sexta-feira, 14 de junho de 2013

FOBIA GLOBAL

A homofobia é inaceitável na sociedade contemporânea. A heterofobia também. Principalmente quando a fobia é tanta, que faz um poderoso veículo de comunicação em massa impor sistemática, forçosa e ostensivamente uma conversão global.
Só haverá respeito mútuo entre as diferenças de natureza sexual, econômica, religiosa, étnica e todas mais, quando a ética pontuar essas diferenças. E a ética perde força e autenticidade onde gritam a pregação truculenta; o poder de coação e constrangimento; a martelação renitente.
Sermos autênticos é simplesmente sermos quem somos. É aceitarmos o próximo tanto quanto queremos que o próximo nos aceite sem a exigência de sermos o seu reflexo. Sem nos aproveitarmos de ferramentas ou dispositivos que nos dão vantagem, para nos impormos como superiores. Padrões a serem obrigatoriamente clonados.
Neste contexto, ninguém se faz respeitar "virando a mesa"; invertendo a realidade; revertendo a fobia, o conceito e o preconceito... distorcendo a discriminação.
Temos que acabar com a intolerância; o banimento; a exclusão; a forçação de guetos... acabar. Não trocar de lado.
Ao invés de propor o fim da homofobia, do preconceito étnico e da intolerância religiosa, sem citarmos outras vertentes, os grandes órgãos de mídia impõem permutas... revanches... viradas...

quinta-feira, 13 de junho de 2013

A HOMENAGEM

Perguntei ao espelho com que roupa iria, vacilei, mas fui. Cabelos longos e mal cuidados, camisa e calça puídas, tênis roto. Eu era somente um garoto ingênuo, das ruas, com milhares de poemas misturados às caspas entre a cabeleira. Mesmo assim dona Janete, a diretora daquela escola pública estadual resolveu me homenagear publicamente por causa dos meus poemas.
Quando cheguei ao auditório, dezenas de alunos do então segundo grau me aguardavam atenciosos, tendo à frente uma grande mesa forrada com um pano branco. Atrás da mesa, vários assentos dispostos formalmente. Um deles, em destaque, fora preparado carinhosamente para mim.
Seguiram-se as palavras de apreciação da dona Janete, mais alguns professores, depois comecei a recitar poemas. Sempre tive facilidade para decorar textos, mesmo sem tentar. Quando leio ou escrevo algum que me agrada muito, acabo decorando e não sei como. Acho que fica em minha mente, feito memória fotográfica.
Foi meio a contragosto que me deixei levar ao evento. Sempre fui muito encabulado para homenagens. Acho exageradas as palavras de apreciação. Parece que os homenageados são pessoas de outro mundo. No entanto, como se gosta muito de homenagear famosos, influentes e ricos, vi que aquela homenagem era sincera, pois eu não era, como não sou nem pretendo ser famoso, influente ou rico.
Depois do recital, o momento: a medalha, o discurso, flores, coquetel... ganhei sorrisos, abraços, olhares e aplausos. Com o decorrer de tudo fiquei à vontade, pois as pessoas da plateia eram tão simples como eu, e porque tive a chance de me juntar a elas para mostrar que não era um ídolo.
Ao longo da vida, como escritor de pouca venda e sem grandes mídias, não tive muitas homenagens. Nem quero tê-las formalmente, porque já me sinto bastante homenageado com os poucos leitores e as muitas amizades que tenho. Mas devo confessar que aquela homenagem simples, despretensiosa e sincera de uma educadora capaz de ver além das aparências, do que veste ou paramenta uma pessoa, nunca saiu do meu coração.

quarta-feira, 12 de junho de 2013

A ESTRADA, O MENINO E O ANJO

Aquela moça bonita surgia do nada, pedalando cheia de graça uma bicicleta que só não era mais graciosa do que a ciclista. O menino cabeludo e maltrapilho ficava incrédulo, quando ela parava ao seu lado e dizia, com um sorriso meigo: “vamos; querido”.
O caminho era longo, e ambos não conversavam. Era só uma carona. Um ato solidário. A moça pedalava e o menino ia em silêncio, sem olhar a paisagem do trajeto. Refletia, em seu âmago, sobre o gesto inusitado; que permaneceu inusitado pelos dez ou onze meses de reincidência. No mais, ele só admirava o frescor e a delicadeza; a leveza e o charme; a beleza e a simpatia da moça cujo nome jamais soube. Admirava também a elegância de suas pedaladas... apenas isso... só isso tudo.
Aquelas tardinhas em que o menino cabeludo e maltrapilho; sujo e cansado; tímido e sem perspectiva ganhava de presente a companhia de um anjo na volta para casa, nunca foram esquecidas. Agora mesmo, aquele menino que hoje passa da meia idade, já viveu quase tudo e driblou a não perspectiva, relembra cheio de ternura os momentos mágicos que viveu naqueles meses. Mágicos, pelo gesto raro; pela simbologia; por aquele oásis de humanismo no deserto frio de uma sociedade preconceituosa e cheia de medos egoístas, pelos quais tenta justificar a frieza.
Com toda minha penúria naqueles anos difíceis de atravessar, tive momentos ricos. Muito ricos. Que fizeram a vida valer a pena. Que me fizeram ver que o mundo é bom, porque tem pessoas como a moça bonita, que hoje nem sei se era bonita conforme os padrões da moda, mas aos meus olhos, sim. Ser amável, generosa, desarmada e simples a tornava irresistivelmente linda.
Sejamos, de alguma forma, os moços ou as moças bonitas de algum momento na trajetória de quem precisa de um gesto; de uma palavra; um olhar; uma gentileza; um socorro. 

