domingo, 10 de setembro de 2017

FÉ NO MEDO


Demétrio Sena, Magé - RJ.


Sou estampa fiel de quem não sou,
onde sei que preciso ter escudo;
vejo tudo ruir ao meu redor
ou alguma tocaia ser erguida...
Sigo pé ante pé, com fé no medo,
pois o medo prudente me preserva,
faz abrir o segredo e ver por dentro
minha chance de achar um horizonte...
Faço cara de mau pro mal que faz
uma cara de bem que não convence,
porque sinto que algo não é bom...
É um dom de conter a dor futura;
quando ponho dureza no que sou,
sou apenas legítima defesa...

RAZÃO


Demétrio Sena, Magé - RJ.

Não tenho condições financeiras de ter razão... nem de ser declarado inocente.

HEIN?


Demétrio Sena, Magé - RJ.

Já duvidei da certeza.
Hoje tenho certeza
do talvez.

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

SEM ECO


Demétrio Sena, Magé - RJ.

Nem saudade resiste ao menosprezo;
ela morre por falta de respostas;
quem a nutre sozinho sente o peso
do silêncio de cruz em suas costas...

As lembranças despencam das encostas,
quando escalam com sonhos indefesos,
onde havia esperanças restam crostas
de sentidos que agora estão obesos...

O que houve de bom fica sem chão,
feito bicho de brejo no sertão,
como rio que um dia ficou seco...

Foi assim que murchou meu sentimento;
minha massa incruou sem seu fermento,
pois a minha emoção ficou sem eco...

SOBRE SER LIVRE


Demétrio Sena, Magé - RJ.

Seguirei o meu rumo que não tem segredo,
afinal me livrei de ser livre de mim,
pra manter meus princípios do começo ao fim
e viver por amor, não por cabresto e medo...

Uma fé não me torne de neve ou marfim,
não me faça oprimir nem apontar o dedo,
quero eu mesmo compor e seguir meu enredo;
respeitar quem o faça, diga não ou sim...

Que ser livre já seja o maior patrimônio,
ter as minhas loucuras, ser alguém normal,
sem que nada me obrigue a virar samurai...

Não é minha essa rixa entre Deus e Demônio;
não serei um soldado do bem nem do mal,
pois deploro essa paz que só a guerra extrai...

AINDA QUERO VOTAR

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Muitas vezes concebo essa ideia de que o povo brasileiro deveria retaliar a classe política simplesmente não comparecendo às urnas, em todas as eleições. A punição exemplar pela corrupção política e a falta de políticas públicas em prol do povo, pelo povo, seria a negação do voto.
Logo retrocedo. Já houve um tempo em que não votamos, e isso não era nada bom, além de não ser nada que não se resolvesse, por exemplo, com o colégio eleitoral. Alguém ainda lembra? Pois é. Do jeito que as coisas vão, creio não ser ignorância temer que algo semelhante a um colégio eleitoral possa ser instituído pelo poder público, em forma de justificativa emergencial pela falta do voto popular. O não comparecimento em massa, do povo às urnas, pode ser tudo que o poder público destes tempos deseja.
Não tenho receita para este problema. Sou leigo em questões desta natureza. Tão leigo, que não descarto a hipótese de neste momento estar a dizer uma grande bobagem. O que posso afirmar com indícios de convicção, é que precisamos pensar um pouco mais, antes de levarmos a cabo certas questões que não dominamos.
Acho que, se com o nosso voto as coisas estão como estão, sem ele podem ser muito piores. Fatais, mesmo, para uma sociedade já enferma sociopoliticamente. Arrisco dizer que ao invés do não voto, é necessário que haja uma nova forma de votar, de conferir o voto, e que também haja leis que legitimem de fato o povo, mas o povo, mesmo, por meios jurídicos eficientes, a demitir políticos. Se o povo elege, ou seja: emprega, também deveria, de forma direta e não apenas pela pressão, ter o direito de "mandar embora", por "justa causa", qualquer político ladrão; fraudador; traidor da fé pública; mentiroso...
Se houve um tempo em que não tivemos direito de votar, e lutamos tanto por esse direito, abrirmos mão seria devolver aos políticos o que temos de mais precioso no campo da cidadania. Devolveríamos ao poder público a prerrogativa de criar seus engenhos escusos e misteriosos de se autoeleger, e perderíamos a chance de continuar, ainda que por longas décadas, a nossa procura das raríssimas, mas ainda possíveis agulhas no palheiro imenso da política brasileira.
Irei às urnas mais uma vez. Talvez para votar nulo, em branco, mas irei às urnas, com toda a revolta que me consome. O trabalho que me proponho é o de continuar minha busca por saber quem é quem; quem é primo, filho, sobrinho, pai, cunhado, cônjuge, amigo (...) de quem, para tentar, além de não reeleger, não eleger ninguém que reponha no poder público as mesmas caras-de-pau.
O que não farei de modo algum, é contribuir para que os políticos de sempre, que nunca deixamos de eleger, direta ou indiretamente, voltem a não precisar do meu voto.

terça-feira, 5 de setembro de 2017

QUEM SABE O MUNDO...

