domingo, 10 de agosto de 2025

DE PAIS E PAIS

Demétrio Sena - Magé 

Milhões de pessoas de todas as idades brigam na justiça pela inclusão do sobrenome de pai biológico em suas certidões de nascimento. Algumas delas até conseguem. De outras, esses pais fogem; litigam até o último instante, para não cederem seus sobrenomes. Uns pais têm famílias que não incluem esses filhos e "temem" reações familiares. Outros temem o envolvimento afetivo que resultaria eventuais necessidades de ajudar a esses filhos, como muitos esforços para se perdoarem e fazerem as pazes com o passado

Há os pais provedores. Que não deixam faltar nada de material, nenhum item de necessidade básica ou dão até muito aos filhos, mas negam carinho. Nunca dão atenção. São desnecessariamente rígidos e estimulam com seus comportamentos duros e agressivos, o machismo dos filhos, a subserviência das filhas à sociedade patriarcal. Tem ainda os pais presentes fisicamente, até bonzinhos, porém distantes; que manifestam um eterno tanto faz, com suas presenças ausentes que machucam os filhos. Há pais que os filhos e filhas veem espancando suas mães e também são espancados/espancadas por eles. E os que só se orgulham do possível sucesso material dos seus ou demonstram preferências paternas com esses critérios, o que gera muitos traumas filiais para toda a vida.

É muito comum conhecermos mães que também são pais, na ausência dos mesmos. Mas é raro conhecermos pais que também são mães, na ausência delas. Tem pais biológicos que na verdade não são pais. Ao mesmo tempo, tem pais adotivos ou padrastos que são puro amor; verdadeira paternidade. São dotados de plena capacidade afetiva, que recheia todos os flancos de filhos e filhas rejeitados ou cujos pais faleceram cedo. Armadilhas e acolhimentos da vida, que alegram ou entristecem profundamente alguns dias em especial, comemorativos ou não. Entre eles, o dia institucional dos pais.

Aos pais capacitados pelo afeto, pela consciência e a responsabilidade, sejam eles consanguíneos ou não, remeto o meu abraço e minha total admiração. E aos que renegam, maltratam, abandonam, discriminam e/ou manifestam seu tanto faz, remeto a minha moção pessoal de repúdio, como filho que cresceu sem esse amor, essa presença, essa responsabilidade afetiva que quando faltam, deixam um abismo dentro de nós. Esse abismo é administrável, com muitos esforços internos, mas nunca deixa de ser abismo.

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sexta-feira, 8 de agosto de 2025

SOBRE ADMINISTRAR OS TRAUMAS

Demétrio Sena - Magé 

Que todo mundo tem problema, é um velho clichê inquestionável. Se eu tive uma infância difícil, com certeza nem se compara com a de muita gente com quem convivo ou não. Gente que tem suas sequelas, mas como adoto fazer, também não vive castigando pessoas queridas o tempo todo. Se adentrarmos profundamente a vida pregressa de qualquer pessoa, veremos que não existe ninguém sem traumas. Mas a maioria segue. Não se agarra nem faz das lembranças tristes uma trágica zona de conforto.

Convivemos com algumas pessoas, temendo suas reações. Tensos e atentos a seus chamados e sempre concordando com muita coisa, sem concordarmos de fato, senão essas pessoas viram feras. Muitas têm uma inteligência mental fora do comum, mas lhes falta inteligência emocional. E todos nós precisamos da inteligência emocional, para não ficarmos isolados de todos os nossos afetos e não nos tornarmos os opressores diários daquelas pessoas que nunca nos abandonam. Termos inteligência mental, sermos capazes, nos faz arrogantes, intratáveis e difíceis de lidar, quando falta inteligência emocional.

Termos sofrido na vida nem sempre nos amadurece e nunca nos torna o farelo derradeiro da última bolacha do pacote. As pessoas não têm que se submeter aos nossos arroubos, desaforos e surtos em mome de um passado sofrido. Se o sofrimento não nos amadureceu ou tornou pessoas mais humildes, empáticas e solidárias, não somos capazes como seres humanos. Nada vai nos ensinar a viver nem a olhar para o próximo e ver nele um semelhante. É algo deprimente, ser sovado e nunca se tornar pão.

