terça-feira, 30 de outubro de 2018

ANTÍTESE DE AMOR


Demétrio Sena, Magé – RJ.


Um ateu não suporta preconceito;
seu amor tem o vício da igualdade;
abre o peito e comunga diferenças,
porque tem liberdade pra ser gente...
Comunistas acolhem os opostos,
têm os braços abertos pros cristãos,
porque sabem se armar de piedade
contra os nãos dogmáticos da lei...
Os pagãos acreditam nessa graça
que se prega de pura liturgia,
por quem tem alergia do que prega...
Os ateus, comunistas e pagãos
dão as mãos e convidam todo mundo
para o mundo que Deus imaginou...

quinta-feira, 25 de outubro de 2018

SONETO SOBRE SER


Demétrio Sena, Magé – RJ.

É perfeito que haja imperfeição,
quando nada interfere lá no fundo;
no caráter, no próprio coração
que parece faltar dentro do mundo...

Será pleno quem saiba ser metade,
pra que venha caber outra versão,
se tiver de aceitar uma verdade
onde o pé sentirá faltar o chão...

Ilusão é ser cheio de certezas;
é tanger e dar nó nas correntezas
por sobrar egoísmo tempo afora...

Solidão é ter todos em poder
da soberba; do medo de perder;
de querer ser eterno aqui/agora...

PRETENSÃO TIPO B


terça-feira, 23 de outubro de 2018

SINTO MUITO


Demétrio Sena, Magé - RJ.

Será bom pra quem tenha privilégios;
pra quem lustre as botinas do poder;
quem se pôs a perder pra ganhar a voz
onde o grito intimida os mais pensantes...
A vitória será de quem vendeu
sua livre vontade; o seu orgulho;
se rendeu à preguiça de seguir
e deixou que levassem os seus pés...
Não aceito vencer passivamente;
minha mente não segue a multidão
sem achar as razões que me conduzam...
Sinto muito por quem triunfará
quando a honra estiver desprotegida;
nossa vida for posse oficial...

EM CONSERVA


Demétrio Sena, Magé - RJ.

Vejo dom de visão em muitos cegos
e cegueira nos olhos que só olham;
é olhar e não ver que fecha o mundo
entre os egos que vivem para si...
Corações burocráticos só cumprem
uma fria missão percussionista,
quando a mente só serve pra manter
sua lista específica e formal...
Tantas vidas guardadas no formol,
quantas almas mecânicas detidas
onde o sol do sentido não alcança!
São robôs que podiam ser humanos,
mas os danos notórios do egoísmo
têm mais força que a própria humanidade...

sábado, 20 de outubro de 2018

EXPRESSO 666


Demétrio Sena, Magé - RJ.

Há um Cristo forjado entre seres de bem;
uma crista que aguça exaltações febris;
um além prometido pra este momento
em que todos precisam de alguma miragem...
Multidões enaltecem a lenda fugaz;
bradam raivas ungidas, fanatismo pátrio;
pregam paz e guerreiam redundantemente,
por efeito maciço de alguma hipnose...
Um rebanho tangido por gritos de ordem;
umas tristes ovelhas alegres de tontas;
todas prontas pro dia de seus holocaustos...
São regidas por ódio e por frases sagradas,
vão marcadas pra terem uns dias de glória
e depois amargaram seus anos de culpa...

DIREITOPATIA POPULAR


 Demétrio Sena, Magé -RJ.

Não comemos tomate;
uva rubi.
Nem groselha,
goiabada, cereja,
muito menos caqui.
Nem comemos morango.
Caso esteja maduro,
nem pimentão.
Sequer pimenta, chouriço,
carne bovina
e camarão.
Seus vermelhos do inferno!
Alimentos comunistas!
Comidas ingratas...
Produtos esquerdopatas!

quinta-feira, 11 de outubro de 2018

PROPOSTA

Demétrio Sena, Magé – RJ.
Também sei não ter tempo, às vezes paciência;

ser distante, presente, a depender do surto,
ter meu curto circuito conforme o capricho,
dar os olhos, ouvidos, e depois tirar...
Tenho todo poder que se tem de ser vago,
de sumir e voltar como quer o meu ego,
mas querer que algum prego pendure as esperas
pela boa vontade que nem sempre tenho...
Só não sei fazer uso dessa pretensão;
modelar a meu modo as expectativas
do que tenho, não tenho, quando e não pra dar...
Sempre vejo pessoas como gente, mesmo;
não imponho; proponho minha identidade
como toda verdade redistribuída...

quinta-feira, 4 de outubro de 2018

VEIAS RECOMPOSTAS


Demétrio Sena, Magé - RJ.

Hoje sei que vivi; levei meus tombos,
mas me dei de presente a caminhada;
não fiquei sem saber no que daria;
minha estrada foi tudo pros meus pés...
Dei aos olhos um álbum de paisagens,
li o mundo nas linhas, entrelinhas,
vi miragens e dei ao meu deserto
mais verdade, sentido e direção...
Uma vida com muitas quase mortes,
muitos cortes e veias recompostas;
de respostas temidas; esperadas...
Tive todas as vidas, não importa
se a porta pro fim já é notória;
deixo história que vai além de mim...

quarta-feira, 3 de outubro de 2018

PERCURSO

Demétrio Sena, Magé - RJ.


