu sobrevivi.

Na verdade, quase não sobrevivo, em razão de uma imprudência imperdoável, no meio do processo: Em dado momento, eu já bem cansado e desiludido, vi uma "Kombi de ovos". Daquelas onde vendem trinta ovos quase pelo mesmo preço de uma dúzia, no aviário, sendo que, tirados os ovos podres, resta realmente uma dúzia ou pouco mais. Pois bem; meio sem graça chego mais perto e, com um fio de voz pergunto, inadvertidamente: "Por favor; o senhor tem também pinto, ou só tem os ovos?". 
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domingo, 8 de fevereiro de 2026

Crônica Abstrata

Demétrio Sena - Magé 


Justa ou injusta, moderada ou extrema, o grau de confiança que temos numa pessoa depende apenas de nós. E diz respeito somente a nós. O que não dá para decidirmis conforme os nossos caprichos, é se haverá confiança, e caso haja, qual deverá ser o grau de confiança dessa pessoa, não em nossa pessoa, mas em nossa confiança. Muitos têm essa consciência, cotidianamente; no entanto, às vezes pecam por se assegurarem de pactos nunca feitos.

Não importa o grau de confidencialidade ou aproximação, mesmo tátil, que por acaso tenhamos com quem não temos relação amorosa. Essa pessoa nunca deverá ter de nós qualquer palavra ou gesto que sinalize para uma tentativa inconveniente. Para uma forçação de qualquer natureza. Ninguém tem como saber das nossas expectativas ou intenções; logo, ninguém pode se sentir cobrado, como se devesse uma reciprocidade que não foi prometida. E ainda que tivesse sido, essas questões não são leis; ninguém é obrigado a "cumprir" com o outro o que é de foro íntimo; envolve suas emoções e particularidades.

Algumas vezes nos tornamos armadilhas para nós mesmos, nessa dependência do que julgamos espelhos ou cavernas cujos reflexos ou ecos não estão sob o nosso controle. O outro deve ser sempre visto como o outro. Como indivíduo dissociado de nós. Qualquer associação, verbalizada ou silenciosa, deve ser uma simbiose desarmada; um encontro natural. Esta crônica é abstrata. Pode ser ou não sobre você. Logo, você decide o contexto, o sentido e a conclusão. 
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sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Pobre contra pobre

Demétrio Sena - Magé 


Os políticos e seus assessores têm todos os benefícios imagináveis (ou inimagináveis), para complementarem seus salários indecentemente polpudos. A folha de pagamentos do Congresso Nacional, por exemplo, corresponde a um valor maior do que toda a arrecadação de algumas cidades brasileiras. As folhas de pagamentos de câmaras estaduais e municipais não ficam muito abaixo. Em suma, os politicos e seus pingentes, em um todo, sugam quase toda a economia do país. 

Além dos salários indecentes, os ocupantes do poder público têm vale paletó, vale combustível, vale viagem entre outros, correção salarial acelerada e, anteontem, assisti a um noticiário que informava sobre passarem a receber vale peru e vale panetone. Enquanto isso, bolsonaristas pobres atacam pessoas ainda mais pobres, desempregadas e sem o mínimo para sobreviver, porque elas recebem micharias de vale gás, bolsa família, loas, e os estudantes pobres recebem o pé-de-meia, para terem condições de concluir seus estudos sem o impedimento da fome.

Para bolsonaristas, especialmente pobres, os ricos é que precisam de auxílio. Chegam a fazer envios de seus poucos recursos, via Pix, aos políticos, pastores midiáticos e outros poderosos que os comovem nas mídias. Não ajudam familiares nem amigos em situação de vulnerabilidade e chamam os ainda mais pobres de vagabundos. Mal sabem (ou não sabem) que também são chamados de vagabundos pelos vagabundos que eles ajudam a ficar cada vez mais ricos e vagabundos.
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sábado, 31 de janeiro de 2026

Dois Mundos

Demétrio Sena - Magé 

Em qualquer circunstância ou contexto ficaremos bem, se não dependermos de fatores externos para isto. Ou quando formos livres o suficiente para separarmos o que acontece ao nosso redor, inclusive conosco, da nossa estrutura psíquica; emocional. Há dois mundos distintos, para vivermos. Vejo como perfeitamente justo e necessário que o mundo interno seja o nosso refúgio, sem resquícios do externo, quando a "barra" está pesada. Quem sabe fazer isso vive melhor, porque tem onde se refazer; se remontar e redefinir para mais um dia inevitável. Pelo menos enquanto for inevitável mais um dia.

