segunda-feira, 7 de setembro de 2015

VAIDADE HUMANA


Demétrio Sena, Magé - RJ.


É a mania de grandeza que nos torna pequenos e fúteis para reconhecer a real grandeza dos pequenos gestos. Das palavras discretas. Das profissões humildes. Dos pequenos passeios. Dos momentos e os espetáculos menos espetaculares. Pelo nosso apego extremado à ostentação e às impressões do todo, somos pobres dos detalhes que nos enriquecem a partir da essência.

SOCIEDADES INTERNAS


Demétrio Sena, Magé - RJ.


É profundamente lamentável quando as irmandades ideológicas ou de fé, os grupos de amigos ou confrades e as comunidades familiares decidem, velada ou ostensivamente, conscientes ou desapercebidos copiar a sociedade externa em seu aspecto mais pernicioso: estabelecendo o valor de cada um de acordo com o que possui. Com o que brilha na estampa. Com os favores e as bondades materiais que oferece; as vantagens que pode proporcionar. Às vezes, pelas meras fagulhas de prestígio com que possa beneficiar os potencialmente mais próximos ou mais identificados.
Fica bem mais difícil viver em sociedade, se até os nossos habitats estão divididos em classes e o respeito atende às demandas de conveniências, cotas e participações financeiras nas quais o desfavorecimento dos menos afortunados não é levado em consideração. A injustiça social que gera ódios, conflitos, guerras declaradas ou frias mundo afora, muitas vezes se justifica, injustamente, nas divisões em classes que se afagam ou se digladiam de acordo com expectativas e conveniências ou incômodos e caprichos nas relações mais estreitas.

terça-feira, 1 de setembro de 2015

MAGIA DE VIVER

Demétrio Sena, Magé – RJ.


Sei que nunca fui sábio; só sabão;
minha carta não soube ser cartão
quando mais precisei me apresentar...
Mas cansei; ao cansar virei canção,
virei ave, cresci, sou avião,
alcancei meu espaço pelo ar...
Meu caminho cresceu, é caminhão,
fiz da poça caldeira de poção
ao notar como é mágico viver...
Eu saí do comum pra comunhão,
nunca mais me fizeram de pagão;
desde quando acordei, pago pra ver...
Vou sem lente, não quero lentidão,
faço coro ao que vem do coração,
sem perder o teor de minha mente...
Forjei aço com sonhos em ação,
tive raça e da raça fiz ração
pra ter forças e sempre andar pra frente...
Terminei o plantão; a planta enfim,
dá seus frutos; a vida ri pra mim;
tive perdas, mas tenho meu perdão...
A tristeza não faz o velho efeito
e ser só foi pro sótão do meu peito;
já não solidifico a solidão...

ORGULHOS E SILÊNCIOS

Demétrio Sena, Magé – RJ.


Nunca fui um sujeito com quem se possa contar para o que demanda força bruta, influência e dinheiro. No entanto, foram muitas as vezes em que pude ajudar de alguma forma pessoas próximas e queridas, o que faria de bom grado, mas, na maioria das oportunidades elas próprias me algemaram.
Evidentemente, se eu fosse uma pessoa invasiva, cara de pau, indiscreta, não teria falhado em notar e socorrer. Também não teria falhado se tivesse o poder de olhar além. Ver através de orgulhos e silêncios, para saber exatamente onde atuar e não temer censura, se algo não saísse a contento.
Como não tenho tais poderes nem me dou aos desfrutes da intromissão, teria sido providencial se tais indivíduos tivessem tido a grandeza de ser humildes. De confessar e pedir. De baixar o ego e não esperar que eu suplicasse para fazer algo por eles, mesmo sem saber o que.

Quando me foi permitido notar que precisaram de mim, já não precisavam. A essas alturas, eu era o famoso monstro insensível. A criatura egoísta e desumana que se juntou ao resto do mundo, também egoísta e desumano, para lançar à própria sorte as vítimas temporais do infortúnio e da solidão. 

