segunda-feira, 25 de maio de 2026

Carta Aberta a um Coração Fechado

Prezado (?) Luciano Huck:

Minha mãe criou sozinha nove filhos. Nove. Ela trabalhava como diarista e os filhos mais velhos - eu sou um deles - vendiam picolé, bala, salgadinhos e ferro velho. Mesmo assim, sentimos muita fome; passamos muito frio; ficamos doentes sem socorro médico; fomos expulsos de muitos quartinhos de vilas, e moramos em granja abandonada, porque nossa mãe não tinha como continuar pagando os aluguéis, mesmo sendo baratos.

Se nos longos anos de nossa criação existissem os programas sociais que existem hoje, não teríamos passado por tanta fome; tanta penúria, em um todo. Se os governos da ditadura, dos quais você parece ter saudades, tivessem criado o Bolsa-família, o Pé-de-meia, o Minha Casa Minha Vida, o Loas (para minha "esquisitice" que ainda não tinha laudo) e tantos outros programas, todos criados por governos da esquerda e "similares", teríamos até estudado no tempo certo. Nossa mãe teria continuado a trabalhar, porém menos, e teríamos tido mais a sua companhia, o seu colo e mais abraços. Nós, os filhos, teríamos trabalhado em meio período, como Jovens Aprendizes, e não teríamos feito parte das estatísticas de evasão escolar. Tendo estudado sem fome nem medo dela, teríamos começado a trabalhar formalmente bem mais cedo, e com isso, contribuído mais cedo com a previdência, os impostos e as taxas que ajudam a possibilitar governabilidade. Mais um dado para você: os deficientes físicos, visuais, mentais e neurológicos que hoje também consomem e geram economia, geralmente pediam esmolas, antes da criação dos benefícios sociais.

Você sabe que o dinheiro dos programas sociais também movimenta a economia; não deixa o país estagnar e ajuda você a enriquecer ainda mais. Quer saber como? É evidente que você sabe, mas tem lapsos de memória e por isso diz besteira. Então eu vou dizer: graças aos programas sociais que você critica, esses milhões de brasileiros e brasileiras assistidos pelo governo podem comprar um televisorzinho. Graças a isso, assistem (inadvertidamente) ao seu programa dominical. E por essa audiência, os mega empresários investem, patrocinam, parceirizam. Isso mantém o seu programa, seu salário milionário, seus super cachês por  anúncios publicitários e aparições. Viu só? Não é o seu dinheiro que alimenta os pobres; são os pobres que geram seu dinheiro e dão cada vez mais audiência à sua ingratidão. 

E antes que você diga, mais uma vez em rede nacional: "mas também, para quê tantos filhos?", respondo, e não é opinião; é fato: Patriarcado, Luciano. Alimentado pelos políticos da ditadura crua e os da ditadura em banho-maria, que deixaram herdeiros. Patriarcado em parceria com religiões que reduzem as mulheres a procriadoras e servas do lar. Se hoje isso é mais disfarçado, mas existe ainda, imagine como já foi? As religiões que orientam as mulheres a serem "coelhas" dos homens são as mesmas que representam e negociam os votos de milhões de homens e mulheres pobres, desinformados e simples, como toda a elite gosta, para se manter dominante. Gosta, mas critica os programas que mantém as pessoas (bem) menos favorecidas respirando. 

"Ah, e tem muita gente que não precisa e recebe os benefícios!". Pode ser. Muita gente mais perto da sua classe social do que da classe pobre e trabalhadora. O problema não é a existência dos programas sociais; é a existência dessas pessoas de má fé que ajudam a acentuar a má fé dos que desqualificam ajudas. Acho realmente uma pena que você, após tantas convivências relâmpago com pessoas pobres, para entregar os prêmios filtrados de seus bingos televisivos, não tenha se tornado mais empático, solidário e sensível. Também é muito espetáculo, muita ribalta, muito choro ensaiado e discurso que plagia discursos anteriores. Isso pode realmente ser desgastante. Ainda assim é uma pena que você nunca tenha saído da bolha, mesmo saindo às ruas e se misturando, algumas ou muitas vezes.

