É o regime em que um governo mais safo (ou safado) permite ao povo se estressar livremente.
sexta-feira, 4 de novembro de 2011
FLORES DE SEDA
Outras tenham meu corpo, estou pronto a deixar;
já cansei de fugir dos prazeres que ofertam;
as que flertam comigo terão meus favores,
minhas flores de seda, minhas fantasias...
Tenham todas meu fogo, asseguro esse grau
de quem brinca do sério, faz bem esse jogo,
tem pimenta-do-reino por todo o banquete,
sabe ser um joguete nas mãos de quem sabe...
As que têm suas senhas e moram na fila
deste parque temático da sedução
serão fartas de argila de puro prazer...
Mas guardei a minh´alma pra quando voltares;
para quando me amares na justa medida
e souberes que nada me substitui...
quinta-feira, 3 de novembro de 2011
ASSASSINOS DO FUTURO
Feliz da vida o velho mestre adentra a sala dos professores anunciando a façanha: Acaba de "sacanear" pelo menos pouco mais da metade dos alunos. Aplicou uma prova daquelas, sabendo que eles sabiam as questões, mas usou artimanhas nos enunciados e pegou a todos de surpresa, dificultando ao máximo as respostas. Maioria "levou pau", sabe de antemão, e os outros escaparam por pouco, da cilada.
A maior esperança do velho mestre é poder informar no fim do ano àquela turma de alunos indisciplinados a reprovação em massa, no que depender de sua cadeira. Desafiado que se sente pelos alunos, a missão de educar fica para segundo plano, porque ele "não é otário" e vai provar isso. Primeiro vem a vingança, mostrando a todos quem é que manda naquela "porcaria de sala": Ele, o todo-poderoso do cuspe e giz, o Adolfh Hitler da educação (que no seu caso deve ser linha-dura, intolerante, repressora e vingativa) ou eles, os "meros educandos". Os cordeiros do campo de concentração escolar. Os bandidos, na sua concepção distorcida - pelo menos no presente -, nos quais "ninguém dá jeito": A família, a sociedade, muito menos ele, como instituição que deveria salvá-los do futuro indigno que vaticina.
Da turma que amarga a desventura de contar com um mestre como esse, alguns também serão mestres. Pode ser que repitam sobre os alunos futuros a deprimente figura do velho ditador mal formado na instituição escolar e na tão arrotada "faculdade da vida", que é bem mais rica e criteriosa em conteúdos desperdiçados por pessoas, e para profissionais infelizes tanto com quem são quanto com o que fazem.
A indesejável verdade que ronda esses indivíduos é a de que trabalhar, seja qual for o ofício, dá trabalho. Pior ainda, viver dá trabalho. No entanto, ninguém precisaria ser assim, se não aprendesse com os pais, a sociedade, a escola e o poder público a buscar desonradamente uma vida farta e fácil, sem qualquer aborrecimento. Ninguém consegue uma "bênção" dessa natureza honestamente; sem subtrair do próximo; sem passar sobre sonhos, esperanças, dignidades alheios.
Mestres como esse que infecta este relato promoveriam carnificinas diárias se fossem médicos. Bastaria que os pacientes dessem um pouco mais de trabalho. Representassem desafios maiores ao seu ofício e à sua condição de ser humano. Para ser honesto, eles já fazem isso de alguma forma, eliminando ou diminuindo a chance de os nossos jovens terem acesso a uma formação cidadã, com vistas a um futuro de livres pensadores, guerreiros da paz e da personalidade, na construção de um mundo melhor. A sociedade precisa "mestruar", expulsando no fluxo da indignação esses germes que a contagiam simuladamente.
Mais do que todas as outras classes, o educador deve ser exemplo de abnegação e amor à causa. Se há pelejas, litígios, enfrentamentos com os governantes ou empregadores, isso é legítimo dentro da lei e da civilidade. Mas com os governantes e empregadores! Não haja para os alunos, repasse das injustiças que realmente assolam os professores.
