segunda-feira, 5 de outubro de 2026

Poesia para enfrentar o caos

Demétrio Sena - Magé 

Continuarei a cultivar poesia. Poesia para calar a alma, pasma de susto. Para conter uma indignação profunda; um nojo intenso. Para enfrentar o medo inevitável do futuro sombrio que as elites preparam justamente para o povo que a endeusa e aclama. Um povo bisonho, sem brio, sem talento pensante. Um povo lenha que vota no machado; povo galinha que vota na raposa; um povo barata que vota no "baigon", no chinelo e na isca.

Se ainda tenho esperanças na eleição de Lula? Tenho. Mas com temor de um congresso ainda mais inimigo do povo: os trabalhadores, as classes menos assistidas. Esse congresso montado para continuar fazendo leis em benefício próprio e dos grandes banqueiros, empresários e sugadores da mão-de-obra de quem já se acostumou a ser escravo e dizer "sim, senhor" a quem o escraviza. Tenho esperanças no talento sobrenatural de um presidente que inicia um projeto de país melhor para todos, dá andamento, mas as classes mais beneficiadas por ele sempre o traem, devolvendo direta ou indiretamente o país aos destruidores de cidadania.

Seguirei com poesia para enfrentar o caos, a distopia, o submundo da fé de má fé, do fanatismo e do amor pelo ódio às diferenças. Poesia que doravante poderá me custar o pau-de-arara, a inquisição e as proibições mais bizarras, como de pensar por conta própria, cultivar as artes e a literatura reflexivas... o senso crítico e a manifestação social. Não tenho como abrir mão da poesia. Ela me salva desde que me vi como gente.
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Frutos possíveis


 

quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Perca o medo, a preguiça, e corra o risco de ler e repensar

 Perca o medo, a preguiça, e corra o risco de ler e repensar 

Demétrio Sena - Magé 

Eu não quero que todo mundo se lasque porque já estou resolvido, já vivi o que tinha que viver e fiz o que me deu "na telha". Nem ligaria meu "que se dane", por despeito e vingança contra o mundo, se também estivesse "todo lascado". Meu voto no Lula para presidente segue o que penso e sinto: pelas minhas filhas, meus sobrinhos, os netos de meus irmãos, meus alunos... nossos herdeiros de um país que há poucas décadas era uma ditadura militar. Um país cujo governo fazia o que bem entendesse; cujo povo só tinha que obedecer e calar, sem direito a opinião, pensamento crítico, educação, cultura e direitos trabalhistas.

Na gestão passada, quase afundamos em uma nova ditadura. O governo atroz, repugnante, corrupto e truculento que antecedeu Lula preparou o terreno em seus quatro anos puro desmando, para um golpe que por bem pouco não deu certo. Se tivesse dado, estaríamos hoje como na ditadura militar. O pior de tudo é que ele contava - e ainda conta! - com um rebanho de fanáticos dispostos a sofrer qualquer chibata pelo mito agora preso, sua família e seu grupo. Esses eleitores do mal, que na verdade são bois castrados metidos a touros - e "touras" - brabos de uma elite à qual não pertencem, mas pensam que sim.Viram - e muitas vezes sofreram - todas as desgraças daquele governo, mas permaneceram fiéis; lunáticos; dominados por discursos nacionalistas, pregações, orientações e ordens religiosas sobre um prodigioso reino além como recompensa. Reino além para os pobres, mas um reino prodigioso, farto, aqui mesmo, para seus ícones políticos e líderes religiosos sedentos de poder.

Tenho vida modesta, poucos bens, poucos anos de vida pela frente, mas estou bem resolvido. Entretanto, quero deixar para esta geração e para gerações futuras, um país democrático; de todos. No qual o trabalhador não perca, e sim, ganhe cada vez mais direitos. Um país onde o mais pobre seja visto e tenha oportunidades, obtendo auxílio enquanto as oportunidades não chegam. País em que as mulheres tenham respeito e paridade; crianças e jovens humildes tenham acesso fácil à educação, à cultura de qualidade, ao trabalho compensador no salário e com cargas horárias perfeitamente humanas. Em que o idoso não seja menosprezado e o portador de deficiência seja incluído na sociedade como um todo, sem sofrer nenhuma forma de bullyng, sendo chamado, por exemplo, de "nove dedos".

Lula não é perfeito, é passível de atos falhos e de falas que podem ser distorcidas com facilidade... comete seus erros, mas é um presidente humano; preocupado com os menos favorecidos; os invisíveis sociais; com a pressa que a fome tem, de providências imediatas. É preocupado com a fomentação das artes, dos talentos escondidos e o respeito a todas as crenças, as não crenças, todos os gêneros e classes sociais e cidadãos de todas as idades. O melhor de tudo, é um governo que sabe trabalhar e fazer prodígios com um congresso inimigo não apenas dele, mas também inimigo do povo. Imagine o Lula reeleito, com um congresso do bem a seu favor; não apenas das elites.

Precisamos reeleger Lula, 13, presidente do Brasil. Precisamos eleger (e reeleger) deputados, senadores e governos estaduais da esquerda, para junto com Lula darem seguimento ao projeto revolucionário de um país de todos; para todos. Onde cada pessoa, por mais simples que seja, é um cidadão/cidadã com direito a vez, voz, opinião própria e pensamento crítico. Crítico; não destemperado e truculento; não atiçado por donos de seus pensamentos, sentimentos, passos, crenças, ideologias. Não custa nada repetir, para que você reflita livremente, sem pressão, no que acaba de ler. Lula 13.

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terça-feira, 29 de setembro de 2026

Um ensaio de humanidade

 Um ensaio de humanidade


Demétrio Sena - Magé 

Há dias em que a hipersensibilidade tátil de quem a tem vira uma tortura, e surge a necessidade de ficar só. Carícias causam cócegas intensas, o toque leve de um galho faz arrepiar de "arrelia" e qualquer peça de vestuário aperta; sufoca: vira camisa-de-força; calça-de-força; vestido; saia; sutiã; calcinha; calçado; cueca-de-força. Se a pessoa usa gravata, vira gravata não de força; e sim, de forca. 

Quem passou a vida inteira, chegou à meia ou terceira idade sem qualquer acompanhamento profissional, mas nunca deixou esse transtorno pessoal virar transtorno alheio, pode se orgulhar. Houve realmente um tempo em que nenhum transtorno era visto como tal; ninguém sabia que dava para se cuidar. Era tudo reduzido a silêncio, remorso e medo, a depender do caráter de cada um.

Quando a ht está mais aguda, separar momentos próprios, consigo mesmo, para vivenciar-se despojado e livre de todos os gatilhos, pode ajudar a suportar o dia a dia em sociedade ou no compartilhamento restrito; familiar. Ninguém entenda este texto como orientação profissional; não sou médico ou terapeuta. É apenas o desejo sincero de ajudar alguém a não se sentir tão só.
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segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Sobre cordeiro e predadores

Demétrio Sena - Magé 


Tá bom; você vai votar no Lula, para presidente. Já é um ótimo começo. Tem mesmo que ser Lula. Mas vamos fazer uma breve analogia. Digamos que o Lula seja um cordeiro. Votando nele, você põe o cordeiro no Planalto. Está devidamente alojado.

Mas o cordeiro tem predadores; entre eles, os lobos, que vivem à procura de uma chance para pegar o cordeiro. Aí você vota para deputados, senadores e governo estadual, justamente nos predadores. Na oposição. Nos partidos contrários ao perfil do partido do cordeiro, que atua em favor dos trabalhadores, dos mais pobres e desassistidos, da educação, a cultura e a democracia, enquanto seus opostos, ou predadores, atuam somente pelos patrões; pelos ricos; os opressores; as elites.