Seja como for, tenho algo a lhe agradecer. Agradeço, de todo o coração, por você não ter levado à frente aquela pré-ideia de se tornar presidente do Brasil. E também por não ter tentado uma vaga no congresso. Você é muito persuasivo; com o tempo, conseguiria muito apoio para devolver o país às piores fases da fome popular. Já chega de bolsonaristas! Dos declarados e dos bolsonaristas "nem Lula nem Bolsonaro".

Atenciosamente, 

Demétrio Sena - Magé, 26 de maio de 2026

domingo, 24 de maio de 2026

Aos Moralistas

 


Horizonte

Demétrio Sena - Magé 

É um desperdício de vida, quando alguém realiza sonhos, obtém conquistas, forma uma linda família e depois vive amago, porque os admiradores esperados não "curtem". Não enaltecem. Não "seguem" na web. Aí a pessoa acusa meio mundo de inveja, "olho gordo" e "torcida contra", como se ela fosse uma estrela "flopada"; um deus (ou deusa) cancelado por "internautas" que ela também não curte, não enaltece, não segue nem diz "que lindo!", "você é demais!". Será que o que buscamos é justamente a inveja coletiva, o "olho gordo" corporativo, e tudo só faz sentido se for assim?  Será que um dia filmaremos até os nossos momentos mais íntimos, para mostrarmos no "Insta" ou no "Feice", como somos bem resolvidos, não sendo? 

Cuidado: podemos desenvolver uma inveja real e irresistível de quem consegue nos olhar de forma horizontal; com igualdade... a tal ponto que "torce" e fica feliz por nós em silêncio, acreditando que somos realmente felizes pelo que somos, e por nossas conquistas, independente de aplausos. Quando queremos a todo custo, que a nossa vida seja um reality show de sucesso absoluto e ininterrupto, estamos bem próximos de uma camisa-de-força, para contenção da nossa inveja de quem consegue não ter inveja, principalmente de nós. É algo primordial, conseguirmos conceber uma sociedade na qual ninguém olhe de baixo nem de cima para ninguém. A horizontalidade na forma de nos olharmos é o que pode salvar o mundo.

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sexta-feira, 22 de maio de 2026

Pequenino eu

Demétrio Sena - Magé 

Ninguém nem tente me comover com clichês. Nem com as grandes produções direcionadas à comoção específica ou coletiva. Chantagens emocionais não me compram. As comoções produzidas não me arrebatam. A minha concepção de milagre opera silenciosamente; à meia luz. Minha cura pode ser a força de quando serei desenganado. Meu prodígio não grita; sussurra. Prefiro me pautar pela humildade passiva da esperança, a ser arrastado pela arrogância saltitante da fé que a teologia da grandeza e do sucesso tornou pop. Levou pros palcos... pros estádios.

Ainda que Deus Exista, e pode até ser, não é a Ele que pretendo chegar, e sim, ao mais profundo, inusitado e pequenino eu que mora dentro de quem eu julgo ser. Compreender o significado da própria insignificância seria o ato mais grandioso e sublime da minha baldeação nesta vida... na viagem para não sei qual plano do universo, em suas naturezas física e gasosa. Não me ofereça uma religião... não tente vender para minha carência um suposto plano pós-morte cujas letras miúdas perderam a vergonha e se tornaram garrafais na exposição da fraude.

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quarta-feira, 20 de maio de 2026

De Trabalho e Dignidade

Demétrio Sena - Magé 


Antes do meu ingresso no emprego público, perdi muitos empregos. E nunca foi fácil conseguir outro. Então eu trabalhava como ambulante, camelô, vendedor de livros e o que mais viesse à mente, até ingressar em um novo emprego formal que me parecesse digno.