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quinta-feira, 7 de agosto de 2025

PARAÍSOS E ABISMOS DA SENSIBILIDADE HUMANA

Demétrio Sena - Magé 

Se alguém lhe disser que é poeta ou artista, em qualquer modalidade, pode acreditar que sim. Sua escrita será poesia e suas tintas, formas e/ou seus traços serão artes. Para mim, funciona como auto declaração identitária. É o mesmo caso da identidade de gênero. Se uma pessoa se auto declara mulher ou homem, não importa se ela tem pênis ou vagina; voz grave ou falsete. Vou tratar e respeitar essa pessoa de acordo com a sua declaração; porque isso é unicamente sobre ela; não é sobre mim.

As artes e a poesia têm essa licença; essa permissão e legitimidade, porque poetas e artistas não são forjados por diplomas. Há formações acadêmicas que atendem a tais classes, mas o talento é de quem é; não exatamente de quem se forma, embora o conhecimento formal seja importante, por questões de aprofundamento e/ou mercado de trabalho. Será falsidade ideológica uma pessoa não formada em medicina se dizer médica; não formada em direito se dizer advogada ou se declarar arquiteta sem formação acadêmica. Não é assim nas artes; não é assim na poesia, como não é na identidade de gênero. Nesses casos, tudo vem da auto percepção, da intuição pessoal, do sentimento profundo e da alma em seu estado mais puro.

Posso não gostar de uma poesia de alguém. Mas ela continuará sendo poesia. Também posso detestar o estilo artístico de outro, mas a sua arte não deixará de ser arte. Muitos hão de refletir e se emocionar com a poesia e com a obra de arte que rejeitei como tais, não importa com que argumento. Poesia e artes são abraçadas como profissões, porque o mercado as absorveu, mas originalmente são as mais legítimas manifestações dos paraísos e abismos que habitam a sensibilidade humana.

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quarta-feira, 6 de agosto de 2025

POSANDO VESTIDO

Demétrio Sena - Magé 


Fiquei assim; sem vergonha;

nem estava nos meus planos

posar com tais desacatos...

mostrar o corpo enrustido

no exibicionismo dos panos...

no despudor dos sapatos.

Agora não tem mais jeito;

não fico mais comportado 

feito um menino inocente...

que acha que não tem defeito...

e por isso não se poupa.

Vim me assumir indecente;

mostrar sem medos; tensões:

meu corpo cheio de roupa,

minh'alma inteira tampada 

por zíper; cadarços; botões...

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terça-feira, 5 de agosto de 2025

SOBRE O NOSSO VIRALATISMO

Demétrio Sena - Magé 

Se eu vier a cometer crimes e for julgado, condenado e preso em razão deles, isso não configura violação dos direitos humanos. Nem acredito que preciso dizer algo tão óbvio, mas preciso, sim. Vivo em um país onde a interpretação das leis está sendo posta de ponta-cabeça por lideranças politicas e suas fiéis multidões interessadas em impor um governo ilegítimo, tirano e subserviente a poderes externos.Tendo cometido eventuais crimes, eu é que terei violado os direitos humanos de quem sofreu por causa dos meus atos. Motivo pelo qual terei que pagar, nas formas e nas proporcionalidades das nossas leis.

Uma vez apenado, só serei vítima da violação dos direitos humanos se a minha pena for desproporcional, marcada por crueldades físicas e psíquicas e eu for entregue ao abandono jurídico: sem direito à defesa institucional por legítimos representantes. Afora isso, eu serei apenas alguém que violou as leis e por isso está  preso. As prisões para pessoas comuns, como eu, é que são cruéis e dificilmente são domiciliares. A justiça jamais me permitiria cumprir pena por crimes graves, inclusive de conspiração geopolítica contra o meu país, na mansão que jamais terei, com todos os confortos e mimos imagináveis.

Continuo não acreditando que preciso dizer algo tão óbvio, mas preciso, sim: os crimes demandam investigações, as condenações e as penas. E uma prisão antecipada (preventiva) é perfeitamente legal quando, principalmente, um grande criminoso estabelece o caos social em parceria com outros grandes e pequenos criminosos, muitos ainda não culpabilizados, para que a sua culpa se configure como inocência, com intimidação das instituições legais, com ilegalidade jurídica e ameaças de um tirano internacional. A que ponto chega o viralatismo de uma multidão que deseja voltar a ser colônia?

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quinta-feira, 31 de julho de 2025

ÓDIO DO MORANGO DO AMOR

Demétrio Sena - Magé 

Peço, por caridade, que não inventem mais nada de amor para comer. O amor encarece muito as coisas. O preço da maçã, nas épocas de festas tradicionais vai às alturas. O morango, justo ele que demoramos tanto a tornar uma fruta comum nas mesas de lares simples, também está ficando inacessível, porque virou do amor. Mesmo lá no supermercado, na feira ou no hortifruti, antes do caramelo e da anilina, já está caríssimo. Nas festas, então, dentro do seu traje a caráter, pior ainda. Tudo culpa do amor, que o tornou fatal, tanto aos olhos quanto ao nosso bolso. 