quinta-feira, 6 de junho de 2013

ESPERANÇA

AMOR E OFÍCIO

Meu ofício é meu ócio;
meu lazer.
Trabalhar é o prazer
desse mistério
de brincar de sério.
De fazer de conta
que faço o que faço.
Eis meu ócio, esse ofício,
sacrifício sem sacrifício;
trabalho e loa...
Vida boa.
Boa lida...
Meu ofício é meu ócio,
meu sócio,
minha padaria...
Galho e ninho,
meu pão e meu vinho
de cada dia.

quarta-feira, 5 de junho de 2013

MENTIRAS SINCERAS

Algumas verdades, de tão fantásticas que são, têm todos os ingredientes de uma mentira engenhosa; o que torna melhor não dizê-las, sob pena de não alcançar o menor crédito. Nestes casos, recomenda-se justamente a tal mentira engenhosa, que tem todos os ingredientes das verdades fantásticas; o que a torna um santo remédio para os ouvidos de quem não só quer, como precisa ouvi-la.

PASSADO

Passa da hora de você descer do seu sonho de seguir comigo. Não adie mais esse desembarque, porque no fundo, já nos deixamos mesmo no meio da estrada. Estique os olhos e veja o nada que aponta pra nenhum horizonte ao abrigo do tempo que se desintegra.
Reconheça de uma vez por todas, que a vida não nos reconheceu e que não nos cabe no espaço de um ideal em comum. Sua prece pelo retorno do que se foi não encontra o caminho para o céu. Nosso sal não foi feito pra ser da mesma terra.
Destoa dos nossos corações, esperar que o futuro nos conserte para devolver um ao outro. Deixe de ocupar seu tempo na ilusão de um ontem que pode ser amanhã. Se ainda nos olhamos, faz tempo que nos perdemos de vista. Somos miragem mútua.
Nossas filas andaram para rumos opostos. Nossos portos seguros naufragaram no mar de uma relação que perdeu sentido. Apesar da presença, ou da miragem, somos prazo expirado... tudo em nós é vencido... é passado.

terça-feira, 4 de junho de 2013

POETA LIVRE

Não quero ser um poeta
de coroa e castelo;
de muralhas e medos;
de trono e de cetro...
Nem quero ter meus poemas,
meus temas, enredos,
a minh´alma e meus dedos
aprovados pelo INMETRO...

segunda-feira, 3 de junho de 2013

DE VIDAS PASSADAS

Somos um que não deixa de ser esses dois,
o depois que se apressa e continua longe,
mas de perto; bem perto; quase que de dentro,
pois nos faz este centro de nossas miragens...
Temos esse aconchego de amigos amantes;
algo mais, mas que sempre deixamos por menos;
um amor de mutantes em reinos opostos
que se juntam no eclipse do faz-de-conta...
Nós fazemos amor sem fazermos de fato,
nesse trato notório assinado na pele,
respingando na entranha; nos recantos d´alma...
O que somos não somos e nunca deixamos
de saber como somos tal densa mistura;
cromossomos fundidos por vidas passadas...

sábado, 1 de junho de 2013

AMOR DE BRINQUEDO

Quando brincavas,
sem segredo,
com a minha paixão;
meu amor;
meu ombro amigo...
Fui aluno exemplar
de brincar
do teu brinquedo
de brincar comigo...

AMAR OU LATIR


Muitas vezes pensei em suprimir a voz,
em calar a caneta e me cegar de vez,
estancar minha foz de manifestações
e contar até dez; até cem ou sem fim...
Mas o cio do sonho de um tempo melhor
sempre fala mais alto, injeta em minha veia
uma força maior do que o temor de tudo;
faz romper essa teia de acomodação...
É assim que misturo as escritas de amor
com as farpas de humor entre azedo e cortante;
posso amar ou latir pras mazelas da vida...
Meu poema nem sempre sugere poesia,
minha prosa tem dia de todos os dedos
afiarem as unhas pra ferir o mundo...