domingo, 15 de fevereiro de 2026

Vertigem Crônica

Demétrio Sena - Magé 


Algumas conversas jamais ocorrerão. São muito necessárias, seriam salutares, elucidativas e até salvíficas, mas prosseguirão evitadas a vida inteira, por faltar a certeza do que é certo. Por tropeçarmos nessa redundância, em cada quase que nos puxa para trás, quando quase deixa de ser quase. Na hora que já não é hora de ninguém dar tempo ao tempo.

Reinarão para sempre as palavras não ditas, os olhares fugidios. O não falado pelo não dito, porque "diz o ditado", que, tanta coisa, que acabamos não acabando o que jamais começou. É uma eterna "terminativa" desencontrada, em razão de uma iniciativa que morre antes do próprio início.

São muitas as decisões não tomadas exatamente quando as tomamos dentro de nós. Alívios nunca vividos, porque nos angustiamos ante a sua perspectiva. Só tomamos coragem na boca da covadia, que nos engole com a sua coragem de manter tudo na zona do mais desconfortável dos confortos. O de ficarmos no lugar-comum que sempre foi nosso não-lugar.

Algumas conversas sempre serão desconversadas (ou fiadas, pois nunca serão cumpridas). Exatamente como esta crônica, que se revela mais crônica, no sentido patológico de grave, do que propriamente crônica, no sentido literário de crônica. Ninguém me leve ao pé-da-letra. 
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sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Requintes de Crueldade Alimentar

Demétrio Sena - Magé 

As carnes que nós comemos (todas elas, brancas ou vermelhas), passam por um processo de crueldade sem fim: cortes detalhados, retiradas de pele, vísceras, seleção dos pedaços mais macios e saborosos. Bovinos, caprinos, suínos, caças, aves, peixes, anuros, frutos-do-mar, todos passam, em menor ou maior escala, pelo processo frio do requinte de crueldade para fins alimentares. Nós, consumidores finais dessas vítimas cujos criadores dão nomes, acariciam, olham nos olhos e depois matam ou terceirizam "paixão e morte", não somos inocentes. Ocultamos esses cadáres em nossos estômagos. Algumas vezes, temos pequenas criações de quintal e o processo, da criação até a ocultação dos cadaveres, é todo nosso.

Mas quero falar de uma crueldade ainda pior (pois é possível), com os caranguejos, guaiamuns e siris. Eu me lembrei dessas pobres vítimas, por causa dos amigos Isac Machado de Moura e Cristiane Nunes Vicente, que há poucos dias encontraram um caranguejo em seu quintal e tiveram o trabalho sensível de reconduzí-lo ao mangue. Não mataram nem ocultaram o cadáver. Pois bem; a crueldade imperdoável cometida contra esses bichinhos é a seguinte: eles são postos vivos dentro de uma panela com água fria, que é levada ao fogo, e ficam lá dentro agonizando, se contorcendo, até morrerem pela fervura. Para comer a carne, o cunsumidor final, que foi também quem cometeu a "paixão e morte", vai tirando as casquinhas, comendo a carne escassa e chupando o caldinho. Requinte de crueldade do início ao fim. Oculta um pouquinho do cadáver no estômago e joga no lixo quase toda a carcaça, enquanto elogia o sabor.

Não estou tentando pregar o veganismo. Nem sou vegano; faço parte da crueldade alimentar humana. Sou carnívoro. Entretanto, cabe-me confessar que, além de não comer os bichinhos em questão, não tenho coragem de criar uma galinha, por exemplo, desde pintinho, batizar como Matilde, dar comida, carinho eventual, e depois passar a faca em seu pescoço, esquartejar, levar à panela, preparar e comer... ocultar seu cadáver no meu estômago, até que os últimos resquícios da "prova do crime" (que não seria investigado e punido) sejam despejados no esgoto. Embora não creia em divindades que religiões pregam, acho que ainda pagaremos por tudo. Não por nos alimentarmos; precisamos comer. Mas por sermos cruéis.