E, surpreendentemente, se soubermos manter a contento esse refúgio dentro de nós, e usá-lo com a sabedoria necessária, como já exposto, a superfície (o mundo externo) será beneficamente atingida. Ficaremos melhores, mais equilibrados, organizados, fortes e otimistas, no cotidiano. Para tanto, será sempre fundamental não dependermos de que ou quem nos rodeia, para nossa plena manutenção. Se não delegarmos a ninguém, o peso de ser nosso arrimo afetivo nem mental. Precisamos conviver com pessoas; interagir, aprender, ensinar e confidenciar. Mas não podemos viver das energias delas.

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quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Infelizmente, só pode ser...

Demétrio Sena - Magé 


Se a pessoa maltrata - e mata - animais. Se espanca os filhos ou põe panos quentes em suas atrocidades. Quando a pessoa é capaz de um feminicídio, ainda por cima na presença de uma criança, geralmente filha ou filho... é capaz de um homicídio por motivo fútil; de uma bravata violenta em lugar público, e de um ataque maciço, com expressão de completa normalidade. 
E se esse indivíduo truculento, machista, racista, homofóbico, sanguinário e fanfarrão se esconde numa igreja... no porte ostensivo de uma Bíblia... em trajes típicos de "cidadão/cidadã de bem" - olhe bem as aspas - ... se não sabe conversar, só impor no grito; se não suporta ideias opostas nem modos diferentes de pensar e ser... ataca os fiéis de outras crenças, procura incansavelmente na web notícias falsas sobre sociedade, política, pessoas públicas, cultura, literatura e seus fazedores, para republicar como reais... e detesta universidades, professores em geral, cabeças pensantes, personalidades próprias e livres...
Por fim, se a pessoa se põe acima do bem e do mal; tem O Possível Deus como seu Capanga; torce contra o próprio país, chegando a desejar - e pedir - que outro país lhe atire bombas... se acredita em um político moleque e vagabundo (que vaga, enquanto sua vaga ou cargo fica sem utilidade) ... e vê como benção, ser atingida por um raio, no meio de uma manifestação ensandecida e sem sentido... acha lindo cair no ridículo, quebrar patrimônio público, fazer cocô em cadeia nacional, pedir o retorno da ditadura, sem ter ideia do que isso representa.
Salvaguardadas as exceções, a criatura que é assim... que admira e apoia quem é assim... ou explora quem é, sendo mais esperta, porém maquiavélica, só pode ser bolsonarista. E se você disser que é bolsonarista, mas não tem nem uma dessas características, o que me resta é crer na sua palavra e dizer o que penso a seu respeito: você só não está do lado certo.
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domingo, 25 de janeiro de 2026

Das Procuras Perdidas

Demétrio Sena - Magé 

A confiança irrestrita e recíproca, em situações absolutamente impensáveis, de tão inusitadas, é algo extremamente compensador. Não tem preço. É quando a forma de respeitar e se sentir respeitado quebra todos os protocolos sociais de respeito... o contexto de se sentir seguro com alguém surpreende a todas as sensações interpessoais de segurança. Em especial, pela existência de um justificado "pé atrás" com o próximo, cada dia mais distante nas nossas expectativas.

