sábado, 11 de julho de 2026

Dos Olhos da Sociedade

 Dos Olhos da Sociedade 


Demétrio Sena - Magé 

Na maioria das vezes, não sei se uma pessoa com quem lido é "bonita" ou "feia". Entre aspas, porque não tenho conceito ótico específico para beleza. Refiro-me aos olhos da cara de uma sociedade que vive do que olha. Não do que vê, exatamente, porque ver é algo bem mais profundo. Foge aos olhos que prioritariamente olham.

Faz tempo que meus poemas românticos não exaltam traços e curvas das eventuais musas. Isso perdeu importância para mim, nos primeiros anos da minha trajetória de poeta, praticamente os primeiros anos de nascido. De alguma forma, eu seguia o curso da poesia romântica em voga naqueles tempos de uma decantação excessiva da "beleza", como não saiu totalmente de voga. Principalmente a "beleza" feminina.

Faço preferencialmente poemas de protesto político e também social, normalmente com as sutilezas que aprendi nos tempos da ditadura, quando eram necessárias muitas metáforas. Hoje podemos rasgar mais o verbo, até xingar, porém me viciei nessa forma de compor. Mas componho poemas românticos. Muitos, mesmo. Nesses poemas, decanto a essência da musa. O quanto ela inspira com a sua índole, sua sensibilidade, a inteligência e outros atributos que não passam pelo crivo dos meus olhos. Os da cara.

Essa ótica da minha poesia romântica não tem lá muita popularidade. A velha exaltação da pele, dos lábios, cabelos, os traços faciais e as curvas, continua no topo da preferência popular de quem consome música e poesia. Mesmo nas artes plásticas, quando retratam pessoas e são para uso doméstico, existe a preferência popular por essa exaltação.

É como todo mundo, nesta sociedade supérflua, olha para o outro. Vai direto à capa e volta, sem dar nenhuma folheada. Não lê sequer o prefácio do ser humano, se a capa não o agrada imediatamente. A essência pouco importa. O livro, a trajetória, o roteiro pesssoal do ser humano valem menos; muito menos do que a pele, os lábios, os cabelos, os traços faciais e as curvas do corpo.

A riqueza material, o poder e a fama fazem parte crucial dessa frente; dessa vitrine; a capa do indivíduo. Tornam qualquer pessoa "bonita", pois a plastificam e fazem encher os olhos de quem olha. É assim que somos, na camuflagem das virtudes gritadas nos palcos, palanques e púlpitos do preconceito e da hipocrisia.
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segunda-feira, 6 de julho de 2026

Pau na Prova

 


Neymares

 


Perdemos a Copa e o Futebol

Demétrio Sena - Magé 

Décadas atrás, quando no auge da sua melhor forma, e detentor do mais belo e convincente futebol mundial, do nada o Brasil decidiu jogar como a Europa: um futebol mecânico, duro e direto ao ponto. Sem arte; sem encanto; sem a coreografia que arrancava risos e culminava em gols inacreditáveis... em pinturas inacreditáveis feitas com os pés. 

O futebol mecânico deu alguns resultados, até que toda a Europa superou as nossas habilidades, porque afinal, tratava-se da Europa jogando o seu futebol de raça contra o nosso futebol vira-lata, que ficou no meio do caminho. Enquanto isso, a França foi descobrindo aos poucos a velha ginga brasileira do futebol, com todo o tempo do mundo para aperfeiçoá-la sem perder a raça europeia no jogo. 

O que vemos nesta Copa do Mundo é a pura essência daquele nosso futebol nos pés da seleção francesa. Estamos nos vendo em campo, através do Mbapé, Dembélé e companhia. A propósito, o Dembélé (lê-se Dembelê) até lembra a introdução vocal do brasileiríssimo samba do cantor e compositor Benito di Paula. Quem não se lembra do seu "diguedê, diguedê, diguedê"? Quase ouço um sonoro "Dembelê, Dembelê, Dembelê! Agora chegou a vez, vou cantar... 🎶".

A Argentina "bate um balão", com o seu estilo nunca mudado; as seleções africanas, com sua força e vontade sincera de jogar, têm feito história... ficam pelo caminho, mas deixam suas marcas.... a França faz essa simbiose, com sucesso e garra, enquanto as outras seleções da Europa se aperfeiçoam dentro das próprias características, com o mesmo sucesso.