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terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Sobre Não Ser Só Sobre Nós

Demétrio Sena - Magé 


Faz pouco tempo que meti meus pés pelas mãos, ao tentar fazer uma homenagem a uma pessoa muito querida, e com isso, relembrar uma juventude de parceria literária e musical. Como desejei em princípio, que fosse uma surpresa, cometi uma invasão: selecionei seus trabalhos em rede social, com critérios unilaterais, para uma publicação não combinada. Eu nem sabia se no seu íntimo, e naquele momento, aquilo era um desejo seu, em alguma escala.

Depois que o ato se tornou público, tudo se agravou: ficou parecido, em entrelinhas, que eu quis ostentar;  talvez engrandecer minha intenção ou simplesmente fazer marketing pessoal utilizando outra pessoa. Pareceu quase tudo; menos que eu quis homenagear alguém, nestes tempos em que as intenções globais quase sempre apontam para os próprios umbigos. A pessoa em questão é muito ética; tem uma postura tanto pessoal quanto pública, de gentileza sem fim; de uma tranquilidade admirável; jamais faria tal acusação a quem afirmasse lhe fazer uma homenagem. Em nenhum momento me constrangeu com afirmativas.

Mas houve um distanciamento. Não físico, e sim, de conversas, que se tornaram menos frequentes; de olhares, que ficaram mais desbotados e dispersos... e de gestos, agora mais contidos. Isto não é uma queixa, pois fiz por merecer, com a minha imprudência. O texto presente não é para me auto perdoar em público; é só mais um texto, como sempre faço, do que transborda em mim, mesmo quando não é sobre mim. Ainda creio no pouco tempo de vida pela frente (já não somos jovens), para que passe o desconforto e o afeto recupere a intensidade.

Vivemos tempos difíceis, em que toda desconfiança se justifica; todo pé atrás tem o seu porquê. Realmente há muito narcisismo com capa de homenagem. Muita homenagem a si mesmo como se fosse a outros. Muito marketing pessoal com a utilização de terceiros. Não foi o meu caso. Mesmo assim, é bom refletirmos antecipadamente sobre como podem soar ao nosso redor, até os atos mais bem intencionados que pensamos em cometer. 

Peço que ninguém me defenda nem condene alguém nesta publicação. Reconheço a minha imprudência, com toda a sinceridade. Compartilhar é uma necessidade mais autoral do que pessoal. É aproveitar uma chance de transformar angústia em literatura e convidar leitoras/leitores a uma reflexão que pode valer a pena, sobre alguém decidir, sozinho, algo tão aberto ou exposto, relacionado a outra pessoa. Mesmo que seja uma surpresa ou homenagem sincera.
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segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Tudo Por Um Pintinho

Demétrio Sena - Magé 


Lá vou eu, mundo afora, em busca de um pintinho para fotografar. A solicitação estranha foi do Isac Machado de Moura, para mais uma capa de um livro seu. De pronto, parecia um pedido muito simples, mas aí percebi que no meu arquivo de milhares de fotos havia só uma, de um pintinho. Estava nas costas da mãe, quando cliquei. Então fui às ruas, e logo dei por mim que os aviários não vendem mais galinhas, frangos, pintos, patos nem outras aves de consumo alimentar vivas.

Para resumir, acabei conseguindo, mas muito às escondidas. Quem vende bichos nas ruas e nas feiras-livres está sempre muito desconfiado. Não usei minha máquina fotográfica, por atrair atenção, e o meu aparelho de celular não é dos bons. Tive que fotografar sem qualidade, para depois editar manualmente (jamais utilizo inteligência artificial). Foram várias fotos, diversificadas de seis originais. O Isac teve a sua encomenda e eu sobrevivi.

Na verdade, quase não sobrevivo, em razão de uma imprudência imperdoável, no meio do processo: Em dado momento, eu já bem cansado e desiludido, vi uma "Kombi de ovos". Daquelas onde vendem trinta ovos quase pelo mesmo preço de uma dúzia, no aviário, sendo que, tirados os ovos podres, resta realmente uma dúzia ou pouco mais. Pois bem; meio sem graça chego mais perto e, com um fio de voz pergunto, inadvertidamente: "Por favor; o senhor tem também pinto, ou só tem os ovos?". 
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domingo, 8 de fevereiro de 2026

Crônica Abstrata

Demétrio Sena - Magé 


Justa ou injusta, moderada ou extrema, o grau de confiança que temos numa pessoa depende apenas de nós. E diz respeito somente a nós. O que não dá para decidirmis conforme os nossos caprichos, é se haverá confiança, e caso haja, qual deverá ser o grau de confiança dessa pessoa, não em nossa pessoa, mas em nossa confiança. Muitos têm essa consciência, cotidianamente; no entanto, às vezes pecam por se assegurarem de pactos nunca feitos.