O ser humano é incompleto porque, reservados os fenômenos, não confia nem desfruta dessa confiança. Não respeita nem é respeitado dessa forma solta e desastrelada dos critérios estabelecidos. Não sente nem passa uma segurança dentro desse contexto desarmado, entregue feito salto no abismo. Tudo é muito específico, pontual, pessoal, e demanda observações muito íntimas, unilaterais, com vista para grandes equívocos. O pior em tudo, é que de fato existem muitas e multiplicadas razões para tanta casca, tanto escudo e reserva, porque a regra da maldade humana comum transformou a confiança e a entrega desarmadas em exceção absoluta.

Qualquer "destransformação" pontual dessa realidade configura uma evolução revolucionária. Quem sabe, uma revolução evolucionária. Ou simplesmente uma reevolução... se é que algum dia fomos, de fato, evoluídos a tal ponto. Algumas procuras (como desse contexto de relação interpessoal) costumam ser para sempre. A procura, por si só, é uma tábua de salvação contínua e imperceptível. O problema não está em achar ou não. Está na desistência total da procura. 
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quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Umbanda: Religião e Brasilidade

Demétrio Sena - Magé 

A Umbanda é a única religião brasileira. Ela foi fundada no início do século XX, por Zélio Fernandino de Moraes. É uma religião que sincretiza principalmente os elementos das religiões africanas, mas também das crenças indígenas, do catolicismo e do espiritismo. Ao contrário dos que demonizam, e daqueles que acreditam nessa demonização infundada, a Umbanda se pauta pela caridade, pelos ritos mediúnicos, e tem uma forte ligação com a cultura brasileira. Sendo assim, os seus seguidores são os únicos religiosos da genuína brasilidade.
Minha mãe, que era evangélica, sempre foi muito próxima de umbandistas, e nos ensinou (aos meus irmãos e a mim) a respeitá-los e admirá-los. Quando crianças, vivíamos em situação de extrema vulnerabilidade. Os não familiares que mais nos ampararam com carinho, orientações, paliativos naturais e amizade, sem nunca tentarem nos converter, eram umbandistas. Lembro-me bem de alguns, mas não há como revê-los e agradecer.
Em todas as religiões, como em outros meios, há enganadores, exploradores, os que se aproveitam da ingenuidade, a bondade, até do fanatismo de alguns fiéis, para obterem vantagens e usurparem valores e bens. Mas quem menos age assim são os umbandistas. Geralmente, os pontos de umbanda são modestos, e os líderes sabem lidar com isso. Não exigem sacrifícios materiais dos fiéis. Cada um ajuda como pode, o terreiro que frequenta.
É também a Umbanda, a religião de menos líderes abusadores; menos envolvimento amoroso ou sexual antiético. Menos denúncias dessa natureza. Eles se ajudam, ajudam ao próximo, não perturbam a ordem, não perseguem outras fés, não obrigam nem tentam obrigar fiéis a permanecerem, contra a vontade. Mas é uma religião perseguida. Acusada de práticas sombrias.
Sou ateu; não acredito em divindades. Porém acredito nas pessoas e suas crenças, quando não são usadas de má fé. Pela Umbanda, tenho carinho, boas lembranças, gratidão, além de haver um contexto de cultura e brasilidade, para mim. Não sei como e quando são as reuniões ou liturgias da Umbanda; quem pode visitar ou colaborar. Mas gostaria de conhecer um pouco mais da religião; ser próximo de um grupo e contribuir para o seu crescimento.
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domingo, 18 de janeiro de 2026

Considerações amadoras sobre confidência profissional

Demétrio Sena - Magé 

Meio mundo, em algum momento, precisa de um psicólogo/psicóloga. Psicologia é um ramo da medicina que se pode chamar de oficina do ser humano. Já precisei, embora tenha explorado "extraoficialmente" uma grande amiga psicóloga. Há casos em que algumas sessões nos ajudam por toda a vida, e casos em que, por toda a vida, precisamos de revisões pontuais, para não voltarmos ao ponto de partida. Ou de fuga. E antes de prosseguir nestas impressões pessoais, é preciso dizer que são impressões pessoais; isto não é uma analogia técnica ou de natureza profissional.