Ainda bem que a uva do amor não fez tanto sucesso. Já é naturalmente cara, mas ficou em seu caro habitual. Sua cotação teria explodido, se como fruta sazonal do amor tivesse despertado as ambições salivares ou estomacais, como tem sido com o morango. Imagine o kiwi do amor! Já pensou na castanha, nas nozes, avelãs do amor, em fim de ano? E naquelas frutas cristalizadas? Nem quero pensar nelas com o tarifaço extra do caramelo vermelho. Vestidas para matar! Não. Chega de amor. O amor está muito caro na mesa e nem é tão bom quanto o amor na cama.

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AS IGREJAS E A SOCIEDADE

Demétrio Sena - Magé 

Recebo notícias de afeto em viagem, incluindo a boa nova de que fizera uma caminhada de quase duas horas sem ver nem um templo evangélico. A cidade mineira é pequena, mas conta com uma diversidade cultural fantástica.Tem cinema, mini-teatro, barracas de artesanato e um centro cultural com belas exposições de artes plásticas e fotografias produzidas pelos próprios moradores, além das peças externas.

Os moradores locais são bem pacíficos e gentis; tratam a todos com igualdade, não manifestam preconceitos e parecem felizes; bem resolvidos. Os templos católicos lá existentes têm uma função artística talvez maior do que religiosa: são bucólicos, barrocos, centenários e têm uma carga histórica e cultural capaz de gerar reflexões profundas sobre séculos passados, a colonização, a escravidão, injustiças e conflitos. 

Sempre achei lamentável constatar que quanto menos igrejas (especialmente as evangélicas), mais cultura; menos medo; menos pressão, preconceitos e desigualdades. Quanto menos igrejas, mais calma, menos problemas emocionais, menos politicagem. Menos igreja, mais gentileza e respeito à diversidade humana; menos perseguição e vigilância sobre os gostos, manias, culturas e olhares pessoais sobre o mundo, a vida e a fé coletiva ou de cada um.

Não quero que as igrejas acabem. Respeito a fé religiosa que não se espalhe como ameaça. Gostaria que religiões não fossem inimigas das artes, das liberdades individuais, as diversidades humana, cultural, nem se atrelassem à política para pôr cabresto na sociedade. Igrejas não podem ter como desafio fechar pontos de cultura para construções de templos mais dedicados a lucro e dominação do que ao evangelho.

Eu ficaria feliz com a convivência pacífica entre católicos, evangélicos, budistas, umbandistas, outros religiosos, ateus e agnósticos, todos com direito a espaços respeitados... não vetados, banidos ou substituídos como estratégia de domínio. Preferia que meu afeto em viagem me dissesse que passou por templos diversificados e também cinemas, teatros, galerias e espaços esotéricos dispostos democraticamente.

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terça-feira, 29 de julho de 2025

FICÇÕES BASEADAS EM FATOS

Demétrio Sena - Magé 

Ao assistir a mais um daqueles filmes de super vilões que se tornam intergaláticos, dominam planetas e apavoram a raça humana com destruição em massa, para depois dominá-la, repeti meu chichê: 'Esse filme é baseado em fatos' (preciso dizer reais?). Quem assistia comigo riu, como se fosse brincadeira. Minha fala pareceu ainda mais absurda, porque nesse filme o vilão transformava humanos em robôs infinitamente mais fortes, dominados por ele, para derrrotarem os resistentes; os heróis. 

Pensem nos líderes mundiais que sempre tentam dominar o mundo pela força... nos genocídios de países que atacam outros países e violam todas as regras que regem as guerras... guerras que já são um absurdo. E pensem até nas figuras deploráveis que vão à procura de governantes externos para conspirarem contra os próprios paises, na produção do caos... da fome... do desespero, na intenção de futuramente se apossarem de seus países e pagarem pelos "favores", entregando as riquezas naturais, as tecnologias e a própria soberania, em razão da dependência.


O mundo tem, realmente, super vilões capazes de cometer grandes atrocidades... como tem os vilões rasteiros e medíocres, dos quais falamos agorinha, capazes das piores atrocidades, auxiliados pelos super vilões, em negociatas escusas. Sobre os possíveis exageros (possíveis, porque hoje temos muitas tecnologias usadas principalmente para o mal, que no passado foram ficção), continuo a dizer que são baseados em fatos. Trata-se de filmes que, neste aspecto, são baseados no que o ser humano será capaz de fazer... quando for plenamente capaz de fazer. 

