quinta-feira, 3 de novembro de 2011

VERSOS DE ARENAS


Certos versos fazemos por fazer;
versos certos mas fúteis como a palha,
sem a falha que os curte ou apimenta
ou a menta que faz com que levitem...
São poemas que as próteses limitam,
que militam na força da linguagem
de linhagem feudal, muito aparato,
mas têm ratos que vagam pelo sótão...
Cestos frágeis, de canos de jornais
onde jaz o verniz que forja o vime;
muita estrela num time que não brilha...
Uns discursos de pedra esmerilada
destinados a prêmios em concursos;
versos próprios de arcádias, greis e grêmios...

PAZ FLUVIAL


Minha mente resvala na doce preguiça
do bocejo do rio vagando entre arbustos
e meus pés ganham valsa, o silêncio executa
notas mansas da trilha de minha emoção...
Quase nem me percebo seguindo esta margem,
refletido no espelho das águas serenas,
recompondo a poesia que às vezes desfaço
nos poemas feridos de sagas urbanas...
Meu estado é de graça, repõe o sentido
que faz tempo que sinto que a vida não faz;
uma paz fluvial rumoreja em meu ser...
Nostalgias profundas mergulham no rio
desaguando num mar de saudades tamanhas,
na fluência dum cio de recordações...

terça-feira, 1 de novembro de 2011

FILHA INTERROMPIDA


A menina amava o pai, quando ele deixou sua mãe. Tê-lo-ia mantido na estufa dos seus afetos se a sua mãe, principalmente, não tivesse feito em silêncio sua campanha para imprimir na página crucial dessa história um capítulo de frieza e distância entre pai e filha. O pai era louco pela menina, e sonhou que poderia preservar o laço afetivo, sendo presente em sua vida. Por algum tempo, todos os dias eles ficavam juntos durante horas. Ele lhe dava amor, atenção e proventos, respeitava sua rejeição à nova mulher e jamais a obrigou a frequentar sua casa. Nem tocava no assunto.
Com alguns arranhões emocionais, a filha estava feliz assim. Estava, mas tinha que esconder, porque além de sua mãe sofrer com isso, a sua avó materna e quatro tias solteironas a ridicularizavam com os olhos; um silêncio gritante às vezes, e quase sempre muitas indiretas sobre o mau caratismo do pai. Hoje ela sabe que o pai não era mau caráter. Foi apenas um homem que um dia abdicou da vida conjugal com uma mulher que já não amava e teve como agravante a humana covardia de esticar uma situação insustentável, tentando achar a melhor maneira de causar o menor sofrimento possível. Fez tudo errado, machucou muito mais a filha, justamente por amá-la tanto e sonhar com uma separação em que essas coisas fôssem separadas: Deixava a mulher, não a filha.
O egoísmo das que ficaram foi o que causou de fato um sofrimento irreparável e definitivo. Todo o mundo pensou em punir o pai, conquistar a preferência da menina, mostrar o quanto ele não prestava e, na busca dessa satisfação pessoal ninguém pensou nela. Neste momento a já moça vê claramente que teria frequentado a casa paterna, jamais teria se afastado e seria muito feliz ao lado do pai, se mãe, avó e tias não tivessem - ainda que veladamente, como fizeram sem se comprometer - promovido essa distância, esse afastamento, a reincidência gradativa de uma revolta que ela até vencera na época. Elas promoveram também sua sensação de perda irreparável por ter deixado seu pai morrer sem a reconciliação com que sonhava - sempre às escondidas.
Ela o "reperdoou" tarde demais. Quando emancipou seus sentimentos e se tornou dona do amor que nunca morreu, ele já não estava ao seu alcance. A menina passou sua adolescência obedecendo ao rancor de uma, ao orgulho de outra, ao capricho de outra mais, e cresceu frustrada, incubando a carga de afeto que tinha endereço proibido, podado, sob o signo da vigilância. Pensou em todos à sua volta e ninguém acordou para sua angústia de menina louca para assumir abertamente a fascinação pelo "pai bandido". Uma menina que jogaria todas as mágoas, tristezas e frustrações para o alto e faria parte da vida nova daquele pai, se o júri familiar demonstrasse claramente que a absolveria. Que mais do que isso, a apoiaria e ficaria feliz com sua felicidade. Todos foram tão corretos e fiéis às suas convicções, mas violaram o coração da adolescente. Invadiram sua fragilidade e fraudaram seus valores.
Seu pai partiu. Tomou a nave para outro plano. Das pessoas que a usaram como arma branca para feri-lo, nenhuma foi capaz de lhe dar o número de telefone do purgatório, para onde estão certas que ele foi. Nenhuma das virtuosas se dignou a clonar o zero vírgula algo porcento de positivo daquele homem para oferecer a sua filha como consolo na solidão insondável de seus dias por mais que lhe cobrissem de presentes, presença física, palavras de afeto extremado. Fosse o que fosse. As que "fizeram tudo" por ela jamais farão caber nas aspas desse tudo o que a levaram a perder pro tempo, pras intempéries, pra vida e pra morte.
O que nunca saberão todas elas é que a dissecação da imagem de seu pai o tornou mártir naquela cabeça. Um herói da imperfeição, da fragilidade, do amor capaz de se render a fraqueza diante da sua dúvida, do seu conflito, para não a expor a um campo minado. Elas, pelo contrário, tornaram-se as suas vilãs, pelo requinte de crueldade com que boicotaram sua relação apenas dando a entender, chantageando com os olhos e as xaradas breves, ditando o veredito sem bater o martelo nem comprometer a palavra. Não sendo claras, crivavam-na das dúvidas mais insanas e não lhe permitiram decidir, defender seus sentimentos, expor a sua carência e fazer disso o que lhe aprouvesse.
No fim das contas, o legado de suas escudeiras foi esse misto de saudade, remorso, frustração, amargura e mágoa. Julgaram ser tanta coisa em sua vida e não conseguiram substituir, sobrepujar, compensar o que lhe roubaram censurando - cada qual a seu modo dissimulado - e coibindo a atuação paterna em sua história. Tiveram a guarda do amor - por um tempo ela julgou amá-las sinceramente -, mas agora a menina, hoje crescida, só sabe olhar para trás achando sempre motivos novos para justificar o fato de que não as ama. Respeita e reverencia mas não ama, por mais que tente fazê-lo e sofrer menos com isto.