Demétrio Sena, Magé - RJ.



Tem que haver um lugar onde o mal não não triunfe
nem os maus instituam a sua vontade;
a verdade não seja o que o poder decide;
não exista o poder pra decidir por nós...
Pode ser que um lugar, talvez o próprio mundo,
tenha como acolher as verdades opostas,
para dar igualdade às nossas diferenças,
as respostas felizes aos sonhos de paz...
Um lugar onde a morte homenageie a vida
sem a dor e os gemidos da perda cruel,
a ferida profunda e a falta de chão...
E não seja domínio de um senhor de tudo,
nada lembre reinados ou hierarquias,
os escudos e as armas não façam sentido...

domingo, 3 de setembro de 2017

TEIA


VIDA QUE SEGUE

Demétrio Sena, Magé - RJ.
Deixo a luz decidir quando se apaga,
levo a sorte que teço enquanto isso,
encho a vaga de passos decididos
sobre minha serena indecisão...
Pego tudo que o tempo tem pra mim,
mas o tempo é que sabe até que ponto;
meio pronto e talvez metade plena,
sei apenas que o fim decide a hora...
Levo a vida que aceita me levar,
faço a parte que o mundo me delega
e meu ar é minério que garimpo...
É preciso valer o que se tem,
jogar limpo com todas as verdades,
ter saudades do dia de amanhã...

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

CORAÇÃO MALASARTES


Demétrio Sena, Magé - RJ.


Tenho minhas raivas. Mas como tenho raiva de raiva, só de raiva me acalmo. E tenho medos. No entanto, é tão grande o medo que tenho do medo, que o próprio medo me dá coragem de não tê-lo. Coragem medrosa, pelo medo imenso de voltar a ter medo.
Cheguei ao ponto em que o que dói já não dói. Aprendi a ter coração contestador. Contesto dor. É bem certo que ainda choro, e choro rio de lágrimas... mas logo rio do rio, por ver que tudo passa... que também passo, e nesse passo a vida é curta. Muito curta para que a gente não curta, mesmo em conserva.
Ninguém dirá que não sofre neste mundo. Muito menos eu. Mas me tornei tão Malasartes, que dei um jeito nessa questão. Sei sofrer sem sofrimento. O sofrimento não mais consegue me fazer sofrer. Tornei-me à prova de provas e aprovo tudo que vem, como forma de subornar os sentidos.
Foi assim que alcancei a graça de ver graça em tudo. Brincar de leve com o tempo e fingir que a morte não existe... ou existe, até, mas é minha colega; minha camarada. Chegará sem drama e cara de morte... como quem não quer nada... sutilmente cheia de vida.

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

O TREM DA IDADE

Demétrio Sena, Magé - RJ.


Certos dias nos cansam de todos os dias,
fazem dar uma pausa, projeto a projeto,
repensar esperanças, questionar certezas
que nos levam à força de nossa vontade...

Chega o tempo em que as horas parecem tardias
e batemos no fundo, quem sabe no teto,
no limite abusivo de nossas tristezas
quando só a mentira parece verdade...

Há momentos eternos na dor das lembranças,
nos vagões de saudades que o peito conduz
para quando e pra onde ninguém vai dizer...

A idade não segue sem suas cobranças
nem os ombros conseguem não sentir a cruz,
apesar do mistério que nos dá prazer...

AMIGO

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Um amigo enriquece os caminhos do mundo;
ameniza os espinhos impostos aos passos,
tem os braços abertos pra nos libertar
entre abraços, palavras, às vezes silêncios...
Ter amigos completa quem somos em parte;
os amigos nos catam e colam de novo
quando a vida nos quebra, nos deixa no chão
ou nos rasga e semeia nos rodamoinhos...
Amizade sincera jamais evapora,
não há tempo e distância que a façam ruir
e seu tempo é agora, pouco importa o tempo...
O amigo nos guarda no dom de quem é;
sua graça nos basta com força de lei
onde a fé no destino quase crava os pés...

domingo, 27 de agosto de 2017

A CURA


Demétrio Sena, Magé - RJ.

Vencerei seus efeitos como quem se rende
aos ataques constantes de sua má fé,
tenho fé no meu sonho de voltar pra mim
pra voltar a viver e te matar por dentro...
Quero dar aos meus olhos um novo amanhã;
desenhar nova linha pro meu horizonte;
coroar outra deusa pra reger meu mundo;
ser a fonte perene dos versos mais meus...
Calarei o que dói nas lembranças que trago
ao curar seus estragos em minhas entranhas,
costurar os retalhos rasgados na alma...
Lá no fim deste amor que parece não ter,
sei que mora o caminho pra sair do escuro
e romper esse muro que fecha meu céu..