sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Requintes de Crueldade Alimentar

Demétrio Sena - Magé 


As carnes que nós comemos (todas elas, brancas ou vermelhas), passam por um processo de crueldade sem fim: cortes detalhados, retiradas de pele, vísceras, seleção dos pedaços mais macios e saborosos. Bovinos, caprinos, suínos, caças, aves, peixes, anuros, frutos-do-mar, todos passam, em menor ou maior escala, pelo processo frio do requinte de crueldade para fins alimentares. Nós, consumidores finais dessas vítimas cujos criadores dão nomes, acariciam, olham nos olhos e depois matam ou terceirizam "paixão e morte", não somos inocentes. Ocultamos esses cadáres em nossos estômagos. Algumas vezes, temos pequenas criações de quintal e o processo, da criação até a ocultação dos cadaveres, é todo nosso.

Mas quero falar de uma crueldade ainda pior (pois é possível), com os caranguejos, guaiamuns e siris. Eu me lembrei dessas pobres vítimas, por causa dos amigo Isac Machado de Moura e Cristiane Nunes Vicente, que há poucos dias encontraram um caranguejo em seu quintal e tiveram o trabalho sensível de reconduzí-lo ao mangue. Não mataram nem ocultaram o cadáver. Pois bem; a crueldade imperdoável cometida contra contra esses bichinhos é a seguinte: eles são postos vivos dentro de uma panela com água fria, que é levada ao fogo, e ficam lá dentro agonizando, se contorcendo, até morrerem pela fervura. Para comer a carne, o cunsumidor final, que foi também quem cometeu a "paixão e morte", vai tirando as casquinhas, comendo a carne escassa e chupando o caldinho. Requinte de crueldade do início ao fim. Oculta um pouquinho do cadáver no estômago e joga no lixo quase toda a carcaça, enquanto elogia o sabor.

Não estou tentando pregar o veganismo. Nem sou vegano; faço parte da crueldade alimentar humana. Sou carnívoro. Entretanto, cabe-me confessar que, além de não comer os bichinhos em questão, não tenho coragem de criar uma galinha, por exemplo, desde pintinho, batizar como Matilde, dar comida, carinho eventual, e depois passar a faca em seu pescoço, esquartejar, levar à panela, preparar e comer... ocultar seu cadáver no meu estômago, até que os últimos resquícios da "prova do crime" (que não seria investigado e punido) sejam despejados no esgoto. Embora não creia em divindades que religiões pregam, acho que ainda pagaremos por tudo. Não por nos alimentarmos; precisamos comer. Mas por sermos cruéis.
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Respeite autorias. É lei 

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