VÍTIMAS VOLUNTÁRIAS

Há quem sofra por vício, quiçá por capricho,
dependência emotiva de pranto constante,
quem se faça estragar e se lance no lixo
ou entregue-se às traças no tempo restante...

Muitos tornam-se livros perdidos na estante,
sem um olho que os leia, não têm atrativos;
viram vinho que excede no quanto é rascante
e ninguém mais os traga, pois faltam motivos...

São pessoas que sofrem sem ter sofrimento
que as eleve, enriqueça e lhes dê sentimento
com que possam forrar o vazio que medra...

Na verdade há quem morra por vida que sobra
sem um feito, uma história, uma marca, uma obra;
quem se torne pedreira por medo de pedra...

SURDEZ PEDAGÓGICA


Novamente o menino é levado ao castigo
- esse antigo instrumernto que forja educar -,
vai ouvir um sermão sobre o quanto não presta;
ficar fora da festa que a turma planeja...
Pela gola da blusa lá vai o menino
entender que o destino se traça sombrio,
que "ninguém é babá pra dar dengo nem colo"
e seu ato foi dolo, ele tem que pagar...
A "criança terrível que ninguém suporta"
vê na porta uma cópia da mãe repressora;
logo surge a do pai, que o surrou de manhã...
Acumulam feridas no corpo e na estima
o menino, a menina deixados à margem
da mensagem gritada por suas ações...