Mas quero falar de uma terapia muito eficaz, que sempre me ajudou em minhas angústias, dúvidas e manias.... em meus temores e segredos em ebulição: a confidência. Confidenciar é um ato libertador, quando acertamos na escolha de com quem fazê-lo. Ter confidentes é algo cada vez mais raro nesta fase de mundo e sociedade, onde a correria rouba todo o nosso tempo de falar e ouvir... especialmente o nosso tempo de identificar criteriosamente em quem poderíamos acreditar para fazer confidências; abrir nosso coração, nossa alma, sem temer julgamentos e censuras do que é justamente a nossa razão de procurarmos um colo.

A confidência é curativo; profilaxia paralela; nebulização... às vezes uma injeção de Voltarém na alma, nas emoções e na psique, pois há momentos em que um bom confidente precisa ser mais incisivo, para depois passar um algodão, aliviar a picada com o carinho que "o depois" requer. E como confidentes estão escassos, aí é que entra a psicanálise, tão popularizada nos últimos anos. A psicanálise à moda Freud, pai da psicanálise. Não a psicanálise/pregação religiosa; nem a psicanálise/aconselhamento pastoral; muito menos a psicanálise/vamos orar, entregar nas mãos de Deus.

Em suma, relembrando a natureza do texto, explicada no primeiro parágrafo, a psicanálise é a confidência profissional. Importantíssima nestes tempos, desde que não tenha a venda casada da proposta religiosa e qualquer dissociação dos princípios freudianos. Ou seria a psicanálise despsicanalizada. Neste contexto, a psicanálise é (com pleno reconhecimento de sua importância) a enfermagem da psicologia. Eu diria que um quarto de mundo precisa de confidente; mesmo em forma de psicanalista.

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sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Oportunismo gospel de massa

Demétrio Sena - Magé 


Faz tempo que a música gospel brasileira deixou de ser sagrada; um ato litúrgico. Tornou-se modão e, diga-se de passagem, modão de mau gosto. Atua lado a lado com a música pop-sertaneja, que de sertão não tem nada; pois, reservadas as exceções, é feita de gritos que exaltam machismo, traição e valentia. 

Multidões de cristãos e não cristãos são arrastadas aos grandes shows de artistas que não fariam, não fizeram ou deixaram de fazer sucesso na música secular. Hoje o gospel faz sucesso, não como forma de adoração religiosa, e sim, de culto aos próprios cantores e cantoras. Esses artistas pulam, gritam e/ou fazem caretas como qualquer ídolo pop ou sertanejo, ao som de supostos hinos que imitam ritmos seculares da moda e acrescentam lamúrias e desespero, para temperar os shows de uma emoção cavada, exigida e de efeitos neurológicos. Não há imitações gospéis da MPB, pois o bom gosto musical pode significar o fracasso sumário desses cantores, em razão das preferências do seu público.

A esperança está na certeza de que os modões passam. A boa música, secular ou religiosa, permanece. Com o tempo, as músicas de natureza duradoura se sobressaem à futilidade das que chegam para saturar, faturar ao máximo e sugar os artistas meteóricos, que logo serão esquecidos. Da mesma forma, esse cristianismo bufão, cabo eleitoral de políticos extremistas, negociador de rebarbas do poder público passará. Não sei quando, mas passará. Ficarão os cristãos e outros religiosos cujos objetivos são os assuntos relacionados à fé sincera e genuína e à espiritualidade serena, humilde, centrada na busca do aperfeiçoamento das virtudes reais e plenas. 

O caminho do cristianismo se tornou muito largo. A religião virou força terrena e já não cultua o sagrado, mas a si mesma e aos poderes terrenos que lhe dão vantagem e força intimidatória contra as minorias. Em suma, esse cristianismo tem o sinal da besta, que facilita seus caminhos e dá poder de "carteirada".

E a música gospel, ao melhor estilo "poltergeist adaptado" é a grande parceira nessa hipnose, abdução ou convulsão coletiva.
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