Mostrando postagens com marcador Amazônia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Amazônia. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 21 de junho de 2016

A FÓRMULA DO CRESCIMENTO

Demétrio Sena, Magé - RJ.


Dispensei o destino. Precisava seguir sozinho, porque já me cansava de ser levado ao léu. De caminhar sob um céu distante, sem qualquer ponto cardeal. Sem a mínima ideia do próprio por quê. Esculpi um lombo e dei de presente ao desejo de um dia chegar ao abraço que desejo sentir. Ao sorriso que mais quero arrancar de um rosto. À palavra que sonho ouvir de uma boca em perfeita sintonia com o universo da entranha. É assim que pretendo regar os caminhos de reger a sina e subir uma escada que me leve à laje de onde poderei ver o mundo com bons olhos.

Resolvi ajustar minha idade ao seu tempo real. Cheguei aos termos da urgência de fazer com que a fé inútil, surreal ganhe corpo e textura que a minh´alma possa remexer e recompor de acordo com as carências acumuladas ao longo desta missão que ainda não defino. Tenho esse desejo profundo, incontornável de ser mais do que apenas alguém. De ser alguém menos algo após tanto viver. Quero ir bem mais fundo, para ter a certeza do que ainda suponho: de que uma vida compensa os seus perigos, e o perigo fatal se resume a não assumi-los.

segunda-feira, 2 de maio de 2016

CONFISSÕES


Demétrio Sena, Magé - RJ.


Para me aprofundar nas amizades com quem mais me cativa, o parágrafo único de minha lei é que tais pessoas sejam da mesma faixa etária que eu. Sendo assim, tenham boa visão do mundo e considerável grau de vivência; de compreensão das complexidades do ser humano. Sobretudo, condições de não confundir ou distorcer as minhas esquisitices.
Advogo em causa própria, pois tenho muitas esquisitices. Uma delas é a já citada classificação etária por natureza de relação e comportamento. Passei anos e anos tentando vencê-las, mas na verdade fui vencido por elas. E ao me permitir o aprofundamento nas amizades em questão, me torno confidente. Deixo de me obrigar certas composturas e confio plenamente no outro, como confio na confiança plena que o outro tem em mim.
Evidentemente, as tais amizades também têm seu parágrafo único: a opção de jamais se deixar aprofundar. Ou de retornar ao estágio comum; trivial. Sem maiores demonstrações de afeto, confiança, cumplicidade ou entrega. Só a leveza dos cumprimentos, das conversas breves, dos encontros ligeiros e casuais; a simpatia; o coleguismo.
A máxima de que é preciso saber viver passa por aí. É preciso saber com quem se lida; em quem se confia. Quem confia em nós, até quando e onde. Saber entrar, sair e transformar uma relação. Toda forma de amor e amizade vale a pena, se a nossa carência for seletiva, observadora, criteriosa e de brio.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

RECRIME AMBIENTAL

Demétrio Sena, Magé – RJ.

Sem nenhuma intenção de ofensa, e sim, do reconhecimento e o elogio, classifico a arte do grafite, que é uma excelente arte, como praticada por pichadores evoluídos. Grandes artistas que não se acomodaram com a classificação e a sujeira de uma prática marginalizada e sem honra. Decidiram que desejavam mais, muito mais, e ganharam as ruas, os bairros, as cidades, o país e o mundo. Ainda existem os pichadores, como ainda existem animais bem próximos de como eram, em sua total natureza, na pré-história.
Vejo da mesma forma os artistas que descobriram a prática de fazer do lixo algo precioso, belo e dignamente rentável, por transformá-lo em arte. Sei de muitos outros destinos nobres que o lixo ganha, inclusive no campo da indústria, mas hoje falo de arte. Quem recicla para produzir obras de fato criativas, dignas de apreciação, estudo, geração de renda e outros usos, passando pela durabilidade, pode se orgulhar de ser um artista. Os que utilizam o lixo para produzir lixo diferente, que logo será também atirado nos lugares de onde foram extraídos, voltando a poluir, talvez ainda mais, não são artistas. Na verdade, são como aqueles pichadores que não evoluíram. Não descobriram a arte genial do grafite, e por isso ficaram na idade média da criatividade.
Existe muita matéria que a indústria reutiliza com sucesso, a exemplo das garrafas pet; mas para tanto, é necessário que as matérias estejam exatamente como saíram da própria indústria, para que os coletores a recolham e consigam vender. Quem faz uma florzinha que logo estará empoeirada, inválida e desagradável aos olhos, tira do coletor a chance de fazer renda, e da sociedade - da qual faz parte -, a chance de reduzir o acúmulo de lixo nos rios, mares, mangues e bueiros mundo afora. Com isso, diminuímos a chance de um mundo menos sujeito a doenças, enchentes e outros desastres que se unem aos naturais. A única justificativa cabe aos que não têm nada, nem mesmo a florzinha, e por isso a fazem para deleite próprio; quiçá para ganhar uns trocados.
Qualidade de vida exige qualidade de tudo o que fazemos. Isso envolve critérios e projetos. E se vamos fazer arte reciclada, não cometamos o “recrime” ambiental - com requinte de crueldade - que será transformarmos lixo em arte para só depois concluirmos que nossa arte é um lixo a ser devolvido inútil, sem qualquer chance de reaproveitamento, aos lugares indevidos de onde vieram.