sábado, 25 de outubro de 2025

SOBRE OS EXTREMOS

Demétrio Sena - Magé 


Muitas vezes, dizem que alguém se converte ao evangelho, quando está no fundo do poço. Entretanto, sendo o fundo do poço a coroação de uma trajetória desgraçada, que deságua em um profundo arrependimento, converter-se a uma religião já é o próprio fundo. Mais triste ainda, é a pessoa se unir obrigatoriamente a outra do mesmo contexto de vida, para criar uma prole "perfeitamente uniforme" e depois se vangloriar, dando tapas no próprio peito: "EU criei todos eles dentro da igreja!". 

Em outras palavras, a pessoa conheceu o mundo, viveu, fez as suas escolhas, mas os filhos, talvez os netos, nunca viram a superfície. Foram criados no fundo do poço e, se um dia resolverem buscar a luz da liberdade, serão para sempre ofuscados por um remorso; um profundo sentimento de culpa: o de quebrarem a tradição familiar de pertencer ao fundo do poço, onde o radicalismo do inverso faz idealizar o céu, simulando-o no inferno da própria realidade. Uma realidade fantasiosa, repleta em superstições, medos ou coragens doentias em uma guerra espiritual imaginária contra demônios e pessoas que se tornam demônios, porque são da superfície. 

Há gerações e gerações criadas nesse fundo, imaginando que salvaguardam suas almas e desfrutam do reconhecimento divino que há de coroá-los depois da morte. Como adiantamento, a ilusão de serem guerreiros e guerreiras do "Supremo". Superiores aos seres da superfície - os mundanos. Uma "santidade" que os torna - sem abandonarem as expressões contritas - dispostos a puxar compulsoriamente os "mundanos" para o fundo do poço ou cancelá-los sumariamente.
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sexta-feira, 24 de outubro de 2025

CORAÇÃO INCORRIGÍVEL

Demétrio Sena - Magé 


Sou desses caras ingênuos, ou bobos, que sempre acham que fizeram afetos em determinados lugares. E quando resolvem, chegam cheios de acenos, aos locais, para matar saudades. Com o riso exposto, chamamando as pessoas, em alto som. Só aí percebem, em polegares distantes, sorrisos pálidos e cumprimentos desconcertados, que o afeto é unilateral; não existe a reciprocidade que só os corações bobos acreditam haver, nestes tempos de muita pressa. De muito separatismo, pelas mais diversas questões, das mais profundas às mais fúteis e rasas.

Até entre pessoas com laços consanguíneos está assim. Com pouco tempo de ausência, eventuais retornos têm surpresas como essas: cumprimentos frios, olhares incomodados, ameaças veladas de assuntos que podem criar atritos e a velha imposição do gênero "minha casa, minhas crenças; preferências; hábitos; orientações; visões de mundo, vida, política e sociedade", sem direito a contraditórios. Quase ninguém se alegra por ver o outro; quase ninguém recebe com alegria nem se comporta ou se expressa de forma docemente brega, para mostrar o quanto o outro é bem-vindo... seja ele como for, como ele aja, não importa no que acredite.

É assim nos ambientes físicos, nos grupos de redes sociais e até nas conversas remotas, mesmo entre duas pessoas, por alguma razão que, se não houver, será inventada. "Mudar o rumo da prosa", porque já está "batida" ou desgastada, não vai adiantar. A outra "prosa" será também constrangedora, porque a fogueira dos egos é obrigatória nestes tempos. Mas ainda sou desses caras bobos; que têm uma carga de conceitos nada ou não muito convencionais, e mesmo assim acredita na congregação dos opostos; na união da diversidade; na igualdade sob as diferenças.
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quarta-feira, 22 de outubro de 2025

DAS INJUSTIÇAS CONFORTÁVEIS

Demétrio Sena - Magé 


Há quem ache bem confortável manter um mal entendido com alguém, na condição de atingido. Isso dá bem menos trabalho do que tentar pôr as cartas na mesa, com esse alguém. Tirar a limpo, com toda a sinceridade que a situação exige, principalmente quando se trata de um ente querido. 

Abrir mão do protagonismo, para ser quem procura e precisa dirimir dúvidas, poderá demandar uma conversa franca, de olhos nos olhos, e isso pode causar uma distopia, como também uma situação constrangedora para quem possivelmente já desabafou com terceiros e construiu sua imagem de personagem irremediavelmente ferida.

Essa pessoa pode passar de protagonista a vilã e de quem deveria receber um pedido de perdão para quem deverá pedir, por causa da sua injustiça. Do próprio silêncio que por algum tempo não deu ao outro, a chance da ciência do que houve nem da elucidação, da justificativa e possível defesa.