Sobre os heróis? Não. Não há heróis. Os que se apresentam como tais, são vilões sonsos. Há resistências humanas, de líderes e liderados conscientes de seus limites e com códigos de justiça, ética e humanidade. Esses, o tempo e a verdade podem tornar bem sucedidos, de forma lenta e gradual, com muitas desvantagens no caminho. A vantagem típica dos vilões está no fato de eles serem capazes de tudo; qualquer atrocidade ou golpe baixo para conseguirem sucesso em seus projetos pessoais.

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sábado, 26 de julho de 2025

A TORTURA DAS DATAS COMEMORATIVAS

Demétrio Sena - Magé 

Tenho sérios problemas com datas comemorativas, no que tange a lembrança e também o mergulho nas ondas de felicitações. Imaginem vocês, que até do natal, que as pessoas começam a comemorar um mês antes, eu esqueço; não percebo. Quando vejo, o peru já está na mesa, já comi vinte rabanadas (o meu sentido do natal) e já estou correspondendo a um montão de abraços; inclusive de gente que passa quase o ano inteiro de cara feia comigo. 

Dia desses foi o dia do amigo. Costumo abrir meu perfil em rede social pela manhã e mais um pouco à tardinha. Nesse dia, por alguma razão que já não lembro, só abri à tardinha. Havia uma enxurrada de textos sobre a data e eu não tinha preparado nada específico; publiquei o que tinha escrito no dia, que não era sobre amigos. Gosto muito de minhas amizades cibernéticas, como dos amigos de carne, ossos e alma... ah; também de pele, porque sem pele, ficam assombrosos... mas tenho problemas com escrever por encomenda... escrever sobre datas no ato delas, é como escrever por ecomenda.

Teço minhas demonstrações de afeto aos amigos, na interatividade online ou presencial diária... minhas felicitações de aniversários e algumas conversas em particular com quem tenho maior proximidade, mas por favor: não meçam minha sensibilidade ou a consideração pelo número de homenagens que faço nas datas especiais como do poeta, do escritor (como se poeta e escritor fossem diferentes), entre outras inúmeras ocasiões. Todo dia é de algo. Peço até às árvores, aos animais, à bandeira nacional que não fiquem tristes por eu não publicar a respeito nos dias específicos; nas enxurradas.

Triste, mesmo, seria não ter o natal. Amo rabanada. Tanto, que suporto as músicas natalinas e até abraços de gente que passa quase o ano inteiro de cara feia comigo. A tal ponto, que algumas vezes me arrisco a enfrentar a fiscalização e fazer umas rabanadas no dia do dentista ou da ginástica artística. Peço a todos que me perdoem pelas ausências escriturais nos dias específicos. Meu chichê é de que todo dia é dia de tudo e todos... será que cola?

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sexta-feira, 25 de julho de 2025

BOLSONARO É PEDRA DE JOGO NORTE-AMERICANO

Demétrio Sena - Magé 

Eu sempre soube, em silêncio, que o presidente dos Estados Unidos não dá nenhuma importância para os Bolsonaro. Inclusive, há poucos dias ele declarou que não é amigo do ex-presidente brasileiro; apenas sabe quem ele é e fez uns elogios rápidos e rasos, como políticos comum fazem aos seus cabos eleitorais. 

De anteontem para cá, os interesses demonstrados por Trump, em relação ao Brasil, deixaram bem evidente que Eduardo e Jair Bolsonaro são apenas peças de uma chantagem ou de um jogo de interesse comercial. Os Estados Unidos estão interessados nos minérios estratégicos do Brasil. Uma riqueza nossa, de grande potencial para as tecnologias do século presente e para o futuro. Minérios como o lítio, o grafite, o urânio, o cobalto, o cobre e muitos outros para fabricação de chips, computadores, carros elétricos e até mísseis hipersônicos.

Nas poucas conversas entre representantes norte-americanos e Brasileiros, isso foi aventado como possível acordo para a retirada ou diminuição das tarifas impostas ao Brasil e outras pressões. O Brasil é o país detentor da segunda maior reserva desses minerais, perdendo apenas para a China, país sobre o qual os Estados Unidos têm menor poder pressão. As chamadas terras raras do Brasil vêm despertando a ambição das maiores potências mundiais; os Estados Unidos são apenas uma delas, e veem seu poder de chantagem nos conflitos hoje notórios por aqui. Os Bolsonaro são só a bucha da vez.