Não importa o grau de confidencialidade ou aproximação, mesmo tátil, que por acaso tenhamos com quem não temos relação amorosa. Essa pessoa nunca deverá ter de nós qualquer palavra ou gesto que sinalize para uma tentativa inconveniente. Para uma forçação de qualquer natureza. Ninguém tem como saber das nossas expectativas ou intenções; logo, ninguém pode se sentir cobrado, como se devesse uma reciprocidade que não foi prometida. E ainda que tivesse sido, essas questões não são leis; ninguém é obrigado a "cumprir" com o outro o que é de foro íntimo; envolve suas emoções e particularidades.

Algumas vezes nos tornamos armadilhas para nós mesmos, nessa dependência do que julgamos espelhos ou cavernas cujos reflexos ou ecos não estão sob o nosso controle. O outro deve ser sempre visto como o outro. Como indivíduo dissociado de nós. Qualquer associação, verbalizada ou silenciosa, deve ser uma simbiose desarmada; um encontro natural. Esta crônica é abstrata. Pode ser ou não sobre você. Logo, você decide o contexto, o sentido e a conclusão. 
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sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Pobre contra pobre

Demétrio Sena - Magé 


Os políticos e seus assessores têm todos os benefícios imagináveis (ou inimagináveis), para complementarem seus salários indecentemente polpudos. A folha de pagamentos do Congresso Nacional, por exemplo, corresponde a um valor maior do que toda a arrecadação de algumas cidades brasileiras. As folhas de pagamentos de câmaras estaduais e municipais não ficam muito abaixo. Em suma, os politicos e seus pingentes, em um todo, sugam quase toda a economia do país. 

Além dos salários indecentes, os ocupantes do poder público têm vale paletó, vale combustível, vale viagem entre outros, correção salarial acelerada e, anteontem, assisti a um noticiário que informava sobre passarem a receber vale peru e vale panetone. Enquanto isso, bolsonaristas pobres atacam pessoas ainda mais pobres, desempregadas e sem o mínimo para sobreviver, porque elas recebem micharias de vale gás, bolsa família, loas, e os estudantes pobres recebem o pé-de-meia, para terem condições de concluir seus estudos sem o impedimento da fome.

Para bolsonaristas, especialmente pobres, os ricos é que precisam de auxílio. Chegam a fazer envios de seus poucos recursos, via Pix, aos políticos, pastores midiáticos e outros poderosos que os comovem nas mídias. Não ajudam familiares nem amigos em situação de vulnerabilidade e chamam os ainda mais pobres de vagabundos. Mal sabem (ou não sabem) que também são chamados de vagabundos pelos vagabundos que eles ajudam a ficar cada vez mais ricos e vagabundos.
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sábado, 31 de janeiro de 2026

Dois Mundos

Demétrio Sena - Magé 

Em qualquer circunstância ou contexto ficaremos bem, se não dependermos de fatores externos para isto. Ou quando formos livres o suficiente para separarmos o que acontece ao nosso redor, inclusive conosco, da nossa estrutura psíquica; emocional. Há dois mundos distintos, para vivermos. Vejo como perfeitamente justo e necessário que o mundo interno seja o nosso refúgio, sem resquícios do externo, quando a "barra" está pesada. Quem sabe fazer isso vive melhor, porque tem onde se refazer; se remontar e redefinir para mais um dia inevitável. Pelo menos enquanto for inevitável mais um dia.

E, surpreendentemente, se soubermos manter a contento esse refúgio dentro de nós, e usá-lo com a sabedoria necessária, como já exposto, a superfície (o mundo externo) será beneficamente atingida. Ficaremos melhores, mais equilibrados, organizados, fortes e otimistas, no cotidiano. Para tanto, será sempre fundamental não dependermos de que ou quem nos rodeia, para nossa plena manutenção. Se não delegarmos a ninguém, o peso de ser nosso arrimo afetivo nem mental. Precisamos conviver com pessoas; interagir, aprender, ensinar e confidenciar. Mas não podemos viver das energias delas.