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

PRAÇA

Demétrio Sena, Magé – RJ.

Dou-lhe tempo e distância pra sentir saudade
ou querer mais distância, mais ausência e vácuo,
pra saber a verdade sobre a falta ou não
que lhe faz meu afeto extremado e carente...
Cedo espaço e dilato as paredes do mundo,
vou pros lados opostos a sua incerteza,
caio fundo no abismo e lhe deixo à vontade,
sem olhares; boletos; cartas de cobrança...
É que tanta procura já se tornou caça;
uma praça de sonhos que abato e conservo;
esperanças no sótão de minhas ruínas...
Guardo as armas e a voz do silêncio de assalto,
pra você me querer por arbítrio e de graça
ou deixar minha praça renovar os sonhos...

BEM-ME-QUER

Demétrio Sena, Magé – RJ.

Quando fores quem pede ou assedia,
por um dia, um momento, pouco importa,
não quem cede, avalia, vê se dá,
serei risos gratuitos pra mim mesmo...
Como quem cumprimenta o próprio espelho,
farei gestos de apupo e reverência,
por achar o meu olho em um olhar
que me dê transparência pra seguir...
Seu amor sem patente nem escala
será santo remédio em minha estima;
meu afeto não rima hierarquia...
Vou deixar a saudade ser mais tua
uma vez, uma lua, um por acaso;
terminar uma flor no bem-me-quer...

NO FUNDO

Demétrio Sena, Magé – RJ.

Não tente saber quem são determinadas pessoas que você sempre olha, mas não reconhece, pelo quanto variam de humor, comportamento e personalidade. Tais pessoas não são. Nunca foram. Só estão.


PALAVRÃO

Demétrio Sena, Magé – RJ.

Xingaria o mais alto que pudesse,
pra quebrar os andores do poder
com a fúria do verbo e do seu eco
nas tocas das excelências.
Nos covis das majestades.
Nas tocaias da hipocrisia
dos que dominam por lei
ou por farsa e graça
da liturgia.
Eu queria gritar o palavrão,
pra ferir os ouvidos do político,
do jurista e  do sabiocrata,
do mandachuva cristão,
de todos os que se arrogam
donos das virtudes
e da verdade.
Por sobrevivência ou medo,
Xingo baixinho; em segredo:
Honestidade... honestidade. 

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

CHUVA DE GRANITO

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Fiquei confuso e assustado ao obter de um amigo informação de que houvera uma forte chuva de granito em sua cidade. Se uma chuva de granizo já é capaz de causar estragos, e a depender da intensidade ou do tamanho das pedras até mesmo tragédias, imagine o que não faria uma chuva de granito, ardósia ou mármore.
Confesso, entretanto, que a informação de meu amigo também me levou a fantasiar. Sou mesmo assim, em razão de meu espírito gravemente poeta... e sem cura. Imaginem vocês, que de muito fantasiar durante o dia, tive um sonho inusitado, à noite. Tudo por culpa da informação fantástica de meu amigo.
No sonho, meu quintal bastante arborizado, até bucólico, foi presenteado por uma chuva fina, inofensiva e bela, não de granizo, granito, ardósia nem mármore, mas de rubi. Rubi em grãos delicados que pousavam suavemente sobre as folhas das árvores e deslisavam ao chão, onde pude colhê-los, feliz da vida.

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

TITANIC

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Aos distantes distância; não sou caçador;
quem quiser que se anule na própria vitrine,
seu andor, sua névoa, caverna de luxo,
solidão em letreiro de apurada estirpe...
Vão em paz no silêncio do conflito interno,
ergam bem as narinas, trasladem o ar,
pois voar não é próprio de quem se rendeu
ao inferno do céu da soberba e da imagem...
Seletivos, seletos, filtrados em bloco;
solidões que se pescam; tristezas douradas,
dou adeus a seus nadas alheios ao mundo...
Pros dispersos a Pérsia; libero meu mar
e num gesto, num click, um descuido certeiro,
meu olhar derradeiro pro seu Titanic...