As técnicas e os recursos de exploração desses minerais, no Brasil, ainda são insuficientes; o governo busca parcerias justas para o desenvolvimento das tecnologias possíveis resultantes de suas terras raras. Se vier a ocorrer um acordo (justo e lucrativo para ambos os lados) entre o Brasil e os Estados Unidos, acabam as chantagens e os Bolsonaro perdem a barra da saia sob a qual se julgam seguros no momento.

A euforia dos seguidores fanáticos do ex-presidente Bolsonaro com a chantagem de Trump não têm uma base lúcida. Existe, sim, uma grande tensão entre os dois países, mas o fundo é inteiramente comercial. Os Bolsonaro, seus aliados políticos e suas multidões em declínio estão prestes a perder essa nova ilusão. 

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quinta-feira, 24 de julho de 2025

DORES E ALÍVIOS NA SOLIDÃO REFLEXIVA

Demétrio Sena - Magé 

A maior mágoa que tenho do meu pai, e que será para sempre, é por ele ter morrido sem me dar a chance de perdoá-lo por todas as atrocidades que fez comigo, meus irmãos/irmãs e, principalmente, com a nossa mãe, que acho que o perdoou antes da própria morte.

Pensei a respeito, ao assistir mais uma vez a um filme sobre a trajetória de uma dupla de cantores. Depois de muitas mágoas, idas e vindas, decepções desastrosas e até ameaças entre pai e filho, um dos cantores teve tempo de conviver bem com o seu pai, antes de perdê-lo em definitivo. O perdão foi possível, porque um se deixou ser perdoado, para que o outro se deixasse perdoar. Houve arrependimento e generosidade, além da chance do tempo, que às vezes trabalha tão lentamente. Nem sempre nos contempla com a construção ou reconstrução de um afeto.

Hoje não perdoo meu pai, por eu não tê-lo perdoado. Tenho rancor por ter continuado rancoroso. Meu pai se foi sem eu ter evoluído o bastante para conseguir quebrantá-lo e resgatar sua humanidade. Fracassei por ter sido um filho que aceitou o fracasso do pai como tal.

Castigamos a nós mesmos, com a mastigação dos nossos rancores. Nem sempre conseguimos perdoar, sublimar nem esquecer o que vivemos ou vivenciamos e nos machucou, mas remoer é o pior que temos a fazer por nós. Quando não podemos perdoar uma pessoa que deveria ter feito parte dos nossos afetos mais estreitos, mas é o alvo direto das nossas dores, perdoemos a vida, o mundo e a nós mesmos. E deixemos que a pessoa em questão descanse nas nossas memórias. Sei o que é não fazer isso e não me ponho como exemplo do meu conselho.

Seja como for, administremos nossos buracos e tentemos encontrar equilíbrio, para que os momentos de solidão reflexiva não firam insuportavelmente. Há muitas memórias boas entre o caos das ruins. A lembrança do amor de minha mãe sempre me acode nessas horas.

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terça-feira, 22 de julho de 2025

SOBRE MIM E MAIS NINGUÉM

Demétrio Sena - Magé 

Dizer que tenho amor pela vida seria exagero. Tenho simpatia pela vida. Sou capaz de alguns esforços para viver, mas não de todos os expedientes para sobreviver. Para mim, seguir a qualquer custo é desrespeitar os limites da vida; renegar a soberania da morte.

Afirmar que me amo, também seria exagero. Sou simpático à minha pessoa. Sobretudo, acho que ser amado pelo outro é muito melhor do que por mim mesmo. Priorizo amar minhas filhas, minha esposa, os meus irmãos, parentes queridos e os amigos reais. Essa é uma bela forma natural de ser amado; se não por todos, por uma boa parcela. Receber o amor sem apelação, que vem do outro em forma de resposta espontânea. Como agradável colheita existencial.

Aceito as pessoas como elas são. Não a vida. Só Aceito a vida "vivível"... plausível, mesmo dura. Viável, mesmo difícil. Com luz visível no fim, quando se apresenta como túnel. Sem esperança, não acho justo viver. E Aceito as pessoas com os defeitos e virtudes que têm. Não a mim. Tenho mil defeitos e todos os dias me deploro por isso. E deixo que as pessoas me aceitem como sou. Essa troca é o que me corrige no dia a dia. Eu não saberia mudar a mim mesmo. 

Vou me levando e a vida vai na carona. Simpático a mim, troco gentilezas com ela, por quem tenho simpatia. Não sendo amor, meu sentimento pode acabar de repente, sem a mínima resposta esperada... e no fim das contas, acho a morte bastante sedutora.

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