Foi o que aconteceu, quatro anos atrás, quando elegemos Lula para presidente, mas também elegemos deputados e senadores contrários ao Lula, suficientes para formarem maioria no congresso (Câmara Federal e Senado). Sem contar os deputados de cada estado e governadores, que nas horas convenientes unem-se aos lobos do congresso, para impedirem o cordeiro. Cada vez que Lula surgia com uma lei ou projeto em favor dos pobres, trabalhadores e outras classes desfavorecidas, os lobos atacavam contra, para impedir. Fizeram da rotina do Governo Federal um verdadeiro inferno.

Lula fez milagres para conseguir o possível, com tanta oposição. Quando conseguia, tinha que ceder onde não desejava, pois eram contrapartidas ruins para o país. Durante todo o período, o governo esteve na corda bamba. Poderia ter feito muito mais (e tentou insistentemente), mas os dentes dos lobos rangiam e chantageavam: "Quer isso para o povo? Queremos aquilo e mais aquilo para os empresários, nós mesmos e outros grupos da nossa panela!".

Não podemos repetir isso. Vamos reeleger Lula para presidente, mas com um congresso a seu favor. Deputados e senadores da esquerda; com os mesmos projetos e os ideais de Lula. Não suportamos mais, esse congresso inimigo do povo.
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sábado, 26 de setembro de 2026

Mundos atípicos

Demétrio Sena - Magé 

Confiar, no contexto insano do inusitado; respeitar, no sentido pleno do improvável; ter segurança, nos desvãos do escuro e da insegurança que aprendemos a ter por ter. Ou pela criação (compreensível) para termos medo do mundo. Ver no ser humano atípico (não me refiro a laudo), a possibilidade ampla de uma relação harmoniosa e sem "pé atrás"... onde normalmente não é "possível".

Pontualmente consigo idealizar essa possibilidade, ao perceber que alguém mora, dentro de si mesmo, em um mundo parecido com o meu. Alguém atípico, ou quase, como eu, na forma de olhar o mundo externo. De avaliar as pessoas muito além dos comportamentos formais e obrigatórios e das crenças, dos conceitos e hábitos alinhados por ensinamentos que se repetem "desde a fundação do mundo", como os únicos; porque são coletivos.

Já garimpei algumas pessoas atípicas como eu e tive laços dissociados do secular: inusitados, improváveis, incompreensíveis... inaceitáveis para os formatos estabelecidos ao redor. E muita gente "típica" me garimpou, entendeu e sentiu comigo a leveza do que sempre pesou nos conceitos estabelecidos por correntes; tradições; crenças; leis coletivas; hábitos esculpidos.

O mundo não tem que ser sempre o mesmo, para quem é capaz de manter o próprio mundo e dividi-lo com alguém. Ou até para quem não tenha esse mundo próprio, porém seja capaz de identificar e se inserir no mundo próprio de alguém. Há momentos que valem por todo o tempo restante, até que voltem a ser possíveis. Esses momentos nos ajudam mais do que terapias comuns.
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segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Sobre originalidade

Demétrio Sena - Magé 

Se existe algo que me incomoda é não ser original. Ter uma ideia, desenvolvê-la cheio de mim, expor o produto e depois descobrir que alguém já tivera essa ideia. Mesmo não sendo plágio, e sim uma ideia semelhante, é incômodo para um sujeito besta como eu, ter uma ideia semelhante à de alguém. 

Recentemente achei que tive uma ideia genial, na composição e edição de um trabalho fotográfico. Compus um cenário, fotografei, editei caprichosamente com ferramentas de aplicativo fotográfico e fiquei todo bobo. Não demorei a descobrir que alguém já tivera essa ideia. Com cenário e fotografia diferentes, mas a mesma ideia. Isso me frustrou bastante; retirei a publicação, que não me causaria problema, pois não era um plágio, mas não ser original na própria ideia mexe profundamente com os meus brios.

Não consigo entender quem se orgulha de repetir uma fórmula de projeto. Eu me torturo com isso. Mas existe pior: não consigo aceitar que alguém se orgulhe de um plágio (mudar o processo de uma obra já existente e chamar de sua). E existe pior ainda: simplesmente expor a obra de alguém sem citar a autoria. E bem mais grave, expor e assinar o próprio nome. Achar-se com a prerrogativa de se tornar o dono/a dona dessa obra.

Existem as coincidências (compor, pintar, fotografar, escrever algo semelhante), mas precisamos ter o hábito de desconfiar de nós mesmos, quando algo nos incomoda no que fizemos. Há grande chance de uma coincidência ou "plágio coincidencial". Retirarmos uma postagem será fácil, depois de pesquisarmos (ao desconfiamos de nós)... mas como fica, se fizermos um livro, uma exposição de artes em local público, com um ou mais plágios, por termos ligado o "que se dane" ao percebermos algo estranho em uma de nossas obras?

Sim; existem as coincidências ou os "plágios coincidenciais". Mas tem que haver a consciência do certo, errado, adequado, inadequado, antiético, ético ou criminoso. Quem vive de "cometer coincidências", e por isso as normaliza, não se policia, torna-se plagiador ou copiador costumaz. É um pulo. 

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sábado, 19 de setembro de 2026

Terrivelmente terríveis

Demétrio Sena - Magé 

Já faz tempo que está em moda (terrível moda), o termo terrivelmente evangélico. E nisso, os evangélicos que assim se declaram realmente não se degeneram em relação ao termo. Eles de fato são terríveis. Têm demonstrado que são capazes de qualquer atrocidade, sob a terrível desculpa de que são autorizados pelo suposto Deus; ungidos por Ele, façam eles o que fizerem de bom ou mau.

Excluem, julgam e condenam com critérios duvidosos; fecham todas as portas para quem não os obedece; atacam outras religiões, inclusive com violência física e depredação. Também transformam seus templos - lugares de culto e adoração ao seu "sagrado" - em palanques políticos eleitorais, sempre com candidatos que lhes prometem poder terreno; força para destruir todas as comunidades, crenças, não crenças e grupos ideológicos opostos. 

Muitos ainda maltratam esposas e filhos (pela força ou pela dominação verbal) em nome de velhos critérios bíblicos distorcidos. Mentem para proteger seus pupilos políticos, e quando esses políticos cometem atos condenáveis, costumam dizer que "pelo menos são cristãos"; como se o cristianismo lavasse caráter como se lava dinheiro; especialmente o dinheiro público.

A lista não acaba: em favelas, existe até a proteção de traficantes às igrejas evangélicas. É o caso do Peixão, no chamado Complexo de Israel, no Rio. Ele protege as denominações evangélicas impedindo que outras religiões professem sua fé e se instalem. Peixão lê a Bíblia e mata; louva e mata; ora e mata "como o Rei Davi" e se proclama um homem de Deus, ao mais terrível estilo Velho Testamento.

Terrivelmente evangélico é mesmo ao pé da letra. Se existe exceção? A exceção é o não Terrivelmente evangélico. Grupo muito pequeno, que não se levanta contra as práticas terríveis dos "Terrivelmente". Só não fazem as mesmas coisas; calam; deixam "nas mãos de Deus" a missão que "Deus" deixou em suas mãos. Devolvem as responsabilidades. E isso não deixa de ser terrível. Terrivelmente terrível.

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quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Lula

 


Roda-viva mortal

Demétrio Sena - Magé 


Mais do que nunca (ou então do que sempre), a sociedade como um todo sofre, sendo vítima de quem um dia foi sua vítima inicial: por desamparo, preconceito, arrogância e negligência. Mas a sociedade jamais aprende: continua fazendo vítimas que sempre voltarão para fazer da mesma, essa vítima de quem ela faz vítima e logo depois se torna. Isso é uma interminável roda-viva mortal.