O Brasil? Nem o futebol mecânico Europeu nem o futebol magia que se tornou pentacampeão jogando "pelada"; dando show. Revelando craques que assombravam "na hora do vamos ver". Temos ainda craques (lá na Europa), mas nunca mais tivemos um jogador endiabrado, classificado como etê, porque ninguém decifrava o seu jogo.

É difícil saber quem vencerá esta Copa. A partir de agora, ninguém passa vergonha, por não chegar lá. Mas que a França tem tudo para levar essa, isso tem. E se assim for, veremos o nosso velho futebol magia, jogado por outros pés, conquistar uma taça que aquele Brasil que já não somos tinha tudo para conquistar. Seríamos hexa, ou além, se ainda fôssemos nós. 

Talvez ninguém devesse me levar tão a sério; afinal não jogo, estudo nem acompanho futebol no dia a dia. Porém sou poeta, e minha visão de tudo isso é poética. O Brasil ganhava nas copas e nos outros torneios internacionais, porque dominava uma poesia que o mundo não interpretava, nos estádios de futebol.

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sexta-feira, 26 de junho de 2026

Para Engambelar Jesus

Demétrio Sena - Magé 


Sabe-se que agora uma maldade, minutos depois o "louvor". Um despudor e logo após um hino; daqueles hinos bem chorosos ou exaltados. Normalmente uma traição no sábado e a santa ceia no domingo. A sacanagem de todo o sempre, e segue-se um culto. Isso garante o indulto para tudo o mais.

À corrupção indefectível, segue-se a oração... que por sua vez, é seguida religiosa e "relogiosamente" pela pregação completamente oposta. Na hora seguinte, aquela aposta no jogo de azar. Na bet ou "no jacaré; no avestruz". E, infalivelmente, a eterna marcha da hipocrisia... uma grande marcha para engambelar Jesus.

No fim das contas, é evidente que todos fazem suas bandalheiras. Eu; tu; ele; nós... quase no mesmo ato... na mesma voz. E tudo bem (ouvi um amém?) ou que assim seja... mas coisa bizarra e completamente contraditória, é quem ataca: de uma vela pra "Deus", outra pro diabo... um "pé na jaca" e outro na igreja.
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sexta-feira, 19 de junho de 2026

Honestidades Marmóreas

Demétrio Sena - Magé 


Pode-se dizer da grande maioria, que o ser humano é desonesto; com variações de intensidade e tipo. Mas as pessoas honestas, também em grande maioria, são egoístas, mesquinhas e gananciosas. Estão sempre na linha exata, restrita e intransigente da honestidade. O que é seu é seu; e ponto. Não cedem um milímetro do seu direito, seja qual for a necessidade ou até o perigo do outro, em questões que não mudariam em nada suas realidades pessoais permanentes ou momentâneas.

A honestidade fria e cruel desses indivíduos, geralmente conservadores, moralistas e cristãos, é pétrea em relação à lei, mas desconhece a graça do perdão, da empatia e da solidariedade. São aquelas pessoas que escravizavam, quando a lei permitia; que prejudicam a qualquer um, quando se acham legitimadas. Desejam o retorno da ditadura, só para se associarem ao poder público e ajudarem a levar cidadãos opostos ao pau-de-arara, como a lei determinaria que os "cidadãos de bem" fizessem. Os honestos de mármore são capazes de assistir à morte por fome, de um vizinho, porque a lei não o obriga a fazer algo. De abandonar uma filha/um filho à própria sorte, por ele ou ela já ter chegado à idade adulta, e com isso, a responsabilidade paterna ou materna já não ser obrigatória.

Faltar com a ética e a humanidade não é problema para quem segue à risca sua honestidade sem afeto; seu legalismo duro e sem consciência social. Tomar a vaga do próximo... entregar um colega de trabalho para obter benefício... ficar com a maior fatia de tudo e obter privilégios que prejudicam o outro (...) nada pesa na consciência de quem arrota honestidade blindada e, a qualquer custo, garante ou protege o seu direito... ainda que o seu direito seja torto; questionável; de má fé.
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