domingo, 6 de novembro de 2011

PELA LIBERDADE

Quem quer viver sem domínio... Não pode morar em edifício... Pois edifício é condomínio.

NÃO MORRER DO QUE MATA


Sempre viva de amor, mas preserve a razão,
lapidando emoções que machucam tão fundo;
ponha chão sob o céu de seu sonho afetivo
e não fuja do mundo e de suas verdades...
Use a mente onde o peito reclame das mágoas,
transformando passados em planos de além,
deixe as águas de outrora seguirem pro mar;
faça um bem a si mesmo vencendo as lamúrias...
Ame sempre outra vez, entretanto não lance
toda chance da vida em nenhum dos enlaces;
noutras faces da vida pode fazer falta...
Poupe a sua emoção pra ter sempre a sentir
sem pedir concordata no dom de querer;
nunca morra de amor, pois morrer de amor mata...

SALVANDO O CASAMENTO

Se o seu marido ronca muito à noite, e você está a ponto de "pular fora", eis um bom conselho: Feche os olhos, acalme-se, e tente imaginar que o ronco é do motor de uma Ferrari. 

BOA VIDA

Com apenas alguns salminhos, muita gente garante seus salmões.

GALETO


Girando no espeto
um galeto solitário.
Plateia canina.

BONDADE ANUAL


Feche o zíper do riso arquitetado;
seu agrado é cilada previsível;
quase todos estão na mesma estampa
que propaga o batido amor cristão...
Passo ao largo da paz obrigatória,
minha história se traça livremente,
sei dos rumos da vã filantropia
com que a mão atrofia o ser humano...
Seja inteiro, espontâneo, visceral;
nunca raso, vazio, momentâneo,
nem cutâneo, levado pelo arroubo...
Nestas horas de surtos de vontade
guarde sua bondade natalina,
cuja naftalina me sufoca...

IMPRODUTIVOS


Ao ficarmos brincando de ser nossos
numa história que há muito se desfez,
como quem sem a carne rói os ossos,
faz de conta que a tem mais uma vez...

Burlaremos em nós todas as leis,
colheremos bagaços e destroços
nos divãs, nas milícias ou nas greis,
numa fuga enfadonha dos remorsos...

É que um dia, esgotado o nosso prazo,
tudo fica tão vago, insosso e raso
e não pode forjar qualquer motivo...

Depois resta o caminho da procura
do milagre, o fenômeno da cura,
qualquer outro caminho improdutivo...

SANTAS TOCAIAS


Pés no chão, sobre as pedras vou descalço,
porque toda ilusão ficou grotesca,
tudo se transformou nessa batalha
sobre a palha em que o fogo não se adia...
De repente se fundem bem e mal,
o divino e o profano se confundem,
pois estão empunhando as mesmas armas
e se valem das mesmas armadilhas...
Já nenhuma eclesia, por seu fundo,
tem um peso que ao mundo possa impor
pra mostrar os desígnios do além...
Vem à luz a verdade adaptada
que se rende à penumbra e trai a fé,
onde o pé nem pressente o fundo falso...

ALCATRÃO


Perco tempo em teus braços me deixando alheio
às verdades que rondam minhas utopias,
ao sentido que a vida, faz tempo não faz
para quanto me rendo ao que sinto por ti...
Minha entrega esvazia os estoques internos,
quase nada me resta pra ser ou guardar
e viver do meu jeito sem tua influência;
vislumbrar numa linha o livro do horizonte... 
Faço ponto em teu corpo e te sinto sem alma,
gasto minha emoção sem retorno afetivo,
ponho beijos no poço de tua frieza...
Sei do quanto me perco neste desperdício,
mas é vício que tenho do teu alcatrão
que requer sempre mais do que ponho a teus pés...

AINDA SOBRE A SAUDADE

A saudade é uma coisa que sentimos de cada governante anterior, por pior que ele tenha sido.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

TODO O NADA


Sigo extático em meus dias...
Pois o vento que nos leva
não me põe no tempo exato...

Minhas horas são tardias,
perco sonhos entre a treva
do que morre à luz do fato...

Mil projetos, todos tortos,
quando ejeto implodem nulos
e parece que nem fiz...

As viagens não têm portos
e minh´alma perde os pulos
onde caça ser feliz...

Vou sentindo força e cio
se esvaindo sem ter fundo;
quanto à queda falta o chão...

MOLDURA DA SAUDADE

Identificamos a saudade quando dias alegres, multicores, ensolarados... Parecem dias tristes, frios e cinzentos.

SEM INFÂNCIA

Há medos desnecessários em nossa vida, pela crueldade e o assombro com que nos assolam... Mas devo confessar que morro de pena dos adultos de minha idade que tiveram uma infância sem a doce oportunidade de ter medo da cuca, do bicho papão, do velho do saco e da mula sem cabeça. Chego a me perguntar se eles tiveram de fato uma infância.