É algo notório e sociológico: existem tanto a vítima estrutural (inicialmente o lado mais frágil) quanto a vítima retroativa ou por estorno (vítima da primeira vítima), numa disputa insana que as torna vítimas rotativas uma da outra. Trocar o conceito ou contexto de vitimado por vitimizado não cabe a nenhuma das margens. Muito menos à margem que, desde sempre, já é mesmo marginalizada.

No fim de tudo, a sociedade é sua própria vítima, porque sempre viveu dos guetos que ela produz. Os guetos criam sub-sociedades à margem dos olhos majoritários e se organizam. De vítimas, tornam-se algozes, fazem vítimas onde se tornaram e jamais conseguiram se libertar: são vítimas terminais das próprias vítimas que são, enquanto seguem tentando ser algozes de seus algozes iniciais.
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sábado, 12 de setembro de 2026

"Ressalmo"

Demétrio Sena - Magé 

Bem aventurado, mesmo, é o varão que não anda segundo os conselhos do pastor vendido para políticos. Não se detém no templo dos corruptos e corruptores... nem se assenta na roda dos negociadores de votos dos fiéis. Antes tem o seu prazer de cidadão esquerdista que acredita na liberdade, no amor, e medita de dia e de noite sobre o bem comum... no melhor para todos... na beleza da diversidade humana que abraça todos os povos; etnias; religiões; ideologias livres e sinceras, conforme o entendimento e a escolha de cada um.

Esses realmente serão como árvores que dão frutos saudáveis. Que oferecem sombra capaz de refrigerar as mentes; almas; corações. Sombra que acolhe sem preconceito, as etnias infindas, as religiões incontáveis, a não religião, todas as classes sociais, orientações e gêneros. Nem tudo quanto fizerem prosperará, porque os maus estão por aí; os extremistas nunca cessarão as armadilhas... e os falsos líderes religiosos, que sempre oferecem seus rebanhos em sacrifício aos maus políticos, nunca desistirão de estabelecerem seus paraísos particulares na terra.

São assim os ímpios "igrejados". De um lado os que dominam; do outro os que são dominados, por preguiça de sentir, pensar e caminhar por conta própria. Espero que os lobos em pele de cordeiro sucumbam nas urnas e o rebanho desperte a sua cidadania. Quando a própria igreja, em parceria com o poder terreno, torna-se a roda dos escarnecedores, o alerta é que passou da hora de os verdadeiros cristãos não se assentarem mais nessa roda. Ou em última instância, o que acho impossível, remodelar ou recontextualizar a roda.

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sexta-feira, 11 de setembro de 2026

Gatilhos

Demétrio Sena - Magé 


Sempre me vanglorio de não ser uma pessoa depressiva. De não ter crises de ansiedade ou algo semelhante. Mas me esqueço de alguns gatilhos que me desesperam, embora eu saiba me resolver, logo depois do impacto.

Tenho medo, por exemplo, de ser abandonado, em passeios com mais pessoas, a lugares muito cheios. Fico todo o tempo vigiando o guia ou motorista. Se não o vejo por um momento, meu coração dispara. Não vejo mais ninguém. Tudo gira. É uma lembrança de quando eu era bem pequeno e minha mãe se perdeu de mim em uma feira de Brasília. Ou eu dela. Só fui encontrado no fim do dia, chorando em desespero e já me dando por completamente perdido. 

Quer me deixar suando frio e com o peito apertado, a respiração difícil? Deixe-me sozinho em qualquer ambiente, com algo de valor que não seja meu. Em minha infância e na adolescência, em razão da minha cara de culpa, meu cabelo desgrenhado de culpa e minhas roupas andrajas ou molambos de quem tem culpa, muitas vezes fui suspeito de roubo.

Minha sorte foi que os sumiços (nunca foram roubos) foram sempre desvendados, porque se dependesse do meu aspecto, eu teria sido recluso em um colégio interno, como eram chamadas as instituições para menores infratores. Até hoje, ao ficar sozinho entre objetos de algum valor, tenho medo de que algum deles crie pernas ou asas, e suma, me deixando em sérios apuros. É um sofrimento que só eu sei dimensionar.

Por "não ter Deus no coração", sendo reconhecidamente ateu, muitos acham, inclusive familiares, religiosos ou não, mas que publicam versículos em redes sociais, que sou capaz de coisas horrendas: até de minha presença, pura e simplesmente, agravar a doença de uma pessoa querida que não está bem. Isso também é um gatilho; morro de medo de me aproximar de alguém prestes a morrer, e depois sentir nos olhares, que a minha presença foi a causa.

Quando me vanglorio de não ser depressivo, é porque logo me resolvo: desarmo meus gatilhos, consciente das lembranças marcantes e, em muitos casos, do preconceito e da ignorância que me cercam desde a mais tenra idade.
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Tempo


 

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Sobre o 13

Demétrio Sena - Magé


O meu voto é por mim e pelos meus,

pelo povo que às vezes nem percebe,

mas que bebe fiado a própria dor,

pra tentar esquecer que a dor existe...

Vou às urnas por mim, por minha gente

que trabalha igual bicho para monstros

cujas mentes estão em seus umbigos

e nem sei se têm alma e coração...

Voto contra barbáries, ditadura,

contra quem oferece os meus direitos

à loucura de um Hitler reciclado...

Pra manter este sonho de país,

ser feliz e trocar esse congresso

inimigo voraz do bem comum...

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segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Glórias ao Rock In Rio

Demétrio Sena - Magé 

Eu também estaria lá no Rock in Rio, se pudesse. Pelo menos hoje, quando me emociono, via tevê, com Vanessa da Matta, Roupa Nova, Guilherme Arantes, Luiza Sonza junto ao Roberto Menescal, e ainda o Gilberto Gil. Mais tarde verei o Elton John. Ontem, o Jota Quest me levou às lágrimas, quando convidou o Tony Tornado para dar um show de alegria, energia e talento, aos 96 anos. Alguém quer falar de bênçãos?

Todo mundo cantando o amor; celebrando amizades; de corações abertos gritando a paz. Isso para mim é culto; é a verdadeira religação com todos os possíveis sagrados que nenhum livro manipulado explica. E quando alguém decide protestar, é justamente contra maldades, guerras, injustiças, desigualdades sociais, preconceitos religiosos e domínios; escravidões ideológicas.

Não troco estes momentos por nenhuma sessão de homilias, orações e louvores denominacionais dentro de uma igreja. Porque lá nas igrejas, bem sabemos quais, estão promovendo corporativismo contra os menos favorecidos, dominação ideológica, religiosa, de proteção da bolha e ódio; perseguição contra o mundo restante. Pior de tudo, oferecendo palco a políticos extremistas e corruptos.

Rendo glórias ao Rock In Rio, na língua dos anjos! Aos que dão shows no palco e na plateia! Grito em silêncio, aqui dentro de mim, "ribalábalá" em homenagem aos momentos de arte, união, alegria, entretenimento e paz, nessa festa que me anima e renova minhas esperanças! Tudo por saber que nem todos estão nos templos onde os inimigos do povo se fortalecem para conspirar contra o nosso país. 

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Minha tábua segura

Demétrio Sena - Magé 

Sinto que você me conhece, vasta e profundamente, no amplo desconhecido em mim. Sabe ler o silêncio do meu inusitado e decifrar cada segredo que jamais conto; as mais inconfessáveis confissões que nunca faço. Entende muito bem o ininteligível das escritas de minh'alma; das escrituras profanas - e submersas - deste meu testamento afetivo.

