Demétrio Sena, Magé – RJ.
Era um privilégio, eu sendo este
poeta menor que sou, saber que aquela mente brilhante me admirava. Foram muitas
as suas declarações, inclusive públicas, do apreço que tinha pela minha
história, meus escritos e a postura de cidadão que superou a fome, a rua como
domicílio, a ignorância e a baixa autoestima, sem abrir mão da própria
essência.
Tenho sincero e grande amor por
essa pessoa que faz parte de minha história como conselheira e grande
incentivadora de minhas atuações modestas como educador e escritor de prestígio
restrito à região em que atuo. Mas confesso que agora trago em mim algum
desencanto, por constatar que depois de algumas divergências de cunho
estritamente sociopolítico sobre o que não exigia um ranking de conhecimento
acadêmico nem de ciências exatas, apenas escolhas e visões pessoais, o seu
apreço por mim caiu por terra. Não houve declaração de guerra, mas
instalaram-se a frieza; o silêncio; a distância velada pela permanência gentil na
minha lista de contatos em rede social.
A minha maior tristeza foi a profunda
constatação de que fui permanentemente subestimado como cidadão de pensamento
próprio. Capaz de minhas escolhas e decisões de natureza existencial. De minhas
preferências ou ideologias políticas, sem a obrigação de pedir eternamente bênçãos.
Foi saber do pensamento secreto de que a minha dívida humana, educativa e até
social jamais me permitiria seguir caminhos próprios. Ter pensamentos livres,
ideais ou ideologias opostas, o que não me faria (não fez nem nunca fará) ter
menos amor, consideração e reconhecimento por essa e tantas outras pessoas tão
importantes na história pessoal que tracei com suas co-autorias para sempre
marcadas no coração.
Alguns preços humanos ninguém
pode pagar. Por mais que tente, queira e reconheça dever. É da natureza humana
o ser livre para ser quem é. Descobrir que há vida inteligente além da tutela de
quem deu a mão, ensinou a viver e deveria (sinto muito, mas deveria) deixar o
tutelado seguir seu rumo por conta e risco próprios, pois essa é a grande
bênção da educação. Ensinar a voar, para voar. A ser livre, para se livrar,
inclusive das asas ou das sombras de quem ensinou. Fazemos filhos e os criamos
para que os filhos façam e criem seus próprios filhos, que farão o mesmo, e
assim por diante. Pais, tutores, mestres e mecenas têm essa missão em comum.
Dar vida e criar para o mundo. Ensinar para o mundo.
Aos 58 anos de idade, criei uma
filha e crio mais uma. Como educador já formei muitos alunos, e como escritor,
incentivei como pude alguns jovens iniciantes nas letras, inspirado por quem
fez o mesmo por mim. Todos para o mundo. E se os admiro, é realmente a eles que
admiro, sejam iguais ou diferentes de mim. Não vejo mérito em me admirar neles.