SOCIAL E AFETIVO
Por mais que poetas bestas como eu tentem negar, o amor é tema social. Tão social quanto a fome, a corrupção, a violência e tudo o mais que frequenta os arroubos e xingamentos de poemas e canções que latem contra o governo, a ONU, a igreja, a justiça... É social, engajado e tem a mesma sintonia com o mundo, ostentada por meus escritos cortantes, debochados, irônicos, raivosos ou tomados de frustrações.
canções e versos de amor discorrem sobre os mais fundos sentimentos universais: O ciúme, a solidão, a saudade, a paixão desmedida. Retrata eventos e conflitos vivenciados por pessoas de todas as classes: A dor de uma despedida, uma traição, a volta do ser amado, a morte, o divórcio, a conquista, o casamento, os sins e nãos que que nos cercam; pautam nossas histórias e nos enriquecem.
Cumpre sim, uma importante função social, a peça melódica ou literária que denuncia desmandos, injustiças e descasos... Também o faz a que aborda a afetividade, os desempenhos da emoção, pois o mundo chora e ri; se regozija e sofre; sussurra e grita; mata e morre por amor, paixão, desejo. Se tudo isso é brega, a breguice atinge os cultos e os iletrados, os pobres e os ricos, nobres e plebeus, e não distingue raça, credo, etnia, opção sexual...
Resguardados os gostos - que não seguem leis, estatutos, comandos -, há que se respeitar as canções e os versos de amor. Eles também denunciam, conscientizam, descrevem a sociedade. O romantismo se incorpora, se alista e milita nas fronteiras do coração, numa guerrilha incansável por um mundo perfeito em que todos amem, sejam amados e felizes. Quem nunca é romântico está em constante fingimento. Enfrenta os ditos tubarões da política e de outros meios, mas se acovarda diante do que sente ou possa sentir um dia.
No mais, o compromisso maior do artista e do literato é com o apuro, a estética e a beleza do que fazem. A função social da arte e da literatutura se cumpre tanto no engajamento sociopolítico propriamente, quanto nas questões amorosas. O amor também é cidadão, e como qualquer tema será sempre belo, se bem cantado; decantado; pintado; composto; esculpido...
CANTEIRO DE MENTIRAS
Acredito em promessas jamais feitas
ou procuro colher o que não planto,
faço planos enquanto não me aceitas
e debocho da causa do meu pranto...
Tenho pouco e sou grato por ter tanto
quanto escravos das ordens e das seitas,
que se orgulham da sombra; qualquer canto
lhes imposto nos ritos e receitas...
Tal encontro que nunca foi marcado
numa esquina, na praça, no mercado
vive nesta esperança que carrego...
Uma bela canção sem nota e voz
mostra toda a verdade sobre nós,
na mentira real que adubo e rego...
AINDA, COMPANHEIRO?
Essa guerra dos canhotos
está presa em seus modelos,
lá nos velhos anos rotos
de novelas e novelos...
Os arroubos não têm cunho
nem sentido face ao povo;
não se brada ou cerra punho
pra surrar o mundo novo...
Numa lida que extenua,
desfraldando a estirpe alheia,
essa raiva nem é sua,
quando a todos bombardeia...
Não se exceda na importância
das legendas e dos mitos,
nos refrôes de militância
ou paráfrases e ritos...
Abandone as velhas castas
de caudilhos mal vividos;
as bandeiras estão gastas,
os discursos desprovidos...
Veja o tempo além da cara,
descobrindo a própria fé;
tire a boina de Guevara
e se arrisque a ser quem é...
HOMEM DO CAMPO
É um homem do campo... Tem uma simplicidade que mora na luz dos olhos e destila palavras sempre amenas, que são doces em seus pecados verbais e até mesmo em alguma gíria. É que junto às palavras flui a essência de seu caráter enaltecido por todos que o conhecem.