Decifro que seu olhar me decifra como nem eu faço. Que sabe do que não sou capaz, a partir do que sou. Confia no que não entende, na certeza do incerto que abona minha índole. Aposta no meu eu sobre você, com a segurança de quem se atira completamente no abismo e deixa estar. Vê bem claro no meu sombrio e não teme o temerário do que não vê, pois intui a lisura com que sou quem sou.

E você me comove com o que não diz, mas me assegura do quanto eu ouço nesse não falar. Tem um eco sincero, inquestionável para os meus gritos de socorro engolidos pelo não pedir que me faz tão pedinte. É a minha tábua segura, na insegurança do mar que não sei domar aqui dentro. 

Vejo você tão próxima, mesmo à distância. Tão íntima, embora sem intimidade. Sinto-me compensado por tudo que, no fim das contas, nada. Mas que me completa e satisfaz, numa completude incompleta; numa satisfação insatisfatória. História escrita sem caneta, mão e papel. Só pela intuição afetiva. No sonho acordado em que sou grato por sua existência.

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sábado, 5 de setembro de 2026

Cidadão nada e ninguém

Demétrio Sena - Magé 


Não é a favor nem contra seu velho pai, que sempre bateu em sua mãe, nem contra ou a favor de sua mãe, que apanha do seu pai. "Isso é da vida"; logo, ele é neutro. Jamais condenou a justiça, quando é injusta com os menos favorecidos, iguais a ele, mas também jamais condenou os menos favorecidos iguais a ele, por serem injustiçados; mesmo porque, até hoje não foi ele o injustiçado.

Da mesma forma não julga o patrão por explorar o trabalhador, como também não julga o trabalhador por ser explorado pelo patrão. Entende quem desmata e quem luta contra o desmatamento; elogia o policial honesto e o miliciano. Agrada os políticos de todos os lados, e nas eleições, vota em qualquer um, porque "todos são iguais". "Dança conforme a música" e não quer ficar mal com os bons nem com os maus.

Um malandro bobo que sempre se atrapalha e ajuda na vida boa dos piores malandros do poder. Para ele tudo bem que os poderosos trabalhem pela sua classe ou pelos eternos exploradores, porque "dá no mesmo", em sua opinião. Aliás, ele nem tem opinião formada; opina conforme a opinião mais "malandreada" ou escorregadia do momento, com quem converse.

"Não é esquerda nem direita". Nem frio nem quente. Bom nem mau. É de classe medíocre metida a média, que se julga rica. Beija uma mão aqui e come na outra acolá. É aquele típico cidadão chuchu, que absorve qualquer gosto, cheiro ou textura. Nas campanhas eleitorais, nunca declara de que lado está, porque um dos dois ganha, e... "como ele fica nessa?".
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sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Sobre as aspas da ruína

Demétrio Sena - Magé 

Algumas "coragens" e "adrenalinas" cabem perfeitamente nas aspas, porque são estúpidas, de tão imprudentes. São casos de uma estupidez bem própria da juventude, mas cada dia mais pessoas maduras também caem nessas armadilhas.

Muitos indivíduos estão presos ou morreram antes da hora, porque foram muito "espertos"; "descolados"; "ousados" e sem limite. Aspas e aspas, porque só foram mesmo sem limite. Embarcaram em barcos à deriva por influências externas, achando que foi por índole ou personalidade própria. Entraram, depois não puderam sair, pois com o tempo, ninguém sai de algumas situações.

Uma vida sem projeto, na qual tudo é feito por impulso e à base do tanto faz, não costuma ser longa. Ou é, mas de alguma forma que a pessoa não morre, como também não vive. A inteligência de quem pauta sua vida pelo cuidado, a observação e o critério, pode salvar sua integridade ou a própria vida. Só existe uma grande chance de futuro para quem aceita que nem tudo é "pra ontem".

A verdade não é outra: onde existe um excesso de "coragem", de "adrenalina", "esperteza", "descolamento" e "ousadia" - vide aspas -, falta inteligência. Quem não conhece o começar de novo, em novo ritmo, nada sabe da própria vida.

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quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Nem no muro nem camuflado: esquerdista

Demétrio Sena - Magé 


Sou cidadão esquerdista. Como ser social, ativista e pensante que sou - principalmente pensante -, não tenho como não ter lado. Seria conveniente, mas covarde. Auto protetor, porém socialmente preguiçoso; cagão. Uma tentativa nojenta de fazer média com ambos os lados, para não sofrer perseguições presentes nem futuras, com a eleição de seja lá quem for.

Cidadão esquerdista se posiciona. Declarar-se "nem esquerda nem direita" é atitude rasteira típica de bolsonarista incubado. Pior do que os bolsonaristas confessos que já perderam toda vergonha de quem são. Cada um desses lamentáveis "nem esquerda nem direita" é um voto invariavelmente a mais, ainda que não vote, para candidatos da extrema-direita. Esses, após eleitos, ao fazerem covardias contra o povo, realmente não ligarão se o pobre prejudicado é da esquerda ou direita. 

Não confio em quem não é nada (nem esquerda nem direita não é nada), tanto quanto não confio em quem declara que não há consciência negra, e sim, consciência humana. Só mesmo quem não tem consciência social põe panos quentes no racismo, com essa história de consciência humana, etnia, raça humana... tudo enquanto as minorias amargam todos os preconceitos. Sofrem todas as exclusões e destinações possíveis ao gueto, nos mais variados contextos e nominatas de sociedade.

Esquerdista, sim. E se a extrema direita vier a triunfar nas eleições, enfrentarei com orgulho as consequências de minha exposição identitária. Da certeza sincera de quem sou. Tenho certeza de que minhas filhas, alunos e alunas, para quem mais quero ser exemplo, esperam isso de mim. Mesmo quem não concorda, e vive, pensa e vota diferente, mas me tem em alta conta, espera isso de mim.
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quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Igual poema do Bandeira

 Igual poema do Bandeira

Demétrio Sena - Magé 

Depois de um enfarto quase fulminante, a senhorinha deu entrada em estado grave, na sala vermelha. Em dois dias, lúcida e falante, já estava na sala amarela, onde aguardava um cateterismo. 

Feliz da vida, e obviamente sem o consentimento do pessoal da enfermagem, teve acesso secreto a salgadinhos e doces, na enfermaria. Fez um piquenique altamente calórico, às escondidas, com a pessoa irresponsável que foi visitá-la.

Na madrugada seguinte, voltou à sala vermelha, em estado crítico, aos gritos e com extrema dificuldade para respirar. Era um novo enfarto. Não tivemos mais notícias suas, até o dia em que deixamos aquela unidade de saúde, para o cateterismo que ela faria antes de minha esposa.

Esse episódio me lembrou o poeminha Notícia de jornal, do Manuel Bandeira. Espero que depois de toda a farra ela não tenha, metaforicamente, mergulhado na Lagoa Rodrigo de Freitas. 

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quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Entre a dor e o afeto

Demétrio Sena - Magé 

A Cláudia e sua filha Thati, acompanhante; poucos dias depois, no mesmo leito, a Dona Nicea, de 84 anos, e a sua filha Fernanda, também acompanhante. Em outra baia, dona Valéria, que chegou sozinha, passando muito mal, mas no dia seguinte circulava por toda a enfermaria e logo se tornou amiga de todos - ou quase todos - os pacientes.

Todas essas pessoas, pacientes e acompanhantes, marcaram positivamente os dias duros e difíceis de minha esposa, internada à espera de um cateterismo. No "mesmo barco", foram apoio, exemplos, emprestaram seus ombros e ajudaram nos picos de ansiedade. Depois dos profissionais de saúde, o que essas mulheres - até a dona Nicea, com sua serenidade octogenária - representaram para a Eliana foi determinante no seu processo de espera e melhora.