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quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Infelizmente, só pode ser...

Demétrio Sena - Magé 


Se a pessoa maltrata - e mata - animais. Se espanca os filhos ou põe panos quentes em suas atrocidades. Quando a pessoa é capaz de um feminicídio, ainda por cima na presença de uma criança, geralmente filha ou filho... é capaz de um homicídio por motivo fútil; de uma bravata violenta em lugar público, e de um ataque maciço, com expressão de completa normalidade. 
E se esse indivíduo truculento, machista, racista, homofóbico, sanguinário e fanfarrão se esconde numa igreja... no porte ostensivo de uma Bíblia... em trajes típicos de "cidadão/cidadã de bem" - olhe bem as aspas - ... se não sabe conversar, só impor no grito; se não suporta ideias opostas nem modos diferentes de pensar e ser... ataca os fiéis de outras crenças, procura incansavelmente na web notícias falsas sobre sociedade, política, pessoas públicas, cultura, literatura e seus fazedores, para republicar como reais... e detesta universidades, professores em geral, cabeças pensantes, personalidades próprias e livres...
Por fim, se a pessoa se põe acima do bem e do mal; tem O Possível Deus como seu Capanga; torce contra o próprio país, chegando a desejar - e pedir - que outro país lhe atire bombas... se acredita em um político moleque e vagabundo (que vaga, enquanto sua vaga ou cargo fica sem utilidade) ... e vê como benção, ser atingida por um raio, no meio de uma manifestação ensandecida e sem sentido... acha lindo cair no ridículo, quebrar patrimônio público, fazer cocô em cadeia nacional, pedir o retorno da ditadura, sem ter ideia do que isso representa.
Salvaguardadas as exceções, a criatura que é assim... que admira e apoia quem é assim... ou explora quem é, sendo mais esperta, porém maquiavélica, só pode ser bolsonarista. E se você disser que é bolsonarista, mas não tem nem uma dessas características, o que me resta é crer na sua palavra e dizer o que penso a seu respeito: você só não está do lado certo.
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domingo, 25 de janeiro de 2026

Das Procuras Perdidas

Demétrio Sena - Magé 

A confiança irrestrita e recíproca, em situações absolutamente impensáveis, de tão inusitadas, é algo extremamente compensador. Não tem preço. É quando a forma de respeitar e se sentir respeitado quebra todos os protocolos sociais de respeito... o contexto de se sentir seguro com alguém surpreende a todas as sensações interpessoais de segurança. Em especial, pela existência de um justificado "pé atrás" com o próximo, cada dia mais distante nas nossas expectativas.

O ser humano é incompleto porque, reservados os fenômenos, não confia nem desfruta dessa confiança. Não respeita nem é respeitado dessa forma solta e desastrelada dos critérios estabelecidos. Não sente nem passa uma segurança dentro desse contexto desarmado, entregue feito salto no abismo. Tudo é muito específico, pontual, pessoal, e demanda observações muito íntimas, unilaterais, com vista para grandes equívocos. O pior em tudo, é que de fato existem muitas e multiplicadas razões para tanta casca, tanto escudo e reserva, porque a regra da maldade humana comum transformou a confiança e a entrega desarmadas em exceção absoluta.

Qualquer "destransformação" pontual dessa realidade configura uma evolução revolucionária. Quem sabe, uma revolução evolucionária. Ou simplesmente uma reevolução... se é que algum dia fomos, de fato, evoluídos a tal ponto. Algumas procuras (como desse contexto de relação interpessoal) costumam ser para sempre. A procura, por si só, é uma tábua de salvação contínua e imperceptível. O problema não está em achar ou não. Está na desistência total da procura. 
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quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Umbanda: Religião e Brasilidade