O que faz de melhor em sua vida é angariar amigos, porque não há quem resista ao seu carisma e às suas atitudes de pessoa que sempre age de boa fé, pensando nos seus iguais. Nunca foi desleal com um campanheiro e passou a vida sublimando as deslealdades de pessoas queridas, em nome de laços afetivos já criados. Valoriza sobremaneira as amizades, indo às últimas consequências para não perdê-las, ainda que a princípio suporte algumas feridas, que logo cicatrizam, pois a mágoa não pertence à sua rotina.
O nosso homem do campo é bem sucedido pela sua competência no labor, tanto quanto por seu espírito solidário e pela honestidade com os demais. Isso faz com que ninguém o deixe amargar sozinho as desventuras do acaso; das poucas fases mais duras que atravessa. Sua solidariedade colhe solidariedade nas horas mais decisivas. E ele nunca deixa passar em branco o menor gesto de alguém que o acolhe, seja como for, ainda que seja apenas com uma palavra de ânimo, conforto, incentivo e esperança no dia seguinte ao que lhe pareça o pior de sua vida. Não é comum, porque normalmente o que não lhe faltam são sentimentos positivos. Ele tanto os tem para uso próprio, quanto para distribuir entre os mais próximos.
Um exemplar homem do campo... Com virtudes que deveriam pautar todo o mundo, fazendo com que a vida fosse plena, melhor de se levar, valendo a pena pela brandura; o respeito mútuo; a carga de afeto capaz de promover uma longevidade qualitativa. Fossem todos assim, as guerras não seriam possíveis; a paz dispensaria campanhas. O amor não surpreenderia, por ser praxe universal.
Mas não se pode afirmar que nada o tira do sério. Na verdade, existem três coisas capazes de arrancar o nosso homem do campo de seu temperamento comum, estampando em sua expressão os mais acirrados traços de fúria. Ele não suporta arbitragem desleal, torcida fanática e treinador intolerante, chegando a ganhar cartão vermelho e sair do campo irreconhecível.
APENAS HUMANOS
Tenho medo é dos bons, que se adoram por isto,
que se vestem de Cristo e cultuam seus dons,
temo toda a pureza vendida nos gestos,
manifestos de paz de qualquer natureza...
Fujo a passos compridos de quem se apregoa
alma boa, sensível, de muitos carpidos;
nada quero da voz, do silêncio e trejeitos
dos perfeitos, ilesos, isentos de nós...
A distância maior dessa gente fingida
será curta, insentida, pedindo bem mais,
pois ninguém corresponde a tamanha fachada...
Quero gente mais torta, que seja normal,
de virtudes humanas sem placa na porta;
uma gente real, bem mais próxima ao chão...
MATURIDADE GLOBAL
Só o crescimento global da mentalidade humana será capaz de conter o aquecimento global, convencendo a natureza a "repensar" sua fúria.
DISSIMULANDO
Há um gosto agridoce de soltura falsa
derramado na valsa desta solidão,
corre um fel extremado na veia impostora
de quem diz que o vazio está cheio de mel...
A verdade atravessa o coração do sonho,
quanto mais me proponho atravessar a dor
que a mentira floreia, camuflando em traços
de mormaços risonhos que não sei de que...
Tenho cheiro falsário de pessoa sã,
pela glória vazia de ser desatado,
ser um dado que a vida vai lançando à sorte...
Bem no fundo, entretanto, és a minha ferida,
por enorme saudade que reduz o mundo
à gaiola das minhas dissimulações...
FRUTO AMARGO
Se tivesses me achado num tempo mais próprio,
quando mal assumia os primeiros tons rubros,
o dulçor ensaiava seu gosto em meus gomos
e ninguém me ceifara pra forjar na estufa...
Certamente serias minha sentinela;
Rapunzel da janela vigiando o fruto,
pra pedir aos pardais que não me desejassem;
garantir que as crianças me dariam paz...
Quem chegou me colhendo pra pôr numa caixa
não teria encontrado, me camuflarias
com tal graça e talento que minh´alma sabe...
Eu teria chegado à doçura do mel,
partilhado contigo meu pleno sabor
sendo eterno em teus lábios, teu corpo, tu´alma...
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