Quem quiser me laçar terá surpresa,
porque sou abstrato, embora tátil;
não sou presa; nem fácil nem difícil;
nem sou preso a verdades engradadas...
Cace ovelhas em outras direções;
há um bicho arredio e sem medida,
uma vida sem forma, fôrma e bula
sob a casca ilusória que revelo...
Minha mente não cabe num redil,
sou do vento e talvez o próprio vento,
quem me viu já não vê momento após...
Meu amor e meu ódio são bem meus;
venda deus pra quem queira revender;
quero sempre o percurso natural...

quarta-feira, 26 de setembro de 2018

DO QUE PENSO QUE SEI


Demétrio Sena, Magé – RJ.

Aprendi a não ser o guardião da vida
e não ter as certezas que nos equivocam,
nos evocam pro salto nesse cais do caos
de quem acha que tudo se rende a seu olho...
Sei que sei muito aquém do que penso que sei,
porém algo; pois nada, só quem não viveu;
há um eu razoável curtido em meu peito
que não tem pretensão de ser cofre do mundo...
A estrada termina para quem chegou;
quem é pleno está pronto para ser colhido;
tem um show que nos pede para prosseguir...
Alcancei a ciência de crer no futuro,
meu agora é o escuro sobre o que será,
só existe o saber que se constrói sem fim...

VOLTANDO A CHORAR


Demétrio Sena, Magé – RJ.

Passei muitos anos sem chorar. Sem verter uma lágrima; fosse de alegria, tristeza, dor. Era um ser humano impassível por fora. Cheio de sentimentos; ressentimentos; emoções contraditórias; porém, sem pranto.
Quando minha mãe morreu, a maior dor que já senti foi também minha cura. Rachaduras imensas se abriram dentro de mim, para que o Velho Chico acumulado em minh´alma entornasse todo. Fiquei surpreso comigo, ao recuperar a capacidade perdida. Sabia que não me tornara desumano, mas criara uma casca bruta, grossa e destruidora para o meu ser, que definhava dentro do corpo.
Naquele momento, eu chorava copiosamente pela mãe que tanto fiz chorar quando saí de casa. Quando fui conhecer o mundo e a fiz andar por longo tempo em meu encalço, numa luta insana para me acompanhar sem ser percebida. Para saber com quem eu andava. Quem me acolhia e dava guarida. Sobretudo, para não me perder de vista e ao mesmo tempo não negligenciar meus oito irmãos.
Chorar a morte de minha mãe foi reencontrar minha humanidade. Fazer voltar ao âmago meu eu perdido. Esquecido entre os escombros da primeira infância triste, reprimida e de violência paterna, que depois virou abandono paterno e obrigou a todos nós – meus irmãos, nossa mãe e eu – lutar com unhas e dentes contra um mundo que não nos deu moleza. Uma vida que nos testou muito além dos limites.
Mas vencemos. Foram muitos anos, e muita gente pensou que não sobreviveríamos, mas vencemos.
E a minha mãe – nossa mãe Maria de nove santos demônios revoltados por todos aqueles anos de muitas privações e quase nenhuma esperança – nunca esmoreceu. Nós os filhos, muitas vezes esmorecemos; porém ela juntou filhos, mundo e vida, carregou a todos nas costas, no colo e no coração, sempre que os nossos passos cederam ao peso de uma realidade que fechava todos os horizontes.
Depois que minha mãe morreu virei manteiga derretida. Não por coisas grandiosas nem emoções criadas para fazer chorar, mas por sutilezas. Delicadezas entranhadas nas brutalidades do mundo e percebidas por mim, que aprendi a percebê-las. Vira e mexe um acontecimento sutil, de significado ou ressignificado discreto me arranca lágrimas também discretas, e às vezes, até nem tão discretas.
Mesmo na hora da morte, minha mãe fez algo tamanho por mim. Ela me curou de não chorar. Devolveu minha percepção emocional. Fez-me rever a vida pelo prisma da simplicidade, o valor do afeto, a beleza em nuances e o quanto precisamos uns dos outros, quer sejamos família, familiares, amigos, colegas, vizinhos e até conhecidos de nos cruzarmos nas ruas em direção à padaria.
Só tive, pela vida inteira, motivos para ser grato à nossa mãe. E à vida, com todas as pedras no caminho, por todos nós, os nove, sermos cheios de graça, porque somos filhos de Maria... de Maria do Mundo.

sábado, 22 de setembro de 2018

LETRA NOVA PARA UMA VELHA CANÇÃO


Demétrio Sena, Magé – RJ.

É tanto pranto
para chorar,
que é como ter
um mar em mim...
Guardo as águas
de muitas mágoas;
dor sem fim.

Em minha estrada
sem horizonte,
não acho ponte
pra outro amor...
Morro aos poucos,
na solidão
dessa dor.

Estou sem céu,
sem lua, estrelas,
meu caminhar
é infinito...
Abafo angústias
e meu silêncio
devora o grito.

Nem mais espero
a quem amar
como te amei
num tempo findo...
Já não vivo,
percebo apenas
que vou indo.

Agora eu sei,
não há no mundo
um sentimento
mais denso e fundo...
Este amor
é minha sorte;
vida e morte.