Demétrio Sena - Magé 

A Umbanda é a única religião brasileira. Ela foi fundada no início do século XX, por Zélio Fernandino de Moraes. É uma religião que sincretiza principalmente os elementos das religiões africanas, mas também das crenças indígenas, do catolicismo e do espiritismo. Ao contrário dos que demonizam, e daqueles que acreditam nessa demonização infundada, a Umbanda se pauta pela caridade, pelos ritos mediúnicos, e tem uma forte ligação com a cultura brasileira. Sendo assim, os seus seguidores são os únicos religiosos da genuína brasilidade.
Minha mãe, que era evangélica, sempre foi muito próxima de umbandistas, e nos ensinou (aos meus irmãos e a mim) a respeitá-los e admirá-los. Quando crianças, vivíamos em situação de extrema vulnerabilidade. Os não familiares que mais nos ampararam com carinho, orientações, paliativos naturais e amizade, sem nunca tentarem nos converter, eram umbandistas. Lembro-me bem de alguns, mas não há como revê-los e agradecer.
Em todas as religiões, como em outros meios, há enganadores, exploradores, os que se aproveitam da ingenuidade, a bondade, até do fanatismo de alguns fiéis, para obterem vantagens e usurparem valores e bens. Mas quem menos age assim são os umbandistas. Geralmente, os pontos de umbanda são modestos, e os líderes sabem lidar com isso. Não exigem sacrifícios materiais dos fiéis. Cada um ajuda como pode, o terreiro que frequenta.
É também a Umbanda, a religião de menos líderes abusadores; menos envolvimento amoroso ou sexual antiético. Menos denúncias dessa natureza. Eles se ajudam, ajudam ao próximo, não perturbam a ordem, não perseguem outras fés, não obrigam nem tentam obrigar fiéis a permanecerem, contra a vontade. Mas é uma religião perseguida. Acusada de práticas sombrias.
Sou ateu; não acredito em divindades. Porém acredito nas pessoas e suas crenças, quando não são usadas de má fé. Pela Umbanda, tenho carinho, boas lembranças, gratidão, além de haver um contexto de cultura e brasilidade, para mim. Não sei como e quando são as reuniões ou liturgias da Umbanda; quem pode visitar ou colaborar. Mas gostaria de conhecer um pouco mais da religião; ser próximo de um grupo e contribuir para o seu crescimento.
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domingo, 18 de janeiro de 2026

Considerações amadoras sobre confidência profissional

Demétrio Sena - Magé 

Meio mundo, em algum momento, precisa de um psicólogo/psicóloga. Psicologia é um ramo da medicina que se pode chamar de oficina do ser humano. Já precisei, embora tenha explorado "extraoficialmente" uma grande amiga psicóloga. Há casos em que algumas sessões nos ajudam por toda a vida, e casos em que, por toda a vida, precisamos de revisões pontuais, para não voltarmos ao ponto de partida. Ou de fuga. E antes de prosseguir nestas impressões pessoais, é preciso dizer que são impressões pessoais; isto não é uma analogia técnica ou de natureza profissional.

Mas quero falar de uma terapia muito eficaz, que sempre me ajudou em minhas angústias, dúvidas e manias.... em meus temores e segredos em ebulição: a confidência. Confidenciar é um ato libertador, quando acertamos na escolha de com quem fazê-lo. Ter confidentes é algo cada vez mais raro nesta fase de mundo e sociedade, onde a correria rouba todo o nosso tempo de falar e ouvir... especialmente o nosso tempo de identificar criteriosamente em quem poderíamos acreditar para fazer confidências; abrir nosso coração, nossa alma, sem temer julgamentos e censuras do que é justamente a nossa razão de procurarmos um colo.

A confidência é curativo; profilaxia paralela; nebulização... às vezes uma injeção de Voltarém na alma, nas emoções e na psique, pois há momentos em que um bom confidente precisa ser mais incisivo, para depois passar um algodão, aliviar a picada com o carinho que "o depois" requer. E como confidentes estão escassos, aí é que entra a psicanálise, tão popularizada nos últimos anos. A psicanálise à moda Freud, pai da psicanálise. Não a psicanálise/pregação religiosa; nem a psicanálise/aconselhamento pastoral; muito menos a psicanálise/vamos orar, entregar nas mãos de Deus.