COMO PERDER A CLIENTELA


Há um abuso de intimidade nas drogarias, quando ficam fora do alcance direto da clientela certos produtos cujo pedido ao balconista causa constrangimento. Isso força uma cumplicidade - ainda que breve - que geralmente o freguês não quer ver estabelecida entre ele e a pessoa que está do outro lado do balcão.
Preservativos, por exemplo, não deveriam ficar trancados em vitrines, fazendo com que as pessoas se ruborizem ao pedir: "Por favor, me dê uma camisinha". "De qual, amigo? Temos esta, lubrificada, mais esta, com cheirinho de morango, e esta aqui é importada, superconfortável; entra que é uma beleza". O sujeito coça a cabeça, olha pro seu quase confidente como quem é flagrado numa situação vexatória, e muitas vezes parte calado sem levar o produto quase secreto.
A intimidade máxima entre o comprador de camisinha, a compradora de absorvente entre outros, e o balconista, deve ser a seguinte: O cliente entra, escolhe o produto no expositor, já com preço às claras e o leva até o balcão. O atendente acolhe a mercadoria, embrulha e a restitui após receber o dinheiro. Devolve o troco se houver, agradece e pronto. Nada de perguntas e respostas desnecessárias, como se ambos fossem colegas de longas datas.
Há um grande número de comerciantes obtusos, que perdem freguesia por lhes faltar visão dessas questões. Outro exemplo disto são aqueles que não põem preços à mostra. Quem quer comprar várias mercadorias, mas primeiro quer saber quanto custam, não se dispõe a perguntar o preço de cada uma. Prefere procurar uma loja que respeite mais o consumidor, não impondo arapucas como a de fazê-lo achar que incomodou o atendente e por isso deve comprar com ele, ainda que tudo esteja - e nestes casos sempre está - muito caro.
Essas e outras situações são constrangedoras, e cliente que sofre uma saia justa costuma não retornar. É assim que muitos vão à falência e não entendem o porquê...
Principalmente quando são estabelecidos em pontos de grande movimento e vêem seus vendedores ganindo à cata de uma "senhora dona de casa"; um "senhor chefe de família".  

MEIAMEIAMEIA


Viver tudo no tom do que me resta
onde a vida encolheu na eternidade,
quando acaba no meio minha festa
e não posso inverter a realidade...

Meu olhar já se nubla de saudade
vendo a vida por menos que uma fresta,
pois a besta chegou rompendo a idade
de quem traz o sinal na flor-da-testa...

Catarei as migalhas indo ao fundo,
cada gueto em meu sonho será mundo
se minh´alma já perde o próprio dom...

O juizo final que se agiganta
prende o grito nas cordas da garganta;
só fui rei pra chegar no Armagedom...

BICHO LIVRE


Tenho fé na modéstia dos atos contidos
que no fim dão seus frutos e ninguém o diz,
fazem suas surpresas adoçando a vida
e me fazem feliz, nem que seja um momento...
Sei ouvir do silêncio as mais fundas verdades,
dispensar as palavras que jorram de alguém
cujo verbo é poeira num redemoinho;
cuja lábia tem vinho excedente no açúcar...
Nunca espero virtudes de quem as ostenta;
sempre dei o meu voto ao que todos deploram
porque nunca se rende a conceitos impostos...
Tenho pele de lobo, e no fundo sou mesmo,
quando certas ovelhas me tomam por bobo
e me querem nas cercas do mesmo redil...

INCOMPLETO

Quem dispensa o que na verdade quer, não o faz completamente, porque dispensa mas não... "despensa".

COM SONETO


Verso livre não geme sob a média
que proíbe rasgar o próprio espaço,
nem é potro contido pela rédea
ou limite marcado por compasso...

Tem a vida no fio do seu traço,
torna leve a carcaça da tragédia;
reconhece, o soneto que ora faço,
seu poder de zombar da enciclopédia...

Ele é livre até mesmo pra ser pobre,
dispensar as disputas pelo cobre
da medalha que diz de quem o trono...

Quem quiser que sacuda o verso manco,
dê-lhe voz de prisão por livre ou branco,
pois estou com soneto, estou com sono...

MANHÃ DE JUNHO


A teia grisalha
reflete um micro arco-íris...
Aurora junina.

BASTA ESTAR

Quem está feliz deve se dar por feliz... Porque ser é uma raridade.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

MANIA DE NÃO GRANDEZA


O riacho me atrai, o mar nem tanto;
quero canto e me esquivo da cantata;
ter a lua na poça me contenta
muito mais do que auroras efusivas...
Meu momento resume a eternidade,
para mim o infinito está na esquina,
tenho mina de sonhos moderados
pelos quais tudo é pouco, mas é meu...
Nunca fui de cavar apoteoses;
entre as trevas e a luz quero a penumbra;
a mangueira me serve de mansão...
Conto estrelas enquanto não me cansa,
depois deixo que o sono feche o céu
na bonança da conta que perdi...