Para Minha filha Nathalia, que revezava comigo os dias e as noites de acompanhantes, e também para mim, tudo resultou novos laços de afeto. Fizemos boas e relevantes amizades. Laços que representam o que há de melhor no ser humano, porque surgiram de momentos profundos. Da solidariedade, da empatia e do sofrimento em comum.

terça-feira, 25 de agosto de 2026

Coisas do coração

Demétrio Sena - Magé 


Enfarto. Causa muito vezeira de internações em emergências. O Fernando chegou mal. Uma correria de maqueiros e familiares, naturalmente ansiosos pela condição do paciente. Todo mundo entrou junto, completamente fora do protocolo. Estávamos no Hospital Santa Tereza. Minha esposa tinha entrado para um cateterismo e fui eu quem viu essa correria.

Minutos depois de o paciente ser levado, os familiares voltam. Todos com semblantes alarmados, falando alto, e seguem para uma pequena sala, na qual eu também ficaria esperando por notícias do procedimento de minha esposa. Lá dentro eu soube que não estava entre os familiares do Fernando, uma pessoa em especial, e por uma razão também muito especial. 

Uma das duas irmãs do paciente não o acompanhou, porque ele sofreu o enfarto em uma discussão acirrada com ela. Por um momento infeliz, Entrou na unidade hospitalar um coração enfartado. Ficou em algum canto, um coração espremido, em razão do desfecho de uma discussão que fugiu ao controle. Espero que ambos fiquem bem. E que façam as pazes, quando isso passar.

sábado, 22 de agosto de 2026

Dívida imensa

Demétrio Sena - Magé 

De todas as razões que tenho para ser grato a pessoas raras e bem específicas, a maior delas é a confiança depositada em mim. Não é fácil para ninguém, numa sociedade padronizada, confiar em quem foge aos padrões. Quem não arrota discursos conservadores nem tem práticas religiosas. É despojado, exposto, ateu, anti-preconceitos. Mas que apesar de todos os defeitos, as manias e até as esquisitices, é  incapaz de fazer mal... de arquitetar tramas para causar dano ao próximo e obter vantagens indevidas... vantagens pelas quais alguém eventualmente amargue alguma desvantagem em qualquer escala.

Quando preciso que façam algo por mim, e tantas vezes preciso, minha gratidão é imensa. Nunca sou ingrato (esta é uma de minhas raras virtudes). Mas até nos momentos difíceis, em que sou ajudado a passar por eles, pelo que mais agradeço a quem me ajuda é a confiança que faz esse alguém se solidarizar com uma pessoa tão complexa ou atípica em relação à ordem natural das coisas... ao comportamento natural das pessoas... ao que foi desenhado para uma civilização criminosa e que, por isso mesmo, carece de tantas regras, rótulos e "letras miúdas" ou propagandas externas enganosas.

Obrigado a seja lá quem for, com quem eu não precise temer pelo meu eu. De quem eu não precise me ocultar como quem sou. Que me veja mais profundo ao me olhar. Ninguém pode contar com todo mundo, neste aspecto. Para ser exato, com quase ninguém. Ter essa sorte, reconheço que não tem a ver com mérito pessoal. Por isso mesmo, significa uma dívida imensa de gratidão.
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sexta-feira, 21 de agosto de 2026

O eco sistêmico da má fé

Demétrio Sena - Magé 

Estou sem ânimo para falar de questões políticas, por estes dias. Mas caramba... que esforço coletivo é esse, das grandes mídias, unidas aos partidos políticos da extrema direita e aos empresários que mandam neles (tanto mas mídias quanto nos políticos), para demonizar o presidente Lula? Tudo isso, por causa do Lulinha, bola da vez, com todos os estardalhaços nunca feitos em cima dos filhos do verdadeiro d&mônio, que praticam corrupção em cima de corrupção, aos olhos de todos.

Em nenhum momento alguém arrancará de mim qualquer afirmação de que o Lulinha não deveria ser investigado. Tem que ser. E se for culpado, que pague pelos eventuais crimes. Mas essa massificação sobre ele ser filho do Lula, e os truques que foram usados até agora, com evidentes intenções eleitorais adversas, me fazem concluir que tudo está sendo usado como forma de propaganda eleitoral a favor do d&mônio junior, filho do d&mônio-mor, que está devidamente preso. 

Um dos truques foi guardar a investigação, que poderia ter tido início em janeiro, mas começou agora, no início das campanhas. Outro, neste caso, o das mídias, é acelerar as outras matérias para ir e voltar, com excesso de holofote, ao caso do filho do Lula. Do Lulinha filho do Lula, como se não houvesse nenhuma outra notícia de verdadeiro impacto nacional para veicular.

Até as guerras que mexem com o planeta, matérias normalmente preferidas dos noticiários, ficaram espremidas pelo caso Lulinha, "FILHO DO LULA! FILHO DO LULA! FILHO DO LULA!", como se fosse algo de repercussão internacional. A campanha pela presidência do Brasil começou. Lula contra os adversários políticos, um ministro comprado, do STF, as mídias, os empresários gananciosos e manipuladores... e os patriotas pobres, ferrados e massas de manobra de todo esse sistema.

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quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Abandono

Demétrio Sena - Magé 

Assustada e frágil, chegou sozinha ao Pronto-socorro. Gemia, por uma dor imensa nos rins. De meia idade, o rosto emanava uma dor além da carne. Só levava os panos do corpo. Nem uma bolsa. Nem uma roupa extra. Muito menos um cobertor, lençol, produtos para higiene pessoal.

Na enfermaria, conseguiu poucos panos para o seu leito. Acho que outra paciente lhe deu um casaco, pois ela usava somente uma camiseta fina, e aquela noite não estava fácil. Chegara especialmente fria. Sonolento, acompanhei o drama sem atinar que não era um sonho. Cochilava em minha cadeira, de onde zelo por minha esposa, que há dias é também uma paciente. 

Na manhã seguinte, a senhora estava um pouco melhor. Pude ouvir do nosso canto, sua conversa com um dos enfermeiros. Ao ser indagada sobre por que chegara sozinha, ela disse que não. Não chegara sozinha. Impaciente, o marido a levou de carro até a porta da unidade de saúde, abriu a porta do veículo e disse: Agora é com você; fiz muito lhe trazendo até aqui.

Com um sorriso pálido (e ponha pálido nisso), antes que o enfermeiro verbalizasse a sua indignação, ela justificou, cabisbaixa:

- Mas também, coitado; eu dou muito trabalho a ele; só vivo passando mal.

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domingo, 16 de agosto de 2026

Ferida


 

A inquietação das regras

Demétrio Sena - Magé 

Quando opino negativamente sobre a natureza de um grupo social ou corporativo, em minha literatura, o que é um direito meu, se não ofender com xingamentos e acusações específicas sem provas, eu sei perfeitamente que as exceções existem. Mas não tenho que prejudicar a estética de minha escrita, com aquela repetição de "reservadas as exceções", a cada texto que publique. Quando a faixa positiva de um grupo é exceção, cabe perfeitamente generalizar.

Publiquei uma frase no meu espaço de fala em rede social, que diz: A "fornada" contemporânea de cristãos parece mesmo saber tudo de divindade... só não sabe nada de humanidade". Imediatamente a regra reagiu, dizendo que não posso generalizar, pois nem todos são assim. Mas posso. Não dizemos todos os dias, que a humanidade está decadente? Que o ser humano é perverso, egoísta? Pois então; o ser humano é assim. Há pessoas que não são, mas o ser humano, como um todo, é. Não é necessário repetir que "o ser humano, salvo exceções, é decadente, perverso, egoísta".