Em suma, relembrando a natureza do texto, explicada no primeiro parágrafo, a psicanálise é a confidência profissional. Importantíssima nestes tempos, desde que não tenha a venda casada da proposta religiosa e qualquer dissociação dos princípios freudianos. Ou seria a psicanálise despsicanalizada. Neste contexto, a psicanálise é (com pleno reconhecimento de sua importância) a enfermagem da psicologia. Eu diria que um quarto de mundo precisa de confidente; mesmo em forma de psicanalista.

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sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Oportunismo gospel de massa

Demétrio Sena - Magé 


Faz tempo que a música gospel brasileira deixou de ser sagrada; um ato litúrgico. Tornou-se modão e, diga-se de passagem, modão de mau gosto. Atua lado a lado com a música pop-sertaneja, que de sertão não tem nada; pois, reservadas as exceções, é feita de gritos que exaltam machismo, traição e valentia. 

Multidões de cristãos e não cristãos são arrastadas aos grandes shows de artistas que não fariam, não fizeram ou deixaram de fazer sucesso na música secular. Hoje o gospel faz sucesso, não como forma de adoração religiosa, e sim, de culto aos próprios cantores e cantoras. Esses artistas pulam, gritam e/ou fazem caretas como qualquer ídolo pop ou sertanejo, ao som de supostos hinos que imitam ritmos seculares da moda e acrescentam lamúrias e desespero, para temperar os shows de uma emoção cavada, exigida e de efeitos neurológicos. Não há imitações gospéis da MPB, pois o bom gosto musical pode significar o fracasso sumário desses cantores, em razão das preferências do seu público.

A esperança está na certeza de que os modões passam. A boa música, secular ou religiosa, permanece. Com o tempo, as músicas de natureza duradoura se sobressaem à futilidade das que chegam para saturar, faturar ao máximo e sugar os artistas meteóricos, que logo serão esquecidos. Da mesma forma, esse cristianismo bufão, cabo eleitoral de políticos extremistas, negociador de rebarbas do poder público passará. Não sei quando, mas passará. Ficarão os cristãos e outros religiosos cujos objetivos são os assuntos relacionados à fé sincera e genuína e à espiritualidade serena, humilde, centrada na busca do aperfeiçoamento das virtudes reais e plenas. 

O caminho do cristianismo se tornou muito largo. A religião virou força terrena e já não cultua o sagrado, mas a si mesma e aos poderes terrenos que lhe dão vantagem e força intimidatória contra as minorias. Em suma, esse cristianismo tem o sinal da besta, que facilita seus caminhos e dá poder de "carteirada".

E a música gospel, ao melhor estilo "poltergeist adaptado" é a grande parceira nessa hipnose, abdução ou convulsão coletiva.
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quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Ciclos

Demétrio Sena - Magé 


É difícil fecharmos os nossos ciclos... eles nos envolvem; são senhorios; não inquilinos de nossos caprichos. Ciclos são como círculos que delimitam as nossas fases. Não podemos despejar com facilidade o que nos abriga, e não o contrário. São necessárias algumas resistências e viradas, e há ciclos imensos, que nós passamos muito tempo tentando superar.

A questão é vencermos a nós mesmos, antes de partirmos para o enfrentamento contra o que nos rodeia, cerca, enclausura, "embarrica". E tudo fica mais difícil, se algum de nossos ciclos está confortável para nós... queremos mantê-lo, mas precisamos fechá-lo por pessoas muito queridas, que a nossa visão de comum, despojado e natural enreda ou elege, unilateralmente. Precisamos renunciar ao porto seguro, para que essas pessoas possam fluir pela bolha rompida e se livrar do que jamais pediram para viver a reboque dos nossos eus.

Em suma, fechar ciclos não é uma decisão caprichosa que resolvemos tomar como um truque de mágica. Decidirmos as nossas questões, não raramente envolve desatar os nós que tais questões ataram em outras vidas. Precisamos fazê-lo com muito critério e respeito por quem, de alguma forma, está em nossos ciclos... e não temos ideia de como será impactado.
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segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

Ainda Estamos Aqui com O Agente Secreto

Demétrio Sena - Magé 


Quem torce por esportistas, por seleções e atletas em mundiais, Pan-americanos e olimpíadas, deveria entender quem torce por artistas em disputas internacionais. Os esportes, as ciências e as artes de nosso país nos representam no mundo; logo, é justo nos orgulharmos de seus desempenhos bem sucedidos e suas vitórias. Está no sangue, no cerne, na composição da alma e das emoções humanas. Quem diz que "não ganha nada com isso", e que os agraciados diretamente é que estão "cheios de grana", só o faz por questões partidárias ou despeito. É amargo/amarga por natureza e só fica feliz com o que lhe favorece ou dá alguma vantagem.