Insatisfeito com patrões, por não ter direitos atendidos e por me sentir desrespeitado como trabalhador e ser humano, eu não pedia demissão; fazia os patrões ficarem insatisfeitos comigo e me demitirem. Se eu já era surrupiado por eles em tantos direitos, por que lhes daria esse prazer de me retirar sem receber todos os direitos de quem é dispensado sem justa causa? Jamais aceitei premiar uma empresa onde sofri injustiças, assédio moral, salário abaixo do piso, registro em carteira inferior ao meu ofício e jornadas análogas à escravidão. 

Nem precisava fazer "armações": era só começar a cobrar meus direitos, cuidar da minha saúde, não trabalhar passando mal, me negar a fazer o que não era minha obrigação e ainda excedia os meus horários. No mais, era só agir cuidadosamente para colher provas do assédio moral, das exigências descabidas acompanhadas de coações e ameaças (evidentes ou veladas) e da sonegação dos meus direitos, para ingressar na justiça trabalhista sem chance de ser desmentido, pois a justiça sempre reluta em fazer justiça pelo trabalhador.

Eu tinha medo de perder meus empregos, mas perder a dignidade sempre me apavorou muito mais. Recuso qualquer ideia de servidão, no trabalho e na vida secular em um todo. Sou capaz de suportar muita coisa, mas não consigo abrir mão de me sentir gente. 
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sexta-feira, 15 de maio de 2026

Inteligência Natural

Demétrio Sena - Magé 

Aceito e uso, porque não seria possível não usar a caneta, o computador ou as teclas do celular, para o curso da minha escrita. Igualmente, usaria uma britadeira, se precisasse quebrar brita. Pintar demanda tinta, pincel, tela, cavalete... mas nada pinta por mim. Não sou eu ferramenta, insumo, suporte. A inteligência é minha. O dom é meu.

Usarei violão, ou piano, qualquer outro instrumento, para dar cifras ao poema que desejo transformar em canção. Mas quem há de  compor a canção sou eu. Do início ao fim. Para tudo que fizermos, usaremos matéria-prima, ferramenta e/ou insumo. Qualquer produção imaginável, de maior ou menor dimensão, exigirá com o que, do que e sobre o que se faça ou se realize.

A inteligência artificial é o produto mais controverso da humanidade. Acho inconcebível que o ser humano tenha feito algo para se tornar, ele mesmo, ferramenta desse algo, no campo da criatividade: as artes; a literatura; o lúdico. Admito e aceito a inteligência artificial, mas não aceito a sua batuta como substituição do meu dom, do meu toque pessoal, da minha personalidade criativa.

Não quero ser um plagiador, ainda que isso tenha se tornado criminosamente permitido, por esse truque de fragmentação cibernética. Pior ainda: não quero ser mais um desses plagiadores que nem plagiar sabem mais: tornaram-se criminosos on-line dependentes dos comandos que se sobrepõem aos comandos que eles fingem dar.

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segunda-feira, 11 de maio de 2026

O Coachar dos Coachs

Demétrio Sena - Magé 

Geralmente, os coachs não têm responsabilidade com o que dizem. Na maioria das vezes, dão conselhos desastrosos que promovem discriminação, racismo e soberba nos ambientes coletivos. Nas empresas, promovem auto estima elevada em alguns funcionários e baixa auto estima em outros, com avaliações baseadas muito mais em simpatias pessoais de chefes do que no profissionalismo e na competência dos agraciados ou não. Exclusão, separarismo e comparações coletivas adoecem emocionalmente uns, instigam o narcisismo de outros e fazem dos ambientes de trabalho verdadeiros ringues, onde os egos se digladiam em busca da mesma visibilidade.

Aconselhados por esses profissionais sem formação acadêmica em especialidade alguma, diretores empresariais contratam ou promovem chefes "brabos". Chefes que assediam moralmente, pressionam à exaustão e obrigam seus comandados a cargas horárias e volumes desumanos de trabalho. Uma competência questionável que deixa todos extenuados e, com o tempo, comprometem seriamente os resultados produtivos e econômicos, porque ninguém é "de ferro" o tempo todo, por mais que precise do seu emprego. É nesse ponto que os profissionais "destacados" com elogios em discursos e/ou impressos caem adoentados pelo mesmo cansaço que os constrangidos com a invisibilidade por seus patrões. 