Correr o risco de perder o seu posto de ofendido ou constrangido, para se tornar a pessoa que ofendeu ou constrangeu, exigirá uma grandeza e uma coragem raras entre os seres humanos. Arriscar-se a reclamar o possível banco dos réus não é para qualquer essência, consciência ou sensibilidade.
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segunda-feira, 20 de outubro de 2025

PRESENÇAS AUSENTES

 


UM ACRÓSTICO EM PROSA

Demétrio Sena - Magé 

Beijam as botas, os coturnos e as mãos assassinas de quem os rege. Ouvem ordens das trevas, que dizem ser da luz, e as cumprem das formas mais rasteiras. Ludibriam ou pelo menos julgam ludibriar a verdade; cultuam mentiras; desinformações; truques levianos. Suas mentes afundam, dia após dia, em um lodo sem fim. Os motins e as conspirações contra seus opostos são constantes. Não encontram os motivos que justifiquem tais atos, mas arrombam portas da sociedade. Abrem fendas; feridas em solos alheios.

Roubam sonhos, odeiam, são separatistas, têm cargas imensas e múltiplas de preconceitos. Instituem seus gritos de comando e cerco aos que pensam diferente, seguem outros padrões ou nem têm padrões. São estercos inférteis das próprias histórias inventadas para forçarem a normalização de suas atrocidades.

Têm a gosma do mal sob a casca, os discursos, as pregações e os louvores do bem. Agem sem um sentido humano, civilizado e inteligível para suas ações truculentas, desarvoradas e com base em um leque de fanatismos religioso, político-partidário e grupal (porque social não definiria o contexto). Seguem velhas orientações de sociedades mumificadas, que o mundo moderno julgava extintas; decompostas em idades ultrapassadas do mundo, que ora parece insano, confuso, e do do próprio tempo.

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domingo, 19 de outubro de 2025

DO CRISTIANISMO PERVERSO

Demétrio Sena - Magé 

Faz muitos anos que o meio cristão não me comove; notadamente, o meio evangélico. Sempre que uma palavra, um gesto, atitude, olhar ou até silêncio me faz refletir ou mexe com a minha consciência de forma positiva, levando-me a repensar sobre algo, geralmente não é de quem prega ou segue o evangelho. 

Posso dizer que, se hoje, alguém me levasse a crer em Deus, seria uma dessas pessoas mais evitadas pelos cristãos, pois, atualmente, as qualidades que mais admiro no ser humano (empatia, humildade, respeito às diversidades étnica, religiosa e de gênero, apego à paz) é o que os cristãos de agora mais condenam como vivências reais, para muito além das palavras restritas aos seus sermões. 

A falácia que vem dos templos; as contradições entre o que pregam e fazem; a seletividade baseada nos preconceitos; o quanto condenam, massacram, isolam e odeiam até seus entes queridos que não seguem as mesmas crenças, me assustam. Não me levam a me afastar, pois não seleciono pessoas de acordo com as semelhanças comigo, mas me afastam por força dos cancelamentos convivenciais.

Recentemente, uma pessoa muito querida por mim justificou seu afastamento de quase todos (os que não professam a mesma fé), com afirmações do quanto está "acima das pessoas e dos acontecimentos do mundo". De como a sua espiritualidade a distanciou da própria terra. Classificou a própria "atmosfera" espiritual como algo que a promoveu a um ser de luz superior aos "humanos normais".

Essa ingenuidade arrogante não me comove. Uma soberba mal escondida em olhos contritos. Em palavras maliciosamente brandas de quem pegaria em armas para obrigar o próximo a se converter ao evangelho e, como ato casado, à política partidária de direita, se o seu líder garantisse aos gritos, que foi "Deus" quem deu a ordem. A quem eles chamam de pobres pecadores é que me comovem.

Devo confessar que convivo com exceções (absolutas) desse meio. E por serem exceções em suas formas de viver sem preconceito nem apologias a si mesmos, tais cristãos também estão sendo afastados, cancelados, impedidos de professar. Esses também me comovem. Não me tornam cristão, mas me comovem.

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sexta-feira, 17 de outubro de 2025

VALE TUDO?