Fiquei feliz há pouco tempo, pelas vitórias internacionais do filme Ainda Estou Aqui, as vitórias de Fernanda Torres e o Walter Salles, e agora estou feliz pelas vitórias do filme também brasileiro O Agente Secreto e do Wagner Moura. Por que não ficaria? Por acaso torço contra o sucesso da cultura brasileira? Torço pelo meu país em todos os campos positivos e honestos de suas atuações no mundo. "Ah; mas é dinheiro da Lei Rouanet!". Não, seu bisonho; a Lei Rouanet não contempla longas-metragens; mas contempla, sim, curtas e médias-metragens e outras forrmas de cultura; sabe como? O artista ou a produção faz o projeto, apresenta ao governo via canais oficiais da cultura e, se o projeto for aprovado, o artista ou a produção sai com ele embaixo do braço batendo de porta em porta, para que empresários banquem a produçõe e tenham pequenos incentivos fiscais. Pequenos, mesmo. Em resumo, a Lei Rouanet não mete a mão nos cofres públicos.

Agora; como você, que baba e espuma contra a legítima cultura brasileira é bolsonarista e na maioria das vezes membro de igreja evangélica, vou lhe dar uma aulinha: Sabe de onde saem as grandes fortunas pagas individualmente aos pseudo sertanejos e gospéis (plural de gospel) que berram nos palcos das pequenas e grandes cidades país afora? Diretamente dos cofres públicos. Fortunas que chegam aos municípios onde a Saúde, o Saneamento, a Educação e outros serviços essenciais são precários (moro em uma dessas cidades), e a cultura poderia ser bem mais relevante, legítima e justa economicamente. Sabe como? Com maior contemplação dos artistas locais e de alguns famosos com os quais não haja esquema de rachadinha ou nota superfaturada.

Mas você não pensa nisso; estou certo? Sua "onda", mesmo, é xingar quem não gosta de seus entes queridos Bolsonaro e filhos, que pedem bombas contra o Brasil. É mostrar que é macho, enfrenta até um chinelo de dedos... ao mesmo tempo, como patriota meia-boca, derrete-se de amores pelo bufão norte-americano, que só quer usurpar o seu, o nosso país; mais meu do que seu, porque você não o merece. Parabéns, Wagner Moura! Parabéns, autor, direção, produção e toda a equipe, desde os trabalhadores mais simples, pelo sucesso de O Agente Secreto! Parabéns à cultura brasileira! Os que torcem contra estão de luto... e nós, continuamos na luta!
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sábado, 10 de janeiro de 2026

Sobre com quem sermos quem somos

Demétrio Sena - Magé 

Alguns hábitos pessoais que cultivo, e são incomuns ao mundo externo, são tão naturais e saudáveis para mim, que preciso ter cuidado para não pensar que determinadas pessoas sejam como eu. Às vezes penso que são, ou tento crer, para me sentir menos "peixe fora d'água". Ou menos extraterrestre. Algumas vezes fui até feliz nessa procura tímida e silenciosa, mas, muito ao longo dos anos. 

É solitário pensar diferente ou ter conceitos menos fechados e um olhar informal sobre questões de pessoalidade. Não tenho como julgar o próprio mundo; até porque, sou eu quem distoa. Mas, ter conhecido pessoas semelhantes, ainda que bem poucas, ou muito de quando em quando, serviu para diminuir momentaneamente a minha solidão física. E ainda, para diminuir permanentemente a solidão interior, que continua profunda; entretanto, com doses de alívio e de alguma esperança em seja lá quem for.

Talvez todo o mundo tenha seu eu oculto e quase ninguém confesse. Ou ache que seu eu seja menos inconfessável do que o do outro; permitindo-se assim, a prática de julgar severamente a quem se abre ou expõe. E quem não quer julgamentos, continua oculto até encontrar com quem possa ser quem é... talvez depois de muitos enganos e desenganos, pela repetida ilusão de que já tenha encontrado.