Por motivos e objetivos diversos, é assim nas empresas, nas igrejas, em outros ambientes religiosos e corporativos. Onde existe a coletividade, lá estão as disputas, as fogueiras do narcisismo e da vaidade fomentadas pelos profissionais formados em porcaria nenhuma; os coachs. Também são eles os grandes fomentadores ou conselheiros dos truques baixos políticos; das fake news e da formação dos gabinetes do ódio e do vale tudo por prestígio e voto. A falsidade, a truculência e a raiva sob os discursos do patriotismo e do livre arbítrio arbitrário e brutal para praticar intimidações e crimes é a grande funcionalidade ou influência doentia desses pseudo profissionais. Os coachs.

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quarta-feira, 6 de maio de 2026

Cocô Coletivo e Outras "Emes"

Demétrio Sena - Magé 

Duvido muito da capacidade cognitiva de quem acredita que: em um país democrático (e laico), um governo mandaria famílias dividirem suas casas com pessoas estranhas, determinaria o fechamento das igrejas, criaria cartilha para que as escolas públicas ensinassem a ser gay; trans... além de tudo, baixaria uma lei para criação de banheiros em ambientes públicos, nos quais pessoas de sexos e gêneros diferentes fariam... cocô coletivo. Todo mundo junto, no local das necessidades fisiológicas.

Falta de capacidade cognitiva, sim, de muita gente... mas na maioria dos casos, falta de caráter. Pessoas que sabem que tudo isso é impossível, notícia falsa, grosseira, mas fingem que acreditam, por conveniência político-partidária e religiosidade fanática; sonsa; conspiratória. Teorias da conspiração que tentam destruir qualquer governo competente, humano e trabalhador que governe para todas as camadas sociais (especialmente os mais pobres), classes e religiões. Pessoas e corporações que tentam desqualificar aqueles políticos que, mesmo em campanhas eleitorais, não chantageiam fiéis nem fazem da religiosidade uma bandeira partidária desonesta, hipócrita, golpista e desigual.

Quer falar de pecado? Não sou religioso, mas vamos lá: segundo a Bíblia na qual você diz que acredita, mentira é pecado. Logo, fingir que acredita na mentira (ou que está em dúvida, mas ao mesmo tempo ajudar na divulgação dessa mentira ou dúvida), também é. No fim das contas: de que adianta você não fazer o tal cocô coletivo, porém transformar a sua língua em intestino grosso desarranjado, que não escolhe hora nem lugar para fazer o seu cocô verbal? Precisamos muito pensar nisto.

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domingo, 3 de maio de 2026

Sobre Arte e Cidadania

Demétrio Sena - Magé 


Posso até não gostar das "pegadas" musicais, mas quando há esses shows pop em Copacabana, com públicos de milhões, e artistas que celebram a paz, a liberdade, os direitos humanos e a diversidade, algo me deixa feliz: saber quantas pessoas não estão socadas em igrejas, fazendo nem ouvindo pregações de ódio, de preconceito, misoginia, intolerância, supremacia religiosa nem mentiras convenientes, naquelas misturas de religião com política extremista, golpista e de bajulação das elites que massacram o povo trabalhador... inclusive, os membros mais simples e trabalhadores dessas igrejas, que pensam que vão pro céu por terem sido capachos na terra.

Tenho a mesma sensação de alegria e conforto, embora quase sempre não esteja lá, quando vejo as mesmas celebrações da paz, da liberdade, o sonho, democracia, o bem viver e a diversidade humana, religiosa, cultural, nos mega eventos folclóricos, musicais e outros, como o carnaval, Rock in Rio e Lollapalooza... só não incluo os eventos sertanejos e gospel, porque esses estão contaminados pelas políticas anti-povo e democracia. No mais, me alegro e conforto ao ver quanta gente não está socada em templos, movimentos golpistas e outros eventos que celebram o fascismo, o massacre dos menos favorecidos, o poder político anti-povo e as elites. 
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