Se a tal "fornada" entendesse de humanidade, e fosse humana, da mesma forma eu generalizaria, com elogio, pois a existência de alguns cristãos maus não a tornaria má, como um todo. Generalizar é opinar sobre o todo, mesmo havendo exceções. Na verdade, qual é o papel das boas exceções, em regras das quais podem se livrar e não o fazem? Será que são exceções ou eternos estagiários da regra? Este texto é sobre uma "fornada". Talvez você você seja de outra.

Uma verdade é irrefutável: quem inevitavelmente reage à generalização é a regra. A exceção (em meio à regra da qual não há fuga, por ser espaço inevitável de convivência), está sempre tranquila sobre si mesma. Tem a consciência em paz.
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terça-feira, 11 de agosto de 2026

Nem tudo é sobre nós

Demétrio Sena - Magé 


É inadequado e anti-ético alguém aparecer em um casamento vestido em trajes mais deslumbrantes do que os dos nubentes. Especialmente os da noiva. "É contra a lei ou alguma norma?", não. Apenas fere a ética e o bom senso. Apenas isso tudo.
Da mesma forma, é inconcebível você ir ao hospital visitar uma pessoa doente e, chegando lá, inverter os papéis: você passa mal, treme, se descontrola e alguém, às vezes o próprio paciente, vai em busca de quem o socorra.
Ninguém tem o direito de chegar a um velório ou sepultamento e se esmerar em parecer que sofre mais do que pai, mãe, filho/filha, irmãos ou cônjuge. Ninguém sofre mais do que a família, que talvez esteja controlada em razão das providências que precisa tomar, inclusive para receber você. Se algum familiar se mobiliza para socorrê-lo(a), tem algo errado aí.
Quem abre um show não se apresenta mais do que a estrela desse show. A decepção de quem não passa em um concurso público não é maior para outra pessoa do que para quem não passou. Quem introduz um palestrante é anti-ético, se ele introduzir uma "pré-palestra" com ingredientes propositais para causar maior impacto.
O que é sobre o outro não deve ser transposto para nós. Aliás, muita coisa na vida é sobre o outro. E sobre nós, a partir do outro. A dor ou alegria de alguém pode nos atingir, mas atinge muito mais o detentor do sentimento ou da sensação. 
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terça-feira, 4 de agosto de 2026

Fugindo ao encontro

Demétrio Sena - Magé 

Publicar meus textos e minhas fotografias em rede social não tende a ser um hábito que escraviza. Venho, publico e saio. Mais tarde, quando já me ocupei dos outros hábitos além do trabalho, quando é dia de trabalho (ler, fazer cruzadas, beijar, etc), costumo dar mais uma olhada para prestigiar boas postagens e responder aos comentários do que postei, porque acho educado responder, corresponder e ser grato pelo carinho de quem me prestigia.

Para mim, tudo é muito simples, em redes sociais. Há pessoas idiotas, notícias ruins, fake news e "bestagens"? Que assim seja. Mas em nossas vivências presenciais, no mundo físico e na vida inteira é exatamente assim: deparamo-nos o tempo todo com idiotas, mentirosos, tragédias e bobeiras. Nem por isso tomamos a decisão de nos afastamos da vida. Ou darmos um tempo do mundo, nos escondermos da inevitável sociedade que nos cerca nas ruas, no emprego, na igreja, no terreiro e até nas rodas culturais; por que não?

Como ficaremos, ao constatarmos que nossas fugas, para onde quer que seja, nos lançarão nas mesmas futilidades, idiotices, marmotas e tragédias em outros ambientes? Sim, porque on-line ou presencialmente, lá está o ser humano. Lá estamos nós mesmos, de quem muitas pessoas também querem fugir, mas lhes falta criatividade para saberem como, sem abrirem mão de seus espaços. 

O nosso direito de ir, vir e ficar, fazer escolhas e decidir o que nos apraz está em todos os espaços. Por exemplo, no poder de restringirmos alguém, por bloqueio, nas redes sociais, além de só visualizarmos o que desejamos. Da mesma forma, de nos desvencilharmos com calma, imposição ou ajuda policial, nos eventos e ambientes públicos. De usarmos o controle remoto para escolhermos o que desejamos ver, na televisão. E para lermos os livros de nossa escolha, sem desistirmos de todos porque uns não prestam.

Tantas fugas de tudo e todos, por causa de "alguéns" e "algos", podem nos isolar em nossas próprias masmorras. Ou em lugares bem piores, para onde nos levam os surtos emocionais e psíquicos. Precisamos saber quem somos e ter consciência de que: seres humanos lidam com seres humanos. E podemos até trocar de seres humanos, quando alguns apresentam defeito de caráter.

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terça-feira, 28 de julho de 2026

A "Cura"

Demétrio Sena - Magé 

A conversão religiosa não muda sua essência; não "cura" sua natureza. Ela forja, pinta e dá verniz por fora, mas você continua quem você é. Se quem você é machuca; desqualifica o seu próximo; faz dele sua vítima; real vítima em qualquer contexto, é que a conversão vale a pena: "segura sua onda" enquanto pode, com as ameaçadas do inferno e do Peso da "Terrível Mão de Deus", apesar da sua essência. Mas em questões de natureza sexual ou de gênero, do que pretendo falar, "segurar sua onda" não fará você feliz, porque sua essência ou natureza não é criminosa; logo, não faz mal ao próximo. Da mesma forma, ser quem você é não configura uma doença, desvio nem anomalia. 

Supostamente "curar" a homossexualidade é que me parece uma ideia doentia e monstruosa. Um projeto perverso de comando, posse ou domínio do outro, estabelecido principalmente pelas religiões cristãs, alheio a qualquer base científica. Quando a conversão religiosa nos convence a renegar a própria essência ou natureza (que não causa danos reais ao outro, à sociedade), ela nos faz sofrer. E logo nos fará causar sofrimento a outras pessoas, como no caso de nos casarmos dentro dos trâmites conservadores da igreja. Seremos infelizes por trancarmos quem somos, e faremos infelizes nosso cônjuge, que jamais entenderá o que sempre faltou, quando resolvermos dar um basta. Porque, acreditem, resolveremos.

Não existe cura do que não é doença, e neste país, homossexualidade não é crime. A ideia de cura gay, esta sim, é criminosa; um pecado social contra o ser humano, impedindo-o de ser feliz. Enchendo-o de remorsos ilegítimos, desnecessários, como se o gay não merecesse estar no mundo; inserido na sociedade. Cura gay é uma invenção patológica do moralismo religioso. Do cristianismo que faria o próprio Cristo surtar, de chicote em punho, como quando perdeu as estribeiras com os negociantes ou vendilhões do templo. Na verdade, esse cristianismo patológico, distorcido ao longo da história, é que realmente precisa ser curado. 

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sábado, 25 de julho de 2026

Inquisição Mata

Demétrio Sena - Magé 

Muita gente mal intencionada continua gritando a favor do ensino religioso nas escolas. Isso é má intenção, porque essas pessoas querem o domínio de sua religião no país, para comandarem ainda mais a sociedade. Começam pela religião (evangélica), depois dominam pela política de direita (que é a metástase desse tumor social) e logo sequestram toda a sociedade.

Já vivemos "estagiariamente" neste sistema. Sem obrigação legal de seguir a mesma cartilha religiosa. Porém existem as coações paralelas e um sistema análogo a milícia religiosa: que fecha portas de oportunidades para quem não é evangélico, liga uma suposta salvação da alma ao voto em políticos de direita e faz das casas comerciais onde compramos, verdadeiros infernos de músicas góspeis nas alturas. Não importa de que religiões somos, ou se nem temos religião, somos obrigados a suportar. A lei e a justiça também estão dominadas pela religião que se tornou maioria e decide as eleições daqueles que distribuem cargos políticos e privilégios sociais.

