sábado, 19 de setembro de 2026

Terrivelmente terríveis

Demétrio Sena - Magé 

Já faz tempo que está em moda (terrível moda), o termo terrivelmente evangélico. E nisso, os evangélicos que assim se declaram realmente não se degeneram em relação ao termo. Eles de fato são terríveis. Têm demonstrado que são capazes de qualquer atrocidade, sob a terrível desculpa de que são autorizados pelo suposto Deus; ungidos por Ele, façam eles o que fizerem de bom ou mau.

Excluem, julgam e condenam com critérios duvidosos; fecham todas as portas para quem não os obedece; atacam outras religiões, inclusive com violência física e depredação. Também transformam seus templos - lugares de culto e adoração ao seu "sagrado" - em palanques políticos eleitorais, sempre com candidatos que lhes prometem poder terreno; força para destruir todas as comunidades, crenças, não crenças e grupos ideológicos opostos. 

Muitos ainda maltratam esposas e filhos (pela força ou pela dominação verbal) em nome de velhos critérios bíblicos distorcidos. Mentem para proteger seus pupilos políticos, e quando esses políticos cometem atos condenáveis, costumam dizer que "pelo menos são cristãos"; como se o cristianismo lavasse caráter como se lava dinheiro; especialmente o dinheiro público.

A lista não acaba: em favelas, existe até a proteção de traficantes às igrejas evangélicas. É o caso do Peixão, no chamado Complexo de Israel, no Rio. Ele protege as denominações evangélicas impedindo que outras religiões professem sua fé e se instalem. Peixão lê a Bíblia e mata; louva e mata; ora e mata "como o Rei Davi" e se proclama um homem de Deus, ao mais terrível estilo Velho Testamento.

Terrivelmente evangélico é mesmo ao pé da letra. Se existe exceção? A exceção é o não Terrivelmente evangélico. Grupo muito pequeno, que não se levanta contra as práticas terríveis dos "Terrivelmente". Só não fazem as mesmas coisas; calam; deixam "nas mãos de Deus" a missão que "Deus" deixou em suas mãos. Devolvem as responsabilidades. E isso não deixa de ser terrível. Terrivelmente terrível.

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quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Lula

 


Roda-viva mortal

Demétrio Sena - Magé 


Mais do que nunca (ou então do que sempre), a sociedade como um todo sofre, sendo vítima de quem um dia foi sua vítima inicial: por desamparo, preconceito, arrogância e negligência. Mas a sociedade jamais aprende: continua fazendo vítimas que sempre voltarão para fazer da mesma, essa vítima de quem ela faz vítima e logo depois se torna. Isso é uma interminável roda-viva mortal.

É algo notório e sociológico: existem tanto a vítima estrutural (inicialmente o lado mais frágil) quanto a vítima retroativa ou por estorno (vítima da primeira vítima), numa disputa insana que as torna vítimas rotativas uma da outra. Trocar o conceito ou contexto de vitimado por vitimizado não cabe a nenhuma das margens. Muito menos à margem que, desde sempre, já é mesmo marginalizada.

No fim de tudo, a sociedade é sua própria vítima, porque sempre viveu dos guetos que ela produz. Os guetos criam sub-sociedades à margem dos olhos majoritários e se organizam. De vítimas, tornam-se algozes, fazem vítimas onde se tornaram e jamais conseguiram se libertar: são vítimas terminais das próprias vítimas que são, enquanto seguem tentando ser algozes de seus algozes iniciais.
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sábado, 12 de setembro de 2026

"Ressalmo"

Demétrio Sena - Magé 

Bem aventurado, mesmo, é o varão que não anda segundo os conselhos do pastor vendido para políticos. Não se detém no templo dos corruptos e corruptores... nem se assenta na roda dos negociadores de votos dos fiéis. Antes tem o seu prazer de cidadão esquerdista que acredita na liberdade, no amor, e medita de dia e de noite sobre o bem comum... no melhor para todos... na beleza da diversidade humana que abraça todos os povos; etnias; religiões; ideologias livres e sinceras, conforme o entendimento e a escolha de cada um.

Esses realmente serão como árvores que dão frutos saudáveis. Que oferecem sombra capaz de refrigerar as mentes; almas; corações. Sombra que acolhe sem preconceito, as etnias infindas, as religiões incontáveis, a não religião, todas as classes sociais, orientações e gêneros. Nem tudo quanto fizerem prosperará, porque os maus estão por aí; os extremistas nunca cessarão as armadilhas... e os falsos líderes religiosos, que sempre oferecem seus rebanhos em sacrifício aos maus políticos, nunca desistirão de estabelecerem seus paraísos particulares na terra.

São assim os ímpios "igrejados". De um lado os que dominam; do outro os que são dominados, por preguiça de sentir, pensar e caminhar por conta própria. Espero que os lobos em pele de cordeiro sucumbam nas urnas e o rebanho desperte a sua cidadania. Quando a própria igreja, em parceria com o poder terreno, torna-se a roda dos escarnecedores, o alerta é que passou da hora de os verdadeiros cristãos não se assentarem mais nessa roda. Ou em última instância, o que acho impossível, remodelar ou recontextualizar a roda.

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sexta-feira, 11 de setembro de 2026

Gatilhos

Demétrio Sena - Magé 


Sempre me vanglorio de não ser uma pessoa depressiva. De não ter crises de ansiedade ou algo semelhante. Mas me esqueço de alguns gatilhos que me desesperam, embora eu saiba me resolver, logo depois do impacto.