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quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

"Sombriedade"

Demétrio Sena - Magé 

Tenho por hábito introspectivo me sentir julgado. Permanentemente julgado. Por palavras atravessadas, palavras não ditas entre as que se apresentam, e também por silêncios, distâncias, recolhimentos específicos e olhares. Diretos ou oblíquos. Inclusive de pessoas que deveriam me conhecer muito bem. 

Habituei-me a ser visto como alguém sombrio, neste país de tantas religiões das quais nenhuma é a minha. E sendo visto como alguém sombrio, por mais espontâneo, leve, sem mistério que eu seja - e sei que sou -, já enfrentei suspeitas de que tenha feito algo sombrio, não poucas vezes. Do nada. Simples e absolutamente do nada. Algumas vezes, sem nem ter havido algo sombrio para se atribuir a alguém. Com a única motivação externa, da minha não religiosidade... ou do que classificam como falta de Deus no coração. 

O que me assusta é ver tanta gente "com Deus no coração" fazer tantas coisas sombrias e se julgar iluminada, simplesmente por carregar a marca de uma religião; majoritariamente, cristã. Ou os preconceitos não são sombrios? Julgamentos, machismo, idolatria política, violências verbais e até físicas contra quem pensa, crê, vota diferente... exclusão, separarismo, ódio religioso... tudo isso é sombrio e me dá medo. Meu coração não sossega, não porque me julgam sombrio, mas porque vejo tanta sombra nisso.

Ninguém se arme. Nem se alarme ou se auto flagre com estas ponderações. Não estou pensando especificamente em você. Nem tenho como saber o que abarrota o seu coração. São apenas observações introspectivas, que ora "extrospecto" para suportar a sociedade que me cerca. A sociedade que sou.

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sábado, 3 de janeiro de 2026

Enquanto amamos ou odiamos sandálias

Demétrio Sena - Magé 

Cenários graves vão se desenhando, enquanto criam cortinas de fumaça, como a polêmica fútil sobre amar ou odiar as Sandálias Havaianas. Leis do poder público em diferentes instâncias contra o cidadão brasileiro, notícias importantes sobre decisões sociais que podem mudar nossas vidas, agendas culturais relevantes e avanços científicos globais passam por nós, enquanto estamos ocupados com futilidades. O ataque dos Estados Unidos à Venezuela, por exemplo,  foi um processo não percebido a contento, em razão do excesso de memes vazios que abarrotam a internet, mundo ao qual dedicamos boa parte de nossas vidas, mas não de modo adequado. Aceitamos notícias sem procedência, provocações que não merecem atenção e bolsonarismos comportamentais que já devíamos ter enterrado, enquanto passam "boiadas" decisórias dos poderes, quase sempre danosas para o cidadão comum.

A internet é rica em informação, arte, literatura e outros assuntos relevantes (entre preocupantes e prazerosos) que perdemos, porque estamos quase sempre concentrados em trocas de farpas improdutivas (existem farpas produtivas?), memes e brincadeiras que camuflam assuntos, informações e novidades que podem ser essenciais para nós. É ruim nos divertirmos na internet? Não. Claro que não. A diversão, o entretenimento e até as trocas de gozaçoes fazem parte da vida, dentro e fora do mundo cibernético, mas... não podem servir para nos alienar e deixar de fora dos acontecimentos e até das decisões internas e mundiais que têm o poder de mudar as nossas vidas. Para melhor ou pior. Temos uma ferramenta fantástica de avanço pessoal e corporativo, porém, usamos essa ferramenta contra nós mesmos.

Sem abraçar alarme, sensacionalismo e terror, cada cidadão deve dividir seu tempo entre os prazeres pessoais e as atenções que nossa cidade, nosso estado, o país e o mundo exigem. O avanço tecnológico cibernético deve significar nosso avanço como ser social; não o nosso retorno à idade média. De que nos vale uma conexão que nos desconecta com a realidade, transformando em mundinho pessoal o nosso acesso ao "mundão" em constantes transformações políticas, sociais, culturais e civilizatórias?
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Respeite autorias. É lei