sábado, 15 de outubro de 2022

DESAPEGO

Demétrio Sena - Magé

É um mundo sem chão que sustenta meus pés,

pois gastei os trocados de minha esperança;

já me cansa o descanso de me acomodar,

quando vejo que sigo somente por ir...

Só me prendem à vida os amores que nutro

mesmo sem as respostas que meu peito anseia;

não "abutro" pertences, coisas de se ter

nem prestígio, lisonjas, afagos e pódios...

Chego ao tempo sem tempo de curar fraturas,

de querer insistir em repor os afetos,

fazer cortes, costuras, reparos no ser...

Não recuso as emendas de minha jornada,

mas declaro ao meu nada latente no espelho

que sofrer já não causa qualquer sofrimento...

domingo, 7 de agosto de 2022

SOBRE NÓS E O OUTRO

Demétrio Sena - Magé

Depois de algum envolvimento, o medo comum aos que se percebem fisicamente mais fracos é de que os mais fortes fisicamente - mas de caráter mais fraco - não aceitem um não... ou um eventual recuo do sim.
Pensemos na magia de uma sociedade na qual a força de um não ou de um recuo seja maior do que a força bruta. Imaginemos um mundo em que matrimônio não seja cárcere... namoro não tenha que se tornar matrimônio como reparação... e onde amigos íntimos, cúmplices e confidentes exerçam encanto, até sedução sobre o outro, mas nenhum dos lados exerça poder.
Delineemos seres humanos que retirem as mãos ou nem façam menção de pô-las, quando não é o desejo expresso do outro. Tempos em que vir não tranque as portas do ir... em que gentileza realmente gere gentileza; liberdade gere liberdade... as relações interpessoais demandem consciência e obedeçam prontamente aos semáforos estabelecidos pelo outro.
O outro não é apenas o outro... é isso tudo... o outro. Não é a nossa extensão. Em nenhuma circunstância será carne da nossa carne, alma gêmea nem metade da laranja que também não somos... é e sempre será um indivíduo.

PELA JANELA


 

quarta-feira, 20 de julho de 2022

VERSOS ANTI-FASCISMO


 

PRESERVACÃO HUMANA

Demétrio Sena - Magé 

Para quem valorize as boas relações, não é só não que é não. Talvez também é. Da mesma forma o quem sabe, o depende ou vamos ver. A linha que paira entre essas respostas e o sim ou não é bem tênue. A ser forçoso e ferir o arbítrio alheio, é melhor deixar que a conversão em resposta exata ocorra sem mais nenhuma tentativa, por mais sutil que seja. O possível silêncio posterior seja realmente um não que nossos códigos de ética nos recomendem respeitar. Isso vale nas relações de amizade, coleguismo, amor em qualquer contexto, entre pessoas estranhas e nos negócios. Guardar as respostas provisórias ou em aberto, sem nenhuma insistência ou invasão, é respeitar o ser humano. Isso nos ajuda, entre outros resultados, a não ferir, constranger e principalmente afastar pessoas importantes em nossas vidas.

sexta-feira, 1 de julho de 2022

CARTA DE AMIGO CÉTICO

Demétrio Sena - Magé

Meu amigo; vê se não carta - como também não descarta -, mas esta carta não é para tirar da manga... e não manga de mim por causa dela... é para ti. Não Parati nem qualquer outra cidade, mas para ti. Acorda a corda e deixa de marra... ou amarra a marra, que o posto oposto é onde há parto e aparto a briga, pois agora tem ágora para brigas. Não boto acento no assento, há cento e tantos dias não como, como não sei. Só sei que o culto oculto eleva e leva sem desculpas... nem dez culpas... pois nada nada em águas alvas e, o alvo é alvo da mosca na qual jamais acertei.

Eu me livro com livro e sei que a porta aporta lembranças, porta saudades e me pergunta: "E você; qual quer entre qualquer uma?". Seja como for, te peço que peça a peça certa, e acerta; encara a vida em cara limpa e não atira a tira... nem atola a tola no convento com vento, em meio à catinga da caatinga do abandono. É a sina que assina o conto que não conto nem contas, entre as contas dos contra e dos pró. Calma; não sou ator que atormente. Ator mente e atua a tua e também minha vida. Não tenho fé, porque fé demais fede mais; fé de menos não fede nem cheira.

Acho que acabo aqui. Porque há cabo aqui e não quero ser presa da surpresa do acaso nem do ocaso do caso sério com o qual não brinco... mas é brinco na orelha da minha saga. Estou doente do ente que há em mim. Não fica assim... ou fica sim, mas não assim, porque há sim, esperança no ar, apesar de a pesar e sentir que não pesa muito. Seja como for, como flor e digiro espinho; dirijo o que digiro para o esquecimento, mas eis que cimento não há. Perdão, amigo; mas eu dei adeus a Deus... e fiquei cético... sei que não tem antisséptico... nem anticético para me ajudar.
... ... ...
#respeiteautorias Isso é lei.

sábado, 18 de junho de 2022

TUDO É SOBRE O SER HUMANO

Demétrio Sena - Magé 

Toda reflexão escrita (e publicada) é sobre você e eu, de alguma forma, porque tudo é sobre o ser humano. Até quando se usa o recurso do abstrato, do sobrenatural, da generalização e da licença poética. Já li muitos textos que mexeram comigo, me deixaram incomodado e só a custo me convenci de que não que foram escritos especialmente para mim, porque lá não estavam meu nome, o endereço, um segredo meu, uma vivência única ou específica nem qualquer descrição pessoal minha, mesmo quando os autores eram do meu rol de convivência. 


Somos flagrados por um texto e outro, porque somos humanos, temos feridas onde cabem certos dedos e, sendo assim, ninguém precisa nos retratar para chamar à reflexão, ao sentimento e ao repensamento sobre nós próprios, talvez movidos por alguma coincidência de cunho generalizado. A menos que sejam declaradamente sobre, ou nominais, literaturas não atiram em alvos singulares... e muitas vezes falam dos próprios autores, ainda que o façam na terceira pessoa. Eu mesmo, falo de muitas mazelas minhas e depois percebo que o fiz como se apontasse o dedo na direção de outros.


Quem escreve e publica textos cuja fonte principal de inspiração é o ser humano com as suas virtudes e mazelas, vive na linha tênue entre surpreender pelo encanto e magoar pessoas que ele nem imagina. Algumas próximas, que reagem como se autuadas em flagrante... outras distantes, que se perguntam como certos textos as encontraram; como quem escreveu as adivinhou. Constato no espelho de minha trajetória, que ser um "escrevedor" às vezes é uma dádiva; outras vezes um incômodo; muitas outras um infortúnio.

SOMOS DOR