Tenho medo, por exemplo, de ser abandonado, em passeios com mais pessoas, a lugares muito cheios. Fico todo o tempo vigiando o guia ou motorista. Se não o vejo por um momento, meu coração dispara. Não vejo mais ninguém. Tudo gira. É uma lembrança de quando eu era bem pequeno e minha mãe se perdeu de mim em uma feira de Brasília. Ou eu dela. Só fui encontrado no fim do dia, chorando em desespero e já me dando por completamente perdido. 

Quer me deixar suando frio e com o peito apertado, a respiração difícil? Deixe-me sozinho em qualquer ambiente, com algo de valor que não seja meu. Em minha infância e na adolescência, em razão da minha cara de culpa, meu cabelo desgrenhado de culpa e minhas roupas andrajas ou molambos de quem tem culpa, muitas vezes fui suspeito de roubo.

Minha sorte foi que os sumiços (nunca foram roubos) foram sempre desvendados, porque se dependesse do meu aspecto, eu teria sido recluso em um colégio interno, como eram chamadas as instituições para menores infratores. Até hoje, ao ficar sozinho entre objetos de algum valor, tenho medo de que algum deles crie pernas ou asas, e suma, me deixando em sérios apuros. É um sofrimento que só eu sei dimensionar.

Por "não ter Deus no coração", sendo reconhecidamente ateu, muitos acham, inclusive familiares, religiosos ou não, mas que publicam versículos em redes sociais, que sou capaz de coisas horrendas: até de minha presença, pura e simplesmente, agravar a doença de uma pessoa querida que não está bem. Isso também é um gatilho; morro de medo de me aproximar de alguém prestes a morrer, e depois sentir nos olhares, que a minha presença foi a causa.

Quando me vanglorio de não ser depressivo, é porque logo me resolvo: desarmo meus gatilhos, consciente das lembranças marcantes e, em muitos casos, do preconceito e da ignorância que me cercam desde a mais tenra idade.
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Tempo


 

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Sobre o 13

Demétrio Sena - Magé


O meu voto é por mim e pelos meus,

pelo povo que às vezes nem percebe,

mas que bebe fiado a própria dor,

pra tentar esquecer que a dor existe...

Vou às urnas por mim, por minha gente

que trabalha igual bicho para monstros

cujas mentes estão em seus umbigos

e nem sei se têm alma e coração...

Voto contra barbáries, ditadura,

contra quem oferece os meus direitos

à loucura de um Hitler reciclado...

Pra manter este sonho de país,

ser feliz e trocar esse congresso

inimigo voraz do bem comum...

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segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Glórias ao Rock In Rio

Demétrio Sena - Magé 

Eu também estaria lá no Rock in Rio, se pudesse. Pelo menos hoje, quando me emociono, via tevê, com Vanessa da Matta, Roupa Nova, Guilherme Arantes, Luiza Sonza junto ao Roberto Menescal, e ainda o Gilberto Gil. Mais tarde verei o Elton John. Ontem, o Jota Quest me levou às lágrimas, quando convidou o Tony Tornado para dar um show de alegria, energia e talento, aos 96 anos. Alguém quer falar de bênçãos?

Todo mundo cantando o amor; celebrando amizades; de corações abertos gritando a paz. Isso para mim é culto; é a verdadeira religação com todos os possíveis sagrados que nenhum livro manipulado explica. E quando alguém decide protestar, é justamente contra maldades, guerras, injustiças, desigualdades sociais, preconceitos religiosos e domínios; escravidões ideológicas.

Não troco estes momentos por nenhuma sessão de homilias, orações e louvores denominacionais dentro de uma igreja. Porque lá nas igrejas, bem sabemos quais, estão promovendo corporativismo contra os menos favorecidos, dominação ideológica, religiosa, de proteção da bolha e ódio; perseguição contra o mundo restante. Pior de tudo, oferecendo palco a políticos extremistas e corruptos.

Rendo glórias ao Rock In Rio, na língua dos anjos! Aos que dão shows no palco e na plateia! Grito em silêncio, aqui dentro de mim, "ribalábalá" em homenagem aos momentos de arte, união, alegria, entretenimento e paz, nessa festa que me anima e renova minhas esperanças! Tudo por saber que nem todos estão nos templos onde os inimigos do povo se fortalecem para conspirar contra o nosso país. 

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Minha tábua segura

Demétrio Sena - Magé 

Sinto que você me conhece, vasta e profundamente, no amplo desconhecido em mim. Sabe ler o silêncio do meu inusitado e decifrar cada segredo que jamais conto; as mais inconfessáveis confissões que nunca faço. Entende muito bem o ininteligível das escritas de minh'alma; das escrituras profanas - e submersas - deste meu testamento afetivo.

Decifro que seu olhar me decifra como nem eu faço. Que sabe do que não sou capaz, a partir do que sou. Confia no que não entende, na certeza do incerto que abona minha índole. Aposta no meu eu sobre você, com a segurança de quem se atira completamente no abismo e deixa estar. Vê bem claro no meu sombrio e não teme o temerário do que não vê, pois intui a lisura com que sou quem sou.

E você me comove com o que não diz, mas me assegura do quanto eu ouço nesse não falar. Tem um eco sincero, inquestionável para os meus gritos de socorro engolidos pelo não pedir que me faz tão pedinte. É a minha tábua segura, na insegurança do mar que não sei domar aqui dentro. 

Vejo você tão próxima, mesmo à distância. Tão íntima, embora sem intimidade. Sinto-me compensado por tudo que, no fim das contas, nada. Mas que me completa e satisfaz, numa completude incompleta; numa satisfação insatisfatória. História escrita sem caneta, mão e papel. Só pela intuição afetiva. No sonho acordado em que sou grato por sua existência.

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