Demétrio Sena - Magé 

A Raquel é chata, porque é muito "certinha". A Consuelo, "um porre", pois "com aquela honestidade insuportável", denunciou o Marco Aurélio e desfez um esquema de corrupção. O Afonso e a Solange? "Aff; é muita bondade junto; ninguém suporta!". "Que mala, o Sardinha! Esse aí ajuda a todo mundo, é um poço de ética, empatia e solidariedade!". Por outro lado: "Ah, o Marco Aurélio é Franco; a Odete é o que é; o César mostra a cara e a Maria de Fátima não esconde o mau caratismo...". "Esses dizem a que vieram!".

São alguns; apenas alguns dos milhares de comentários na web, sobre o penúltimo capítulo da novela Vale Tudo, da Rede Globo, nesta quinta-feira, que esses típicos comentaristas dizem não assistir e chamam de Globo Lixo. É possível saber, sem margem de dúvida, qual é o grupo que pensa dessa forma, considerando o tom de voz que nos vem à mente. Como dá para entender o amor doentio desse grupo pela figura lamentável que há menos de quatro anos ainda governava (ou será que desgovernava?) o Brasil. 

Cada dia menos telespectadores entendem o que é denúncia, o que é fantasia, licença poética ou proposta de reflexão em uma novela, um filme, uma série, uma peça teatral, um seriado. Comentários bisonhos mostram isso. Da mesma forma, cada dia menos pessoas entendem as nuances de um bom livro, um poema, uma boa canção, uma obra de arte (quando leem ou veem). Menos pessoas, a cada dia, fazem qualquer leitura minimamente relevante ou elucidativa do mundo; a contemporaneidade; as atitudes; a vida.

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NOSTALGIA

 


quarta-feira, 15 de outubro de 2025

SOBRE DIAS DE PROFESSORES

Demétrio Sena - Magé 

Não adotei o clichê de que a Educação me torna uma pessoa melhor, a cada dia. Quem trabalha com educação (e cultura - sou profissional de Cultura dentro da Educação) há mais de trinta anos, hoje seria um santo; já teria sido arrebatado ao suposto céu, se a cada dia de todo esse tempo, acordasse um pouco melhor. Um ser humano melhor.

Para dizer a verdade, às vezes volto para casa um pouco pior do que cheguei ao meu local de trabalho. Convivo com tanta injustiça e vejo tantas outras, cometidas não somente contra os meus colegas professores regentes, mas também contra os alunos, pelos poderes que regem o sistema, que me sinto à beira da descrença total. Pior ainda, perceber que o sistema põe os alunos contra os professores, os professores contra os alunos e a sociedade como um todo, contra os dois lados, é algo enlouquecedor. Como diz um amigo de rede social, e parceiro em um livro, é de arrancar sabiá do toco.

Mas devo confessar: o que tenho de humanidade na cabeça e no coração, devo ao meu trabalho. Quando iniciei essa trajetória, cheguei com tudo; com todas as brutalidades que me eram peculiares, crendo que poderia educar na marra. Tive que mudar na marra. Precisei aprender que lido com pessoas em formação, muitas vezes dependentes do que tenho a oferecer, que possa tampar o abismo cavado, em suas próprias casas. Julguei que os prazeres e as facilidades de ser um arte-educador (animador cultural, segundo a Secretaria Estadual de Educação) seriam constantes no meu dia a dia, nos limites físicos da escola. Não são. 

Cada dia melhor é hipérbole, mas trabalhar com a Educação me educou (deixando, evidentemente, muitas raspas de truculência, intolerância e incompreensão). Educou os meus olhos para me ver nas meninas e nos meninos com que trabalho, e saber o que eles esperam de mim, que é justamente o que eu esperava dos meus professores, na infância e na adolescência. Educou meus conceitos, para retroceder e repensar, quando sou injusto ou pelo menos excessivo em meus atos. Educou-me para saber quando estou à beira de ser antiético, abusivo e sem limite, em questões que fora da Educação normalizam a falta de ética, o abuso e o excesso.

Aprendi, trabalhando com Educação e Cultura, que a igualdade mora nas diferenças; que as injustiças formam criminosos; que o racismo, a homofobia, o machismo e o fanatismo religioso matam... mas o trabalho em Educação, com excelência, salva e forma cidadãos felizes. A diversidade gritante na Educação, notadamente pública, faz de cada aluno, cada colega de trabalho em qualquer setor, cada pai, mãe, outros responsáveis de aluno, uma lição de vida que se não aprendermos, nunca seremos aprovados como seres humanos; sociais; cidadãos do mundo.

Aos professores/professoras, direção, orientação e demais colegas, que educam no pátio e nos corredores, na secretaria, na cozinha, na portaria, em serviços gerais: a todos, absolutamente todos, minha manifestação de carinho, respeito e profundo orgulho por tê-los como colegas de trabalho.

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