Obrigar o ensino religioso (na prática, evangélico) nas escolas, é dar andamento ao projeto de uma nova inquisição. Ou o ensino religioso poderá ser diverso e atender a todas as práticas, linguagens e orientações religiosas, inclusive respeitando a recusa dos que não professam nenhuma fé? Não; não poderá. Então seremos como aqueles países dominados por terroristas que lideram a única religião permitida, com severos castigos a quem não a segue ou não adere às suas práticas. Aí teremos, inclusive, a polícia dos costumes, repressora de quem se veste fora dos padrões exigidos pela lei, que será regida pela religião. Repressora de quem fala, gesticula, respira e tem gostos diferentes.

O ensino religioso, específico e obrigatório (em essência, ensino evangélico) nas escolas seria uma prática ditatorial. Em total conflito com um país laico, de ampla diversidade religiosa (embora uma religião se ponha como a dona de tudo, e queira tornar isso legal). Quem quiser aprender sobre religião, procure um templo, terreiro, mesquita ou salão mais próximo de sua casa.

Democracia, mesmo, inclui cada coisa no seu lugar. Ninguém dever ter a obrigação da adotar, cultuar, nem de participar do sagrado que não escolheu como o seu sagrado. A ditadura religiosa é o início de todas as outras ditaduras que geram desgraças em todo o mundo.

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quinta-feira, 23 de julho de 2026

Vocês Querem Ditadura?

Demétrio Sena - Magé 

Em uma possível nova ditadura, como sonham muitos brasileiros iludidos, não adiantará para o indivíduo pobre, viver ajoelhado em via pública e gritando: "Eu te amo, Jair!", "Te amo, Flávio (ou Dudu, Carlos, Michelle, qualquer outro Bolsonaro)!". Todo pobre sofre nas ditaduras... não importa o que digam, preguem, neguem, gritem ou louvem, mesmo em línguas angelicais.

Ditaduras não contemplam povo. Só parceiros e correligionários ricos contam, para governos ditatoriais. Pobre da direita é mula, nesse regime. As diferenças entre ele e o pobre da esquerda estão nas formas de lidar com isso. O da direita sofre sorrindo como um pateta. Não tem voz nem faz questão. É um prisioneiro em si mesmo, que aceita ser assim para não ser preso em cadeia. Já o pobre da esquerda, sofre lutando por dignidade; correndo riscos, porque não aceita ser passivo em situações de injustiça extrema e crueldade contra os invisíveis e desamparados. 

Esses patetas que vivem pedindo ditadura, babando pelos Bolsonaro de qualquer contexto familiar não enxergam o óbvio: Xingam o governo, fazem protestos, acusam de tudo, abertamente, e não sofrem nada. Quem está preso, hoje, cometeu crimes previstos na própria democracia... tirando isso, o cidadão é livre, mas os patetas pedem para ser oprimidos, calados, vigiados e sem direito a nada. Tudo por uma pirraça sem ideologia séria; racional. 

Se todos esses milici@nos que aí estão: invocando falsa fé, santidade, conservadorismo e moral de ferro forem eleitos, reeleitos, e ainda conseguirem fazer presidente o Bolsonaro filho, que trama contra o Brasil, os pobres que pedem a ditadura terão. E aí verão "o que é bom pra tosse", quando já nem puderem tossir, sem a inquestionável permissão de todos os poderes.

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sábado, 18 de julho de 2026

Do Meu Tempo

 Do Meu Tempo 


Demétrio Sena - Magé 

Fui menino de fato menino, embora fosse um pensador e isso levasse a pensar que eu fosse maduro para minha fase.Tive medos infantis de mentiras, lendas, e levava parlendas a sério. Quando a menor das dores atacava meu corpo, minha mente se achava na hora da morte.

Era um jovem de arroubos, paixões e raivas típicas da juventude. Sentia-me no meu espaço e me aceitava exatamente assim, muito embora maldissesse o planeta. Como sei que fazem os jovens. Como faziam e continuarão a fazer.

Sempre fui um ser humano do próprio tempo. Jamais estive ou tentei estar além do que me era cabível, como indivíduo. Ao alcançar a meia idade, não tive crises de plenitude frustrada. Fui sem enxertos e drenos, por dentro e por fora.

Neste momento, arrasto meus passos para uma marcha lenta. Cada vez mais lenta. Sequer passa pela minha cabeça, forjar uma alma jovem nesta carcaça idosa. Muito menos apelidar a velhice de melhor idade. Não quero ter o meu corpo em conflito com a minha essência. 
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terça-feira, 14 de julho de 2026

Fotografar e brincar

Demétrio Sena - Magé 

Muitas vezes, brincar com o que fotografo (girar, distorcer, intensificar, sobrepor...) é tão prazeroso quanto fotografar. Outras vezes brinco antes de fotografar. É quando interfiro no cenário (como faço para fotografar pessoas e clicar as poses). Tudo manual. Sem nenhuma utilização de IA. Sou totalmente contra a substituição da nossa inteligência, nossa criatividade por essa inteligência plagiadora da Internet. 

Quem não se desafia no campo da criação, usando e não sendo ferramenta, logo não saberá pensar sozinho. Será somente um robô a serviço dos robôs que o ser humano criou para quem não sabe ou tem preguiça de criar. Os "donos do mundo" (políticos, grandes empresários e banqueiros) têm sido bem sucedidos no projeto universal da fabricação de seres humanos cada vez mais dependentes; menos pensantes.

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domingo, 12 de julho de 2026

O "Poder" da Oração

Demétrio Sena - Magé 

Tão logo aquela casa se tornou um centro de umbanda, naquela rua comercial com com um bar de karaokê e dois templos evangélicos pentecostais entre tantos outros movimentos (e barulhos), a coisa ficou feia: os evangélicos do lugar surtaram como nunca, e passaram a orar fervorosamente para que "Deus" afastasse o "inimigo de nossas almas" dali.

Não apenas oraram: oraram e atiraram pedras na casa. Não apenas oraram e atiraram pedras: oraram, atiraram pedras e fizeram ameaças terríveis, diariamente. Não apenas oraram, atiraram pedras e fizeram ameaças terríveis: oraram, atiraram pedras, fizeram ameaças terríveis e caluniaram na polícia. Não apenas oraram, atiraram pedras, fizeram ameaças terríveis e caluniaram na polícia: oraram, atiraram pedras, fizeram ameaças terríveis, caluniaram na polícia e montaram vigílias à porta da casa, com hinos tensos, orações agressivas e xingamentos.

Quando aquelas pessoas ordeiras e pacíficas (que jamais esboçaram qualquer vingança ou revide) resolveram desistir do centro de umbanda, houve uma diabólica festa gospel: os reais inimigos de almas gritaram louvores, "falaram línguas", fizeram "sinais de arminhas" e agradeceram a... digamos; "Deus", por ter atendido às suas... digamos; "orações".

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sábado, 11 de julho de 2026

Dos Olhos da Sociedade

 Dos Olhos da Sociedade 


Demétrio Sena - Magé 

Na maioria das vezes, não sei se uma pessoa com quem lido é "bonita" ou "feia". Entre aspas, porque não tenho conceito ótico específico para beleza. Refiro-me aos olhos da cara de uma sociedade que vive do que olha. Não do que vê, exatamente, porque ver é algo bem mais profundo. Foge aos olhos que prioritariamente olham.

Faz tempo que meus poemas românticos não exaltam traços e curvas das eventuais musas. Isso perdeu importância para mim, nos primeiros anos da minha trajetória de poeta, praticamente os primeiros anos de nascido. De alguma forma, eu seguia o curso da poesia romântica em voga naqueles tempos de uma decantação excessiva da "beleza", como não saiu totalmente de voga. Principalmente a "beleza" feminina.

Faço preferencialmente poemas de protesto político e também social, normalmente com as sutilezas que aprendi nos tempos da ditadura, quando eram necessárias muitas metáforas. Hoje podemos rasgar mais o verbo, até xingar, porém me viciei nessa forma de compor. Mas componho poemas românticos. Muitos, mesmo. Nesses poemas, decanto a essência da musa. O quanto ela inspira com a sua índole, sua sensibilidade, a inteligência e outros atributos que não passam pelo crivo dos meus olhos. Os da cara.

Essa ótica da minha poesia romântica não tem lá muita popularidade. A velha exaltação da pele, dos lábios, cabelos, os traços faciais e as curvas, continua no topo da preferência popular de quem consome música e poesia. Mesmo nas artes plásticas, quando retratam pessoas e são para uso doméstico, existe a preferência popular por essa exaltação.

É como todo mundo, nesta sociedade supérflua, olha para o outro. Vai direto à capa e volta, sem dar nenhuma folheada. Não lê sequer o prefácio do ser humano, se a capa não o agrada imediatamente. A essência pouco importa. O livro, a trajetória, o roteiro pesssoal do ser humano valem menos; muito menos do que a pele, os lábios, os cabelos, os traços faciais e as curvas do corpo.

A riqueza material, o poder e a fama fazem parte crucial dessa frente; dessa vitrine; a capa do indivíduo. Tornam qualquer pessoa "bonita", pois a plastificam e fazem encher os olhos de quem olha. É assim que somos, na camuflagem das virtudes gritadas nos palcos, palanques e púlpitos do preconceito e da hipocrisia.
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segunda-feira, 6 de julho de 2026

Pau na Prova

 


Neymares

 


Perdemos a Copa e o Futebol

Demétrio Sena - Magé 

Décadas atrás, quando no auge da sua melhor forma, e detentor do mais belo e convincente futebol mundial, do nada o Brasil decidiu jogar como a Europa: um futebol mecânico, duro e direto ao ponto. Sem arte; sem encanto; sem a coreografia que arrancava risos e culminava em gols inacreditáveis... em pinturas inacreditáveis feitas com os pés. 

O futebol mecânico deu alguns resultados, até que toda a Europa superou as nossas habilidades, porque afinal, tratava-se da Europa jogando o seu futebol de raça contra o nosso futebol vira-lata, que ficou no meio do caminho. Enquanto isso, a França foi descobrindo aos poucos a velha ginga brasileira do futebol, com todo o tempo do mundo para aperfeiçoá-la sem perder a raça europeia no jogo. 

O que vemos nesta Copa do Mundo é a pura essência daquele nosso futebol nos pés da seleção francesa. Estamos nos vendo em campo, através do Mbapé, Dembélé e companhia. A propósito, o Dembélé (lê-se Dembelê) até lembra a introdução vocal do brasileiríssimo samba do cantor e compositor Benito di Paula. Quem não se lembra do seu "diguedê, diguedê, diguedê"? Quase ouço um sonoro "Dembelê, Dembelê, Dembelê! Agora chegou a vez, vou cantar... 🎶".

A Argentina "bate um balão", com o seu estilo nunca mudado; as seleções africanas, com sua força e vontade sincera de jogar, têm feito história... ficam pelo caminho, mas deixam suas marcas.... a França faz essa simbiose, com sucesso e garra, enquanto as outras seleções da Europa se aperfeiçoam dentro das próprias características, com o mesmo sucesso.

O Brasil? Nem o futebol mecânico Europeu nem o futebol magia que se tornou pentacampeão jogando "pelada"; dando show. Revelando craques que assombravam "na hora do vamos ver". Temos ainda craques (lá na Europa), mas nunca mais tivemos um jogador endiabrado, classificado como etê, porque ninguém decifrava o seu jogo.

É difícil saber quem vencerá esta Copa. A partir de agora, ninguém passa vergonha, por não chegar lá. Mas que a França tem tudo para levar essa, isso tem. E se assim for, veremos o nosso velho futebol magia, jogado por outros pés, conquistar uma taça que aquele Brasil que já não somos tinha tudo para conquistar. Seríamos hexa, ou além, se ainda fôssemos nós. 

Talvez ninguém devesse me levar tão a sério; afinal não jogo, estudo nem acompanho futebol no dia a dia. Porém sou poeta, e minha visão de tudo isso é poética. O Brasil ganhava nas copas e nos outros torneios internacionais, porque dominava uma poesia que o mundo não interpretava, nos estádios de futebol.

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sexta-feira, 26 de junho de 2026

Para Engambelar Jesus

Demétrio Sena - Magé 


Sabe-se que agora uma maldade, minutos depois o "louvor". Um despudor e logo após um hino; daqueles hinos bem chorosos ou exaltados. Normalmente uma traição no sábado e a santa ceia no domingo. A sacanagem de todo o sempre, e segue-se um culto. Isso garante o indulto para tudo o mais.

À corrupção indefectível, segue-se a oração... que por sua vez, é seguida religiosa e "relogiosamente" pela pregação completamente oposta. Na hora seguinte, aquela aposta no jogo de azar. Na bet ou "no jacaré; no avestruz". E, infalivelmente, a eterna marcha da hipocrisia... uma grande marcha para engambelar Jesus.

No fim das contas, é evidente que todos fazem suas bandalheiras. Eu; tu; ele; nós... quase no mesmo ato... na mesma voz. E tudo bem (ouvi um amém?) ou que assim seja... mas coisa bizarra e completamente contraditória, é quem ataca: de uma vela pra "Deus", outra pro diabo... um "pé na jaca" e outro na igreja.
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sexta-feira, 19 de junho de 2026

Honestidades Marmóreas

Demétrio Sena - Magé 


Pode-se dizer da grande maioria, que o ser humano é desonesto; com variações de intensidade e tipo. Mas as pessoas honestas, também em grande maioria, são egoístas, mesquinhas e gananciosas. Estão sempre na linha exata, restrita e intransigente da honestidade. O que é seu é seu; e ponto. Não cedem um milímetro do seu direito, seja qual for a necessidade ou até o perigo do outro, em questões que não mudariam em nada suas realidades pessoais permanentes ou momentâneas.

A honestidade fria e cruel desses indivíduos, geralmente conservadores, moralistas e cristãos, é pétrea em relação à lei, mas desconhece a graça do perdão, da empatia e da solidariedade. São aquelas pessoas que escravizavam, quando a lei permitia; que prejudicam a qualquer um, quando se acham legitimadas. Desejam o retorno da ditadura, só para se associarem ao poder público e ajudarem a levar cidadãos opostos ao pau-de-arara, como a lei determinaria que os "cidadãos de bem" fizessem. Os honestos de mármore são capazes de assistir à morte por fome, de um vizinho, porque a lei não o obriga a fazer algo. De abandonar uma filha/um filho à própria sorte, por ele ou ela já ter chegado à idade adulta, e com isso, a responsabilidade paterna ou materna já não ser obrigatória.

Faltar com a ética e a humanidade não é problema para quem segue à risca sua honestidade sem afeto; seu legalismo duro e sem consciência social. Tomar a vaga do próximo... entregar um colega de trabalho para obter benefício... ficar com a maior fatia de tudo e obter privilégios que prejudicam o outro (...) nada pesa na consciência de quem arrota honestidade blindada e, a qualquer custo, garante ou protege o seu direito... ainda que o seu direito seja torto